2019/10/22

Da visão rumsfeldiana à guerra das doutrinas militares

Que guerra estão os americanos a travar no Iraque? Depois de meses de discussão no Pentágono, Rumsfeld conseguiu fazer aprovar o Plan 1003, no qual o secretário de Defesa norte-americano aplicou um esboço daquilo que poderá vir a ser a sua visão para o futuro das forças armadas, já conhecida como a “doutrina da guerra digital”.

Na elaboração dos planos da Liberdade Iraquiana, o círculo restrito de assessores de Rumsfeld bateu-se pelo seu projecto, confrontando-se com os estrategos militares do Pentágono, que foram relegados para um papel secundário. O “Plan 1003” é claramente a consagração da visão de Rumsfeld em desfavorecimento do conservadorismo das hierarquias militares.

Desta forma, “o conflito com o Iraque não serve apenas para remover o Governo de Saddam Hussein. Serve também para estabelecer uma nova lição militar”.

“O inimigo que nós combatemos agora é um pouco diferente daquele que nós tínhamos concebido nos nossos cenários de guerra”, disse o tenente-general, William Wallace, que comanda o Quinto corpo do Exército americano no terreno.

Após duas semanas de guerra, este tipo de expressões começa a invadir as mentes dos soldados no terreno e está a ser utilizado pelas altas chefias militares anglo-americanas para justificarem os percalços de uma guerra, outrora anunciada rápida e triunfal.

Dia após dia a coligação anglo-americana vai-se enterrando num atoleiro, do qual a sua saída é ainda uma incógnita. As dificuldades têm surgido a cada quilómetro galgado no deserto iraquiano pelos blindados e soldados.

À medida que as forças britânicas e norte-americanas vão progredindo em direcção a Bagdad, para trás vão ficando bolsas de resistência iraquianas que, na verdade, têm impossibilitado a euforia em Washington e Londres e a aclamação do sucesso claro no cumprimento da operação Liberdade Iraquiana.

Apesar dos demais obstáculos, é o espírito de resistência das forças iraquianas que mais tem surpreendido os homens no terreno e as cúpulas política e militar. Mas, é sobretudo no seio da Administração Bush que a atitude das forças iraquianas e do próprio povo – longe de receber de braços abertos os “libertadores” – se assume como um factor desconcertante e humilhante nos decisores políticos e estrategos.

Se, por um lado, será incorrecto qualificar a actual situação do conflito, como um fracasso para as forças anglo-americanas e, consequentemente, como uma vitória para o regime de Bagdad, por outro lado, ao fim de quinze dias de confrontos bélicos é impossível deixar-se de constatar que algo se passa na abordagem estratégica que a coligação anglo-americana está a fazer no terreno.

Ou seja, se para as chefias militares é verdade – e tendo em conta a dimensão desta guerra e a titânica missão da coligação anglo-americana -, que este conflito poderá estar a seguir dentro dos padrões aceitáveis (por exemplo, até ao momento registou-se um número reduzido de baixas entre os soldados anglo-americanos), é igualmente verdade que os dias vindouros poderão proporcionar momentos de pesadelo aos militares ingleses e americanos, por imposição de contingências que talvez tenham sido descuradas na fase de planeamento estratégico nos meses que antecederam o início da operação Liberdade Iraquiana.

Não será, por isso, de estranhar que nos últimos dias tenham surgido notícias revelando divergências nos centros de decisão e cepticismo nos homens do terreno. A guerra do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, o “falcão dos falcões”, começa, assim, a provocar os primeiros danos colaterais políticos que, ironicamente, estão a rebentar no seio da Administração Bush, mais concretamente no Pentágono.

Richard Perle, um outro falcão da administração Bush, assessor do Pentágono, e até ao passado dia 27 de Março Presidente do Comité de Políticas de Defesa do Congresso, ficará para a história desta guerra como a primeira baixa política nos corredores de Washington. Um homem que não se coibiu de anunciar que o Exército de Saddam iria depô-lo através de um golpe de Estado está claramente desacreditado aos olhos das chefias militares.

“Eu não acredito que precisemos de destruir o Exército de Saddam. Eu penso que o Exército de Saddam irá destruir Saddam”, revelava Perle há uns tempos. Ainda na última edição do “El Pais” de domingo Perle vaticinou que esta guerra iria ser curta, “num abrir e fechar de olhos”.

Também outro assessor do Pentágono, Ken Adelman, escreveu há um ano que “a demolição do poder de Saddam Hussein e a libertação do Iraque” iria ser “um passeio agradável”. Relembre-se que Perle e Adelman são homens da confiança de Rumsfeld e de extrema relevância nas decisões políticas.

Foi o próprio secretário de Defesa que nem há um mês referiu que a guerra poderia durar no máximo “seis dias, seis semanas”, duvidando da sua extensão para seis meses. Mas, na verdade, a guerra já entrou na sua terceira semana e não se vislumbra num horizonte próximo o fim do conflito.

