2026/04/09

As idiossincrasias do cavaquismo tardio por Paulo Gaião

Com o alarmismo sobre o Estatuo dos Açores, o voto do imigrante e agora a independência do Kosovo, em plena crise financeira mundial, será o cavaquismo tardio uma mera forma de exercício político idiossincrático?

Salvo o devido respeito pela figura do Presidente da República, esta quarta-feira, no Palácio de Belém, ocorreu um encontro de urgência entre duas personalidades recentemente marcadas pela idiossincrasia política, Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite, tendo como tema de agenda, em plena crise financeira mundial, um assunto não menos idiosssincrático e insólito, de que ninguém se lembrava há muito, talvez nem mesmo os sérvios, para quem a questão sempre provocou pele de galinha mas que hoje talvez estejam mais dispostos a tudo esquecer, o Campo dos Melros e a humilhação da Nato, em benefício da entrada do seu país na União Europeia. A questão da independência do Kosovo marcou a reunião de Belém, eram cinco da tarde, hora do chá, pedida com carácter de urgência por Ferreira Leite. De um lado esteve o homem que, há um mês, estarreceu o país com uma mensagem dramática sobre o Estatuto dos Açores, levantando a questão bizantina de o Presidente da República passar a ter de ouvir os órgãos políticos da região quando dissolvesse a Assembleia Legislativa regional, parecendo não compreender que as regiões autónomas não são o Continente e que os órgãos regionais podem e devem ter direitos especiais que a Assembleia da República não tem. Do outro esteve a mulher que, há um mês, tinha marcado outra iniciativa de urgência, neste caso uma conferência de imprensa, para explicar aos jornalistas que o PSD estava indignado e ia recorrer a todas as instâncias por causa de uma lei socialista escandalosa, sobre a exigência do voto… presencial para os imigrantes nas próximas eleições legislativas, uma forma que já está em exercício nas eleições europeias e para o Presidente da República. Será o neo-cavaquismo ou o cavaquismo tardio uma mera forma de exercício político idiossincrático? Para quem tenha dúvidas, idiossincrasia, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa significa predisposição particular do organismo que faz que um indivíduo reaja de maneira pessoal à influência de agentes exteriores; característica comportamental peculiar a um grupo ou a uma pessoa
Já não é possível prever até onde chegará o desnorte estratégico de Ferreira Leite. No fim-de-semana, numa iniciativa social-democrata, sentiu-se o seu discurso mais solto, com a líder mais à vontade. Para dias depois, voltar a quebrar expectativas e fazer da questão do Kosovo uma matéria prioritária. Centenas de milhares de portugueses estão desempregados, têm salários em atraso, vêem os seus rendimentos “comidos” pela inflação, contraíram o consumo, trabalham cada vez mais e ganham o mesmo ou ainda menos, têm cada vez menos tempo para si e para a família, proletarizam-se, vêem o Estado tirar-lhes direitos e a qualidade de vida que lhes prometerem, década após década, como condição básica do Estado de direito económico e social, parte essencial do contrato social, perdeu-se abruptamente… mas Ferreira Leite faz um pedido de urgência ao Presidente da República para ser recebida e discutir a questão do Kosovo. Será que também foi uma armadilha de Luís Amado, já