2020/11/30

Cuba Libre ou Mentirita?por Manuel dos Santos

2003.07.23

Como tem sucedido com uma boa parte dos portugueses (em especial os mais novos), também me deixei tentar pela experiência de uns dias passados em Cuba e na sua capital Havana.

Escolhi fazer esta viagem nesta altura (em prejuízo de outras prioridades) por duas razões:

Em 1.º lugar, porque todos os “entendidos” me aconselharam a visita a Cuba antes do desaparecimento (físico ou político?) do seu líder histórico e comandante supremo.

Em 2.º lugar, porque acontecimentos recentes verificados no País produziram uma generalizada indignação nas opiniões públicas e motivaram (e continuam a provocar) reacções políticas violentas por parte da União Europeia e, muito em especial, pela parte do Parlamento Europeu.

Recordo, a este propósito, que para lá de diversas interpelações orais feitas no Parlamento, dirigidas à instituição em si mesmo e (ou) ao Conselho, durante os meses de Abril e Maio, foi lançado recentemente, por 49 deputados, um documento de solidariedade com Osvaldo Payá, perseguido pela ditadura cubana e que recentemente (em 2002) tinha sido agraciado com o Prémio Sakarov.

Já quanto à eventual substituição do líder cubano, seja por razões de ordem física ou política, julgo ter, desde já, entendido que, a não ser que ocorra uma catástrofe a que a natureza humana está sujeita, ainda teria muitas oportunidades para visitar Cuba sob a Presidência do comandante Fidel Castro.

Sou obviamente contra a pena de morte.

Os regimes que a praticam (dos Estados Unidos ao Irão, passando por Cuba) são, só por isso, regimes inaceitáveis e que, neste particular domínio, devem ser combatidos.

Os líderes (em ditadura ou democracia) que deram a sua concordância a execuções (mesmo que suportados em processos correctos à luz do ordenamento jurídico dos seus países) devem ser referidos como criminosos pelo julgamento futuro da história.

A herança de Fidel Castro neste domínio (recentemente agravada com as execuções de 3 pessoas) é muito negativa e não pode ser justificada, como o faz a “inteligência” cubana, com as mais de 130 sentenças de morte ratificadas pelo Presidente dos Estados Unidos.

Acresce que a motivação principal dessas execuções, ou seja, a dissuasão de novos casos de pirataria que ponham em causa pessoas e bens, se verificou ineficaz.

O regime de Fidel Castro poderia ter poupado o mundo ao espectáculo bárbaro das suas sentenças de pena de morte.

Ganharia em simpatia e credibilidade o que, ao longo de muitos anos, foi perdendo, em consequência de uma propaganda tendenciosa, originária em órgãos de comunicação dominados por dissidentes cubanos com poder financeiro e muitas saudades do regime de Fulgêncio Batista (leia-se do neocolonialismo norte-americano).

São portanto justas e explicáveis as reacções da comunidade internacional e, nomeadamente da União Europeia, sendo de igual modo aceitável que essas reacções provoquem consequências sobre o regime, impondo progressivamente a sua abertura e democratização.

Só que, para lá dos regimes (e dos ditadores), existem a história, a cultura e, sobretudo, as pessoas.

A Cuba actual, as características do seu regime, a originalidade do seu sistema económico, o comportamento do seu povo, o orgulho na sua cultura e a esperança (permanente) num futuro melhor, só tem sentido à luz do conhecimento da história do país. Desde a colonização espanhola até José Marti, mas também desde a neocolonização americana representada pelos Presidentes-governadores António Machado e Fulgêncio Batista, até aos dias históricos do assalto ao Quartel Moncada, do desembarque do “Granma” ou das vitórias revolucionárias da Sierra Maestra e de Santiago de Cuba…

O povo cubano merece uma boa oportunidade e sobretudo deseja que lha concedam.

Conheci gente orgulhosa do seu regime, mas sempre lúcida; convivi com muitos descontentes que exprimem o seu desacordo com sensatez, moderação e liberdade; vi um povo nostálgico de uma vida melhor, mas sempre alegre na manifestação quotidiana da sua cultura; testemunhei solidariedade perante as dificuldades e engenho (muito engenho) na superação das carências…

Apesar da permanente “agressão” é curioso como afinal Cuba e os Estados Unidos são as duas faces de uma mesma moeda.

Verdadeiramente é um regime que dá existência ao outro e há como que uma espécie de cumplicidade entre ambos para a manutenção do actual estado das coisas.

O comandante Fidel Castro e o seu regime estão para durar, isto, quando se comemoram 50 anos do assalto fracassado ao Quartel Moncada, ocorrido em 26 de Julho de 1953.

Mas até por isso Cuba continuará a ser um mistério e um fascínio para os europeus e para os americanos.

O regime político cubano não é seguramente exportável e, hoje, com o desaparecimento da URSS, enquanto potência rival dos Estados Unidos, não constitui nenhum risco para o mundo e a civilização ocidental.

Este é portanto um mito que importa desfazer; a União Europeia pode e deve assumi-lo como objectivo prioritário da sua política externa.

Para bem do Mundo, mas sobretudo para bem do povo cubano.

Recém-chegado a Cuba, um intelectual amigo residente na ilha disse-me que, se quando saísse levasse comigo mais dúvidas do que aquelas que trouxe, isso seria, seguramente, um bom sinal.

Quase no fim da minha estada, confesso que sabendo muito mais sobre Cuba, vi crescerem em mim as dúvidas e interrogações que trazia.

Dúvidas e interrogações que também dividem os próprios cubanos e que se exprimem bem na sua fraseologia sagaz, que tão depressa designa a mistura de Rum com Coca-Cola (os dois símbolos das duas nações rivais) de Cuba Libre, como lhe atribuem matreiramente a designação de Mentirita.

Afinal onde está a verdade?

Provavelmente no meio, como em tudo na vida.

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