É nesta perspectiva que alguns militares de alta patente no terreno e em Washington começam a ficar pessimistas quanto ao desenrolar da guerra. O SEMANÁRIO abordava esta questão há precisamente uma semana, citando fontes militares ao “Washington Post”, o primeiro jornal a levantar o véu sobre esta questão, revelando que alguns militares confessaram em privado nas várias salas do Pentágono e no campo de batalha que a progressão da intervenção militar estava a ser mais difícil do que aquilo que se esperava antes do início das hostilidades. “Digam-me quando é que isto vai acabar”, desabafava um alto militar ao “Washington Post”.

À medida que se desenrolam as operações no terreno e as dificuldades emergem, as divergências entre os militares e os políticos do Pentágono são cada vez mais evidentes e tensas. O tenente-general, William Wallace, foi até agora o militar mais crítico ao trabalho do Departamento de Defesa.

São cada vez mais as queixas provenientes dos comandantes do Exército norte-americano que estão no Iraque. Estes acusam o Pentágono de não ter enviado o número de tropas necessário para o cumprimento das suas missões. “Ele (Rumsfeld) quis travar esta guerra de uma forma barata. Ele tem o que quis”, disse esta semana ao “New York Times”, um coronel do Exército americano.

Nesta lógica, as comparações entre Rumsfeld e o arquitecto da guerra do Vietname, Robert S. McNamara, secretário de Defesa de Kennedy, começam a ser óbvias.

Visões em confronto sobre o futuro das Forças Armadas

O debate é amplo e não se restringe apenas à guerra no Iraque. As críticas que surgem de um lado, e os argumentos dados pelo outro, enquadram-se em dois projectos para o futuro das Forças Armadas norte-americanas.

A intervenção militar no Iraque foi vista por muitos como o palco ideal para se começarem a aplicar determinados conceitos que, na perspectiva de Donald Rumsfeld, serão as linhas mestras das Forças Armadas do futuro.

Nunca foi segredo para ninguém que desde o dia em que Rumsfeld tomou posse como secretário de Defesa, procurou alterar o conceito da Defesa americana, de certa forma, como aconteceu noutros países, inclusive Portugal, que esteve durante meses mergulhado numa vasta discussão sobre a reformulação estratégica e teórica das FA.

Seguindo um princípio inovador, Rumsfeld quer umas Forças Armadas mais móveis, com armas de precisão a longas distância, retirar mais valias das novas tecnologias de reconhecimento e libertar a estrutura das forças armadas de um peso administrativo e operacional excessivo, na perspectiva do Pentágono.

Nesta reforma o factor monetário exerce com toda a certeza um papel preponderante, sendo que a nova estratégia de Rumsfeld visa tornar a guerra mais eficiente, menos mortal e mais barata. Foram com estes conceitos, aliados a alguns erros de análise da capacidade de resistência das forças iraquianas, que Rumsfeld e a sua equipa do Pentágono elaboraram o documento “Plan 1003”, a estratégia de ataque ao Iraque.

O “Plan 1003” é claramente a consagração da visão de Rumsfeld em desfavorecimento do conservadorismo das hierarquias militares.

Estes, seguindo uma tradição bélica adversa a rupturas de conceitos, representam a outra visão sobre o futuro das Forças Armadas. Aqui, o peso da estrutura e hierarquia militar faz todo o sentido para sustentar grandes Exércitos, preparados para grandes guerras.

A cirurgia dos ataques passa para segundo plano, salientando-se a conquista territorial com um largo número de homens e meios blindados. Por isso, os militares mais conservadores, ou cépticos, são os principais críticos de Rumsfeld e da sua estratégia, que o acusam de não ter enviado os soldados suficientes para a batalha de Bagdad e para assegurar as linhas de reabastecimento das forças da coligação com a retaguarda no Kuwait.

Desta forma, “o conflito com o Iraque não serve apenas para remover o Governo de Saddam Hussein. Serve também para estabelecer uma nova lição militar”, escreveu Michael R. Gordon no “New York Times”. Rumsfeld vê na superioridade aérea e nas operações especiais a espinha dorsal da visão que tem para as forças armadas, contrapondo a outra visão em conflito, a dos generais do Exército, que vêem nas grandes divisões de blindados o ponto nevrálgico de qualquer estratégia militar.

De facto, o cunho de doutrina Rumsfeld é notório nesta guerra, ainda mais quando comparada com a de 1991. Na altura, o conflito começou com uma campanha aérea de 39 dias, que abriu caminho aos 500 mil soldados para derrotar o inimigo e proceder a uma retirada rápida. Hoje, a força é muito mais pequena, com cerca de 180 mil homens, metade dos quais a operar dentro do Iraque.