sabendo que Ferreira Leite ia cair? Como se não bastasse, à saída do Palácio de Belém, Ferreira Leite elogiou o governo de Sócrates por ter sido cauteloso e não ter reconhecido a independência do Kosovo. É óbvio que não havia necessidade e que era preferível Ferreira Leite ter guardado para si os elogios ao executivo. Por sua vez, para além da matéria do Kosovo aparecer como desadequada face à gravidade da crise mundial, a própria realidade alterou-se radicalmente. Hoje, os albaneses talvez já não queiram ser o bastião europeu de uma América falida, profundamente enredada nos seus problemas internos e podem estar à espera de um gesto amigo, e consensual, da União Europeia. Foi para isto que Ferreira Leite pediu com urgência a reunião com Cavaco Silva? Não sabemos, porque a líder do PSD nada nos disse de novo, não marcando pontos políticos.
A insólita reunião de Ferreira Leite com Cavaco ocorreu no dia a seguir à líder do PSD ter acusado Sócrates de já vir tarde tranquilizar os portugueses sobre as suas poupanças, em consequência da instabilidade mundial. Mas é caso para perguntar. Falou Ferreira Leite antes de Sócrates para ter uma palavra pedagógica aos portugueses ou antecipando-se ao primeiro-ministro, para mostrar as omissões e fragilidades do executivo em momentos difíceis? Não, não falou. Preferiu falar do Kosovo, depois de Sócrates já ter falado da crise. Ferreira Leite repetiu, ainda, as criticas que Paulo Rangel já tinha feito a Sócrates por ter diabolizado o mercado da Bolsa, referindo-se a ele como um jogo. Errar uma vez, por imprevidência é normal. Insistir no erro começa a ser trágico para uma líder cujo objectivo é ser alternativa ao governo e ganhar as legislativas de 2009. Perante as opiniões quase unânimes de que os erros e a irresponsabilidade dos gestores do casino têm de ser penalizadas, dando origem a uma nova ordem financeira mundial, como ontem referiu Joe Berardo, Ferreira Leite considera ser o tempo certo para proteger a bolsa dos seus diabolizadores. É mais um problema de desadequação à realidade e mais um erro estratégico, bem patente no facto de até Cavaco Silva ter dado importantes sinais de que tem de se virar uma página na bolsa e no antro de especulação em que esteve mergulhada nos últimos anos. Recorde-se uma vez mais que, em 1987, na crise bolsista de então, ficou célebre a frase do primeiro-ministro Cavaco Silva de que se estava vender gato por lebre na Bolsa portuguesa. Não pode deixa de espantar que o próprio cavaquismo não acerte agulhas na sua estratégia. E não estamos só a falar de Ferreira Leite. As declarações recentes de Cavaco Silva sobre a necessidade de o Orçamento de Estado para 2009 ter medidas para os mais desfavorecidos, é ouro sobre azul na estratégia do Governo e do PS de ter folga na despesa pública e social para tentar ganhar votos à esquerda no ano de todas as eleições e conseguir repetir a maioria absoluta nas legislativas de 2009.
Crise mundial. Com o medo de perder o controlo do poder do Estado, às mãos da revolta popular de toda a gente, pé descalço, remediados, classes médias, novos-ricos e muitos abastados caídos em desgraça, o sistema é capaz dos actos mais sacrílegos do mercado para tentar salvar o capitalismo. Conseguirá? Ou, pelo menos, conseguirá manter a estabilidade política e social, depois do capitalismo empobrecer as massas?

