2026/04/09

Americanos intensificam ataques aéreos no Iraque

Blair está a trabalhar num projecto de resolução que consiga alcançar um consenso entre a posição anglo-americana e os restantes membros permanentes. Porém, ontem, afirmou que estaria disposto a avançar com a guerra. Entretanto, no terreno, unidades de operações especiais vão efectuando manobras de forma silenciosa, e os aviões anglo-americanos intensificam os ataques aéreos no sul do Iraque.

Hans Blix vai hoje ao Conselho de Segurança apresentar um novo relatório sobre os trabalhos de desarmamento de armas de destruição maciça a decorrer em solo iraquiano, e no qual deverá reportar um aumento da cooperação do regime de Bagdad, no último mês, com os esforços da equipa de inspectores da UNMOVIC.

No entanto, antecipadamente, o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, disse na quarta-feira que Saddam Hussein não tem feito mais do que enganar e dividir a comunidade internacional. “Nada do que vimos desde que foi aprovada a resolução 1441 indica que Saddam tenha decidido estratégica e politicamente desarmar”, referiu Powell.

Washington continua empenhado na sua estratégia de remover Saddam Hussein do poder em Bagdad, mas a batalha diplomática no Conselho de Segurança está a provocar demasiadas “dores de cabeça” à Casa Branca, que chega ao final da semana muito mais isolada do que há uns dias.

A China, que até ontem se mostrava bastante reservada na sua atitude perante uma eventual segunda resolução do Conselho de Segurança, expressou a recusa clara em dar luz verde a uma iniciativa bélica da parte de Washington. “Pensamos que não é necessários introduzir uma nova resolução”, informou o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Tang Jiaxuan.

Acrescentou ainda que a posição de Pequim é “consistente” com a declaração anti-guerra, subscrita no dia anterior pelos chefes da diplomacia francesa, Dominique de Villepin, russa, Igor Ivanov, e alemã, Joscka Fischer.

Na iminência do maior “não” à prossecução dos interesses norte-americanos vindo do outro lado do Atlântico, nos últimos 50 anos, como analisava ontem o “New York Times”, Londres, juntamente com o México e com o Chile, tem estado a trabalhar secretamente na reformulação da futura segunda resolução a ser apresentada no Conselho de Segurança muito provavelmente na próxima semana.

De acordo com as informações divulgadas, este novo projecto de resolução terá como objectivo alcançar um compromisso com os restantes membros permanentes do Conselho de Segurança, e consistirá num autêntico ultimato final a Saddam, no qual lhe será dado um prazo concreto para desarmar.

Para Blair, o que está em causa é a sua própria sobrevivência política. À semelhança do que acontece com o primeiro-ministro espanhol, José Maria Aznar, o chefe do Governo britânico está isolado, sem o apoio do próprio partido. Uma segunda resolução surge como a sua tábua de salvação a nível interno.

Dificilmente os conservadores e o labour permitirão que a Inglaterra embarque numa ofensiva militar no Iraque à revelia das Nações Unidas, sem ter sido objecto de uma aprovação pelo Conselho de Segurança.

Apesar de Blair ter admitido ontem, durante um debate na cadeia de televisão MTV Europe, que estaria disposto a ir para a guerra mesmo com o veto de um ou mais Estados, Downing Street fez questão de reafirmar que Londres se mantém comprometida em encontrar um compromisso com os seus aliados.

Aviões anglo-americanos intensificam ataques no sul do Iraque

Precisamente há três semanas, no mesmo dia em que era apresentado o segundo relatório dos inspectores na ONU, o SEMANÁRIO referia que a guerra no Iraque já tinha começado. De uma forma camuflada e silenciosa, unidades de operações especiais norte-americanas já estavam a operar dentro do Iraque há mais de um mês, confirmavam fontes próximas do Pentágono, ao jornal “Washington Post”.

Estas estavam a operar em várias partes do Iraque à procura de locais onde estivessem escondidas armas, a estabelecer redes de comunicações e a capturar potenciais fugitivos pertencentes ao regime de Saddam.
Agora, quase dois meses depois do início das operações americanas em solo iraquiano, existem informações que indiciam que uma parte ocidental do Iraque já esteja controlada pelas forças anglo-americanas.