Desta vez foi um ataque terrestre que precedeu o ataque aéreo principal, numa estratégia que o Pentágono defendeu como necessária para causar o efeito surpresa, por modo, a proteger os vários campos petrolíferos.

Doutrinas em choque

As tensões que agora emergem entre os militares e o Pentágono resultam de um prolongamento de um debate que há meses que se tem vindo a fazer. Rumsfeld colocou a doutrina da “guerra digital”, como a revista “Bussines Week” a classifica, no centro das suas prioridades, deixando bem claro desde o início que seria este o caminho a seguir.

Enfrentando as resistências daqueles que querem manter o “status quo” dentro do sistema militar, ou seja, os militares da “velha guarda” que defendem que as guerras serão vencidas à maneira antiga – com muitos homens e poder de fogo -, Rumsfeld conseguiu levar o esboço da sua doutrina ao terreno iraquiano.

A resistência à doutrina de Rumsfeld tem surgido de alguns membros do Congresso, mas especialmente dos generais. O comandante das forças da coligação no Iraque, o general Tommy Franks, tinha deixado bem claro a Rumsfeld que era necessário uma mobilização inicial de pelo menos 250 mil homens, uma reivindicação ignorada pelo secretário da Defesa.

Num artigo pormenorizado da revista “New Yorker” é possível constatar-se a guerra de bastidores, e a fricção entre os defensores das duas visões. No Pentágono, o círculo restrito de Rumsfeld esteve praticamente incólume às influências dos conservadores militares. De acordo com um estratego militar do Pentágono à “New Yorker”, Rumsfeld foi o homem que convenceu George W. Bush a fazer este tipo de guerra.

Rumsfeld negligenciou todos os militares de alta patente do Pentágono, dando apenas voz ao clube restrito de assessores, assumindo decisões em áreas que normalmente não são da sua competência. Rumsfeld excedia diariamente as suas capacidades, relegando para segundo plano as opções dos militares do Pentágono.

“Ele (Rumsfeld) pensava que sabia mais do que os outros”, revelou à “New Yorker” o mesmo estratego. “Ele foi sempre o decisor em todas as alturas.”

Por várias vezes, as propostas apresentadas pelos especialistas militares do Pentágono foram recusadas por Rumsfeld, alegando, este, a necessidade de se reduzir o número de forças no terreno e apostar mais nas bombas inteligentes e nas unidades de operações especiais.

O momento crucial terá surgido no passado outono, segundo a “New Yorker”, quando Rumsfeld decidiu preterir do documento mais sofisticado de planeamento militar, o TPFDL (Lista das fases temporais de mobilização de forças), para o delineamento da estratégia a ser aplicada no Iraque. Para os estrategos militares, este acto foi interpretado como uma irresponsabilidade.

“Quando trabalhamos com o auxílio do TPFDL, tudo se move de uma forma ordeira”, salientou um antigo estratego. O documento em questão é, na opinião dos estrategos, uma peça fundamental para se iniciar o planeamento de uma guerra, sobre a qual “todos se treinam e planeiam”. Para um antigo estratego da Força Aérea, o TPFDL “é a forma como se conjuga um plano para aplicar no teatro” de operações.

“Quanto matamos o TPFDL, estamos a matar o planeamento militar central. A defesa não é uma empresa que pode alterar as suas estratégias de acordo com as contingências. (Devido à sua estrutura pesada) É a máquina mais ineficiente para o homem. É a sua redundância que salva vidas”, referiu um antigo oficial dos serviços secretos ao “New Yorker”, e ,como tal, não devem ser ignorados documentos que optimizem as forças armadas.


A Doutrina Rumsfeld no Iraque (tabela)

Ataques de surpresa e rápidos em território inimigo com poucos soldados, mas muito bem equipados.
Resultado: Razoável. As forças avançaram rapidamente, mas as tempestades de areias complicaram o trabalho do helicópteros. As tropas estão em perigo de ficarem sem linhas de abastecimento. A falta de apoio à eventual fadiga da 3º Infantaria poderá prolongar a batalha.

Ênfase nas bombas inteligentes e nos mísseis de precisão para fragmentar cadeia de comando e induzir à rendição os soldados iraquianos.
Resultado: Razoável. Muitos comandos e locais de controlo em Bagdad foram atingidos. Mas, a táctica de “choque e temor” não produziu rendições em massa.

Aumento da utilização de operações especiais e acções camufladas contra alvos militares específicos, por modo a enfraquecer a resistência inimiga.
Resultado: Sucesso. Até ao momento, três aeroportos foram tomados pela coligação anglo-americana, assim como muitos campos de petróleo no sul do Iraque.

Utilização de engenhos autónomos, espiões satélites e aviões de vigilância para controlar o território inimigo.
Resultado: Razoável. As imagens são claras, mas as operações estão a ficar comprometidas pela falta de apoio logístico no solo e as demoradas decisões da cadeia de comando.

Fonte: Business Week

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