Novas ameaçaspor Ilda Figueiredo

Enquanto assistimos ao furacão que abala o sistema financeiro, vítima de políticas que protegeram a multiplicação de formas e métodos de multiplicar lucros especulativos sem correspondência com a economia real, nessa financeirização crescente que só podia ter um mau desfecho, como repetidamente alertámos

Enquanto assistimos ao furacão que abala o sistema financeiro, vítima de políticas que protegeram a multiplicação de formas e métodos de multiplicar lucros especulativos sem correspondência com a economia real, nessa financeirização crescente que só podia ter um mau desfecho, como repetidamente alertámos, prossegue, paralelamente, um ataque a direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos e à própria soberania dos Estados.
Foi o que também aconteceu na semana passada no Parlamento Europeu, onde se discutiram vários relatórios que têm em comum a sua inserção no conjunto de medidas securitárias que, a pretexto do combate ao terrorismo, têm vindo a ser tomadas nos EUA e na União Europeia e que atentam contra os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e ferem áreas que estão no cerne da competência soberana dos Estados, de que se destaca:
– A alteração da “Decisão-Quadro relativa à luta contra o terrorismo”, de 2002, com o objectivo de reforçar o conjunto de medidas securitárias que, a pretexto da denominada “luta contra o terrorismo”, têm vindo a colocar em causa direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, de que são exemplo os ignóbeis e criminosos “voos da CIA” – ainda não condenados pela União Europeia – isto é, o sequestro, transporte e prisão ilegal de cidadãos, nomeadamente em países da UE, que posteriormente são submetidos ao isolamento e à tortura.
Tal como na “Decisão-Quadro relativa à luta contra o terrorismo”, de 2002 (com a sua definição de “terrorismo”), através do carácter ambíguo da actual alteração é, novamente, aberta a possibilidade de aplicação de medidas securitárias e de criminalização de pessoas singulares ou colectivas que efectivamente se batem contra, por palavras ou escritos, o terrorismo de Estado. A presente proposta não representa qualquer mais-valia no combate ao terrorismo real e à criminalidade transnacional a ele associado e comporta, isso sim, perigos reais à segurança e liberdades fundamentais dos cidadãos nos diferentes Estados-membros.
Como temos salientado, mais que medidas securitárias, é necessário dar resposta às causas que alimentam o terrorismo, como a grave deterioração da situação mundial, a espiral de violência criada pela militarização das relações internacionais, as agressões à soberania dos Estados e povos – o terrorismo de Estado -, a exploração capitalista desenfreada, o desumano aprofundamento das desigualdades sociais e a existência de milhões de seres humanos vivendo em situações desesperadas.
– A “Decisão-Quadro do Conselho relativa à protecção dos dados pessoais, tratados no âmbito da cooperação policial e judiciária em matéria penal”, fica aquém do que se impõe em matéria de protecção de dados. É que esta proposta não excluiu, mesmo que de forma condicionada, “o tratamento de dados pessoais que revelem a origem racial ou étnica, as opiniões políticas, as convicções religiosas ou filosóficas ou a filiação sindical, bem como o tratamento de dados relativos à saúde e à vida sexual”, o que é inaceitável.
Como foi sublinhado no debate realizado, trata-se de uma proposta com base num mínimo denominador comum quanto a uma questão tão fundamental como a garantia dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos dos diferentes Estados-membros, aquém do consignado noutros instrumentos jurídicos, nomeadamente do Conselho da Europa. Sendo urgente e imprescindível garantir a protecção dos dados pessoais, esta não poderá ser assegurada a partir de um instrumento jurídico cuja malha, por ser demasiado larga ou defeituosa, permita o seu incumprimento ou não salvaguarda.
– A denominada “migração” do Sistema de Informação Shengen para a sua segunda versão amplia, para além do seu propósito original, as características deste sistema de informações e base de dados. Ao introduzir o mandado de captura europeu e os dados biométricos, alarga o acesso por parte de novas entidades e abre a possibilidade da sua partilha com países terceiros. Esta extensão, em relação ao sistema anterior, comporta riscos para a salvaguarda de direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, por acrescentar novos elementos a uma base de dados que será mais partilhada e acessível.
Isto é, muito para além da resposta ao alargamento a novos países, utilizando-se a “liberdade de circulação”, procuram construir um sistema de informação e bases de dados que largamente ultrapassam estes objectivos, tentando que este seja um dos instrumentos centrais de suporte à ofensiva securitária, protagonizada pela UE, e à progressiva comunitarização da justiça e assuntos internos, o que rejeitamos por serem áreas que estão no cerne da soberania dos Estados.
Por isso, reafirmámos a oposição a estas políticas. Continuaremos a lutar por uma Europa que respeite os direitos humanos, a cooperação e a paz, sempre baseada no princípio de Estados soberanos e iguais em direitos. Não trocaremos a liberdade pela segurança, porque ficaríamos sem ambas.

“Entre o Dia e a Noite”

“Entre o Dia e a Noite” está inserido num ciclo de acolhimento a novos criadores. Try Better. Fail Better ’08 é da responsabilidade do Teatro Garagem e serve de espaço de experimentação, de lugar para novidades criativas.

“Entre o Dia e a Noite”, um espaço de memórias individuais
Um diálogo emotivo sobre liberdades
“Entre o Dia e a Noite” está inserido num ciclo de acolhimento a novos criadores. Try Better. Fail Better ’08 é da responsabilidade do Teatro Garagem e serve de espaço de experimentação, de lugar para novidades criativas. Esta é a primeira encenação profissional de Adriana Aboim e conta uma história de amor, de liberdade, de tensão. Acima de tudo este é um diálogo a quatro vozes, assumido como uma co-criação, tendo em conta o processo criativo. Com Pedro Carmo, Adriana e João Aboim e Carolina Matos, estará no Teatro Taborda até 5 de Outubro.