Tudo isto insere-se numa lógica de guerra silenciosa que Londres e Washington tem tentado manter afastada das câmaras de televisão.

Na verdade, depois dos sucessivos desmentidos do ministro da Defesa britânico, Geofrey Hoon, respeitantes uma eventual intensificação da actividade militar no Iraque, Washington divulgou esta semana que o número de voos anglo-americanos sobre a zona de exclusão aérea do sul, aumentou para mais do dobro.

A acrescentar a isto foram mobilizados para a zona os bombardeiros B-52, que já se treinam no norte do Golfo. Com cerca de 200 mil homens na região, também o General Tommy Franks, responsável máximo pelas tropas americanas no Golfo, já disse que está pronto para iniciar uma ofensiva em larga escala.

Esta eventual ofensiva contou com o apoio dos militares turcos que, após o bloqueio parlamentar de Ancara ao direito de passagem a 62 mil soldados americanos, classificaram a guerra como inevitável e, como tal, seria preferível cooperar com Washington e receber as respectivas contrapartidas financeiras.

“A nossa escolha não é entre o bom e o mau. A nossa escolha é entre o mau e o pior”, afirmou o chefe do Estado maior das forças armadas da Turquia, o general Hilmi Ozkok, num comunicado emitido na televisão.

Iraque pode recuar a 1945

O novo Iraque pós-Saddam Hussein, resultado da inimente intervenção dos EUA, pode recuar a 1945, quando, após a II Guerra Mundial, sob inspiração britânica, o país teve uma fugaz experiência democrática, com eleições, partidos políticos, sindicatos e imprensa livre.

O novo Iraque pós-Saddam Hussein pode recuar a 1945, quando, após a II Guerra Mundial, sob inspiração britânica, se tentou criar uma democracia no país, no governo de Tawfiq- al- Suwaidi. Seguindo de perto o recente livro do historiador britânico Charles Tripp, História do Iraque, editado em Portugal pela Europa-América – obra que alguns observadores têm referido estar a ser lida atentamente pelos americanos, com vista a obter respostas no passado para melhor recriar um novo Iraque – o governo de Suwaidi é apontado como tendo acabado com a lei marcial, encerrando o campo de internamento de al-Faw, levantado a censura à imprensa e introduzido uma nova lei eleitoral, dividindo o país numa centena de distritos eleitorais.

O novo governante também permitiu que se formassem novos partidos políticos, tendo os dois principais, o Partido Democrático Nacional e o Partido da Independência, correspondido às duas principais correntes de pensamento em evidência desde os anos 30. Registaram-se, também, no governo de Suwaidi, alguns partidos socialistas e, apesar de não terem conquistado muitos aderentes, o seu aparecimento indicou uma tendência crescente para a crítica às desigualdades sociais e económicas no Iraque, pelo menos entre a intelectualidade urbana. Ao mesmo tempo, o Partido Comunista Iraquiano intensificou a sua actividade.

Com o levantamento da censura à imprensa e o fim da lei marcial, ainda segundo Tripp, as actividades dos pequenos partidos da oposição tornaram-se mais visíveis nas principais cidades do Iraque e particularmente em Bagdad. Após anos de silêncio forçado reemergiu, também, uma imprensa e um sector editorial activos, dando voz a uma crítica mordaz das condições políticas e económicas e delineando ideias para o futuro do Iraque que eram radicais nas suas implicações.

A actividade dos sindicatos também foi incrementada. Esta primeira experiência democrática no país foi, porém, de curta duração. A liberdade súbita, aliada aos grandes problemas económico-sociais, acumulados nos últimos cinco anos, entre 1940 e 1945, levou a que os iraquianos desenvolvessem enormes protestos, designadamente greves, visando o aumento dos salários dos trabalhadores. Foi neste contexto de instabilidade política e social que Suwaidi, que não levava sequer um ano de governo, foi substituído, as liberdades revogadas e se regressou a um poder musculado e autoritário.

Villepin e os seus “mosqueteiros”

Quanto tempo mais irá o Conselho de Segurança resistir à autentica batalha diplomática que está assolar aquela instituição. Numa guerra política sem precedentes, as Nações Unidas vivem dias decisivos para sua sobrevivência, como fórum “onde todos fala com todos”, com refere Adriano Moreira.

