2020/10/20

“Soares é outra onda”

Foi a título pessoal, e também na qualidade de amigo e apoiante de Mário Soares, que Vítor Ramalho, uma das primeiras pessoas a apoiar publicamente a candidatura de Soares à presidência, deu a entrevista ao SEMANÁRIO.
Segundo o deputado, as esquerdas terão de chegar a um momento e unir-se para derrotar a candidatura de Cavaco Silva. E apresenta os motivos de uma terceira candidatura de Soares, na actual circunstância.

Em que momento percebeu que Mário Soares queria avançar com uma candidatura presidencial?
Apercebi-me que ele ia ponderar a possibilidade de se candidatar no final de Julho deste ano.

No seu entender, o que conduziu Mário Soares a assumir essa posição, sobretudo depois de ter dito “basta” e “nem no limite” seria candidato. Não é contraditório?Não. Hoje o mundo corre vertiginosamente. De 7 de Dezembro de 2004, quando ele fez 80 anos, até hoje, as alterações no mundo foram brutais. O preço do petróleo mais do que duplicou. O Irão tem uma direcção política neoconservadora em absoluto, facto inesperado. A situação no Iraque é a que é. Houve os atentados em Londres. E a conjuntura interna também é outra. Em 7 de Dezembro (2004) o Governo estava demitido, era um Governo de gestão. Houve eleições no início deste ano e tudo se alterou.

Mas em Fevereiro a eleição já tinha sido realizado e Mário Soares continuou a dizer que apoiaria uma candidatura de Manuel Alegre se ela surgisse.A meu ver bem. Mário Soares teve sempre uma precisão relativamente ao seu amigo Manuel Alegre. Disse que, se ele se candidatasse, ele o apoiaria, isso referiu claramente. Contando, como é óbvio, que tivesse o apoio do partido. Se reler todas as declarações do dr. Mário Soares é nesse sentido. Infelizmente, para Manuel Alegre, o segundo pressuposto não se deu. Mas mesmo do ponto de vista das candidaturas, o que se passou, é que se criou uma vazio à esquerda relativamente aos potenciais candidatos.

No seu entender a candidatura de Manuel Alegre não preenchia esse vazio?
Não preencheu por que o PS não o apoiou.

Foi uma questão de apoio do partido e não do avanço de uma candidatura a título pessoal?
Exactamente. O dr. Mário Soares sempre deixou claro, e aqui não há contradição nenhuma, que apoiaria Manuel Alegre. E acrescentou sempre, a indispensabilidade do partido apoiá-lo. A partir do momento em que o partido não o apoiou, e solicitou a ponderação de Mário Soares, em função deste quadro, no meu juízo, a gravíssima situação que o mundo hoje atravessa e a gravíssima situação que o País tem, tudo está interligado, isto não é indiferente a um homem da estatura de Mário Soares.

Como caracteriza a candidatura de Mário Soares?
Soares é outra onda.

Em certos momentos, na intervenção do anúncio da candidatura, Mário Soares teceu algumas críticas ao Governo de José Sócrates. Interpreta isso como válido?
Mário Soares parte de um pressuposto completamente correcto. Ele é um candidato acima dos partidos, mas apoiado pelo seu partido. Isto, do ponto de vista dos conceitos políticos, é uma diferença abismal. Enquanto um candidato proposto por um partido é um candidato de partido, um candidato apoiado por um partido, ainda que seja o partido que ele fundou, tem uma direcção política completamente diferente…

Está a criticar a candidatura de Jerónimo de Sousa?… isto quer dizer, Mário Soares pretende, como aliás o demonstrou na vida, quando foi Presidente da República, é um candidato acima dos partidos, um candidato nacional. As candidaturas de Jerónimo de Sousa, e do próprio BE, são legítimas, no sentido da participação dos partidos na vida política. Mas, o povo português sabe bem que não são candidaturas que levarão, ou que poderão levar, qualquer dos seleccionados pelos partidos à vitória.

Pensa que a candidatura de Jerónimo de Sousa, e a possível candidatura de Francisco Louçã, são para levar até ao fim, são para desistir ou são um obstáculo, na área da esquerda, à candidatura de Mário Soares?
Não me imiscuo na vida dos partidos e respeito profundamente as opções dos partidos. Mas há um pressuposto, em qualquer delas, que eu registo. As duas candidaturas são também para derrotar a direita. E, a análise que os partidos fazem, no meu entendimento, é que vai haver um momento em que a conjugação de esforços terá inexoravelmente de ocorrer. E é salutar que ocorra.

Nesse sentido, não considera que uma única candidatura (da esquerda) é, apenas, uma candidatura contra Cavaco Silva?
Não considero isso, porque os dois partidos em causa têm negado politicamente essa ideia. E têm-no feito de forma reiterada. Uma questão é os partidos apresentarem agora o seu candidato, outra é o que está subjacente ao sentido de marcha política do objectivo final, que é derrotar a direita. Nesse sentido, parece-me óbvio que, independentemente dos dois candidatos, tudo se conjugará, numa determinada altura, para que de facto a direita seja derrotada com o apoio dos militantes desses dois partidos.

Portanto, considera possível uma candidatura de esquerda, de Mário Soares, derrotar a de direita, ou seja, Cavaco Silva?
Não só considero possível, como considero desejável. Esta questão não é uma questão de homens. Refiro muitas vezes que tenho consideração pessoal, e muito grande, pelo Professor (Cavaco Silva). Ele é um homem sério, honesto e de rigor. Mas, neste momento, na situação do mundo, face à globalização e ao que aí vem, o que interessa é que as ideias políticas sejam defendidas e suportadas, em termos de projecto, por um homem que conheça o mundo, que tenha uma visão global do mundo. Que veja para além dos mecanismos instrumentais que são a economia e as finanças. Sinceramente, nesse domínio, nunca vi o Professor Cavaco Silva ter uma sustentabilidade visível.

Mas pensa que ele não tem essa visão?
Penso que tem uma visão do mundo muito mais redutora do que a do dr. Mário Soares. E dou exemplos. Enquanto o dr. Mário Soares, nos últimos anos, escreveu, depois de sair da presidência, sete ou oito livros, que estão aí a demonstrar o que ele pensa sobre o mundo, sobre Portugal e diversos assuntos, o Professor Cavaco Silva fez dois livros de memórias, escreveu sobre economia e finanças e ficou-se por aí. Naturalmente, um ou outro artigo que é escrito não reflecte uma densidade de pensamento da visão global que tem o dr. Mário Soares. Isto é uma marca muito distintiva.

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