Na base da criação de Adriana Aboim estava uma ideia muito definida: trabalhar esta história a quatro vozes, criando um diálogo coerente entre as palavras de um homem e de uma mulher, e as sonoridades de um violoncelo e de um piano. Tudo isto numa abordagem realista criada num espaço intimista onde fosse possível criar uma grande proximidade entre o público e os intérpretes.
Adriana adoptou um processo criativo de grande cumplicidade com a equipa, em que a peça foi sendo construída de acordo com aquilo que todos iam dando ao longo dos ensaios. A verdade é que funcionou. “Entre o Dia e Noite” é mesmo um diálogo a quatro vozes, principalmente porque os músicos conseguem ser mais do que isso, conseguem ser também eles actores, porque os seus olhares se cruzam em momentos cruciais de diálogo que acontecem entre Adriana Aboim e Pedro Carmo, porque a respiração de Carolina ao tocar violoncelo se mistura com a tensão de um toque entre eles, mesmo que esse não aconteça, mesmo que não seja propositado.
A história em si mesma é tensa. É a noite de passagem de ano, aquela entre a noite de ano velho e o dia de ano novo. Rosa odeia essa data pelas memórias da primeira vez que a mãe a deixou, no sentido de a proteger aquando da sua incursão sem regresso na luta pela liberdade. Ao longo da história vamos percebendo determinado background histórico: a envolvência da Rússia, do vermelho da revolução, que nos é transmitido através de frases e contextos da história de Rosa. A sua mãe lutava pela liberdade, Jorge também era um revolucionário. Há uma matrioska em cima da mesa do quarto que nos envolve e um chapéu russo, que a certa altura é usado por Rosa. O espaço é de facto intimista. O cenário é simples e tem ar de quarto onde se trocaram beijos e reflexões sobre tudo e mais alguma coisa.
Os dois encontraram-se, viveram um amor impossível, pelo menos assim o entendem, separaram-se e 15 anos depois Jorge volta e encontra Rosa no quarto, onde tanto tempo antes tinham vivido uma relação amorosa repleta de desequilíbrios, que continuam presentes.
A passagem de ano marca decisões, um novo recomeço. Ambos o desejam intimamente, naquele tempo sem tempo onde se encontram num espaço, onde parece apenas existir tempo para os dois. Jorge viveu, viajou, lutou, Rosa sobreviveu, casou e teve uma filha. Nunca mais se viram desde então. Tomaram decisões, todas as personagens o fizeram, incluindo a mãe de Rosa, ao deixá-la. Rosa e Jorge acusam-se, culpam-se, amam-se. De forma incontrolada começam a aproximar-se fisicamente. A tensão é crescente, entre a música tocada pelos fantásticos intérpretes João Aboim e Carolina Matos e as palavras soltas sussurradas e gritadas de Pedro e Adriana, respectivamente, sentimos a nossa respiração mais rápida, mais angustiada.
Esta peça fala-nos não só de uma história de amor sofrido, de duas pessoas que se separaram e que não conseguem ultrapassar isso, reflectido na força que Adriana Aboim (Rosa) passa pela sua voz trémula e pela forma como se deixa levar pelos pequenos toques, pela forma como lhe diz: “Estás mais gordo…”, e que Pedro Carmo (Jorge) passa através da forma como se movimenta em palco, como abre a janela do quarto, que dá para a varanda da Sala de Ensaio e olha as luzes da cidade, falando da saudade do mar, mas implicitamente da saudade de Rosa; esta peça fala-nos também das reflexões individuais, do poder do indivíduo. Mostra-nos que, apesar de toda a envolvência, o indivíduo está entregue a si próprio, que as escolhas (neste caso de Rosa e Jorge, quando Jorge decidiu partir e Rosa ficar, mesmo que Rosa considere que foi algo decidido por ele e ele passe maior parte do tempo a convencê-la, ou a convencer-se, de que foi algo decidido mutuamente) definem os caminhos de cada um. As decisões são momentos em que nos questionamos e em que percorremos os limites das nossas liberdades. Aqui fala-se de liberdade política, de decisão, de liberdade humana, de relacionamento, de liberdade de escolha. A vulnerabilidade das personagens vem daí, deste universo. Em último plano, eles são os únicos responsáveis pelas suas decisões. A liberdade procurada nas revoluções, aquela da história em background conceptual é aquela que fica na memória social colectiva, mas são as liberdades diárias aquelas que são mais emotivas e que ficam na memória individual. É um jogo afectivo que está em palco. A intensidade e tensão reflectidas no trabalho passam também pela forma como o trabalho foi desenvolvido, de criação conjunta, da forma emocional como se sente que trabalharam.
Além da revolução de memórias afectivas trazida pela peça, eles relacionam-se novamente com os mesmos objectos com que já se haviam relacionado. Toda esta peça é um regresso a um lugar onde já estiveram, mas que não é o mesmo, mesmo se se continuam a amar, e que falem não muito objectivamente desse sentimento, eles, enquanto indivíduos, estão diferentes. A mãe de Rosa bate à porta do quarto. Nunca a vemos. Só a ouvimos, através da sua voz seca a chamar Rosa e através da voz de Rosa a falar-nos dela. É ela própria uma voz presente, a quinta voz. E respiramos fundo por ter terminado a angústia daquele momento, mas entre o cheiro a cigarros que fica pelo fumo partilhado e a sonata de Shostakovich que não nos sai da cabeça, reflectimos sobre as nossas liberdades e questionamo-nos a nós próprios.