Campeões de um Deus menorpor Pedro Martins

Os últimos dias no desporto português ficaram marcados por conquistas importantes extra-muros, como o título europeu júnior de Vanessa Fernandes no Triatlo, a vitória da selecção nacional de Sub-20 no prestigiado torneio de Toulon em Futebol ou a qualificação de Portugal para o europeu de Andebol.

Mas no meu ponto de vista, até porque tive o privilégio de acompanhar por dentro o evento, a excelente participação portuguesa na primeira edição dos europeus de Atletismo para deficientes é de longe o facto mais significativo de uma época onde muitos dos principais nomes do nosso desporto já estão em gozo de férias.
Na cidade holandesa de Assen, apenas 15 atletas (!) conquistaram para Portugal, 21 medalhas, 6 de ouro, 10 de prata e 5 de bronze. Foi de longe a melhor participação de sempre de atletas deficientes em grandes competições europeias, entre jogos paralimpicos e campeonatos do Mundo. Isto não esquecendo que na Holanda, onze portugueses obtiveram ainda os mínimos para Atenas.
Entre mais de 600 atletas de 38 países, a delegação portuguesa acabou por ficar num honroso 12º lugar no quadro de medalhas, algo impensável a outros níveis mas possível no desporto para deficientes pela dedicação e força de vontade dos atletas. Incrível mas pela negativa só mesmo a forma como todas as delegações foram tratadas pela organização do europeu em Assen, primeiro com a escolha de um parque de campismo (paradisíaco é verdade mas para quem está em gozo de férias) onde ficaram os atletas durante mais de uma semana e depois com a escolha da alimentação, mais do que insuficiente para atletas de alta competição.
Mas não se pense que os problemas dos nossos atletas deficientes (e não paralimpicos como muitos lhe chamam, porque esses são em menor número) se resumem aos colocados pelas organizações das provas. É que os problemas de fundo nesta vertente do Desporto português, esses surgem cá dentro, através de uma incrível falta de apoio dos clubes que representam (muitos dos quais, oferecem a camisola para correr e pouco mais), das federações e até do próprio governo. Afinal como é possível que no projecto para os próximos dez anos apresentado recentemente por Hermínio Loureiro, o Secretário de Estado do Desporto, não se fale uma única vez de desporto para deficientes!?
E o tão prometido mas eternamente adiado Comité paralimpico de Portugal? Pois é, para que tal seja uma realidade, torna-se necessário alterar a lei de bases do Desporto. E porque não fazê-lo desde já. Não chega receber os nossos campeões de sorriso aberto no Aeroporto. É que estes verdadeiros filhos de um Deus menor já estão cheios de promessas. Acreditem que é verdade, eu tive a oportunidade de ouvir todas as suas queixas em Assen. Eles merecem a concretização de todas as promessas que já lhe foram feitas e muito mais. Graças a eles, a bandeira portuguesa foi içada nos campeonatos da Europa de Atletismo para deficientes por 21 vezes e o hino nacional entoado por seis ocasiões. Desculpem o desabafo mas assim quem não tem orgulho de ser português lá fora? Eu realmente tive!

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