Na iminência da sua falência, a ONU, tal como a NATO e a União Europeia, enfrenta o desafio do tempo e dos desajustamentos sistémicos.
Na verdade, a crise iraquiana transbordou as fronteiras de uma mera intervenção militar num qualquer estado ditatorial. Agora, Saddam Hussein passou a ser um espectador atento da deterioração das estruturas ocidentais, que regeram os princípios das suas civilizações durante as últimas décadas.

Mais do que a ordem no Médio Oriente, a questão iraquiana está a provocar um intenso debate sobre o futuro das relações internacionais no ocidente.
A ONU, a NATO e a UE, os três pilares fulcrais que garantiram a estabilidade sistémica na Europa e América do Norte desde a II Guerra Mundial, estão a ser assolados por crises sem paralelo. Os dias que se vivem estão a fazer história no seio destas organizações.

As soluções de recurso alcançadas têm um efeito retardador, que adiará para um futuro próximo, decisões importantes para a manutenção, ou não, dessas organizações. Tudo dependerá dos líderes e dos seus projectos. Das suas ambições e das suas expectativas quanto ao sistema internacional que pretendem.

Os Estados, integrados nas várias organizações internacionais, reagem de acordo com os seus interesses e com os seus projectos de afirmação no mundo. Por isso, não será de estranhar que perante uma crise séria, como é a questão do Iraque, os Governos comecem a ceder às tentações soberanistas, adoptando posições historicamente racionais, mas pouco arrojadas ideologicamente. A questão do Iraque despoletou apenas uma realidade que esteve sempre presente no eixo transatlântico.

Como se podia ler num artigo de análise do jornal, “Le Monde”, o Iraque revelou uma profunda divisão na Europa. Em poucos meses, o Velho Continente redesenhou-se, chegando mesmo a falar-se de uma “velha” e “nova” Europa. Estas conceitos não são mais do que o ressurgimento de antigos projectos e ideias de Europa, assentes em antigos impérios.

Claramente se define uma “nova Europa”, como aquela que olha para o Atlântico e Estados Unidos, como um espaço de apetência natural e historicamente viável para alianças. Aqui o Reino Unido, a Espanha e Portugal são exemplos de Estados que não hesitaram na sua escolha e de uma forma lógica colocaram-se ao lado de um país tradicionalmente aliado (os Estados Unidos).

Esta “Europa americana” contrapõe uma “Europa europeia”, vincada pelo espírito continental do império carolíngio e pelo Sacro Império. A brecha entre estas duas realidades existiu sempre nos últimos cinquenta anos, embora estivesse camuflada por contingências do sistema bipolar reinante em toda a Guerra Fria.

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a consequente implosão da União Soviética, em 1991, começou-se a falar em “dividendos da paz” e do triunfo dos valores e instituições comuns euro-americanas, com o “final da História”, de acordo com Francis Fukuyama.

Hoje, este autor fala em “grandes diferenças” no eixo transatlântico, referindo que a crispação entre os dois lados do oceano “não é apenas um problema transitório”. Também, Jeffrey Gedmin, director do Aspen Institute Berlin, fala sobre a “patologia” europeia no que se refere ao uso da força, argumentando que as visões dos Estados Unidos e da Europa nesta matéria são agora tão diferentes que “a velha Aliança (NATO) terá poucas possibilidades de continuar a figurar proeminentemente no pensamento estratégico global norte-americano”.

Poucos meses depois da evocação do artigo 5, pela primeira vez na história da NATO, o espírito de solidariedade deu lugar à recriminação, tendo os laços de relacionamento entre os aliados se deteriorado dramaticamente. Robert Kagam foi, talvez, o primeiro analista a assumir sem preconceitos as divergências entre os projectos europeu e americano sobre as relações internacionais, num mundo liderado por uma única superpotência.

“É altura de se deixar de pensar que os europeus e os americanos partilham uma visão comum do mundo, ou até mesmo de que ocupam o mesmo mundo”, escrevia Kagan na “Policy Review”, no verão do ano passado.

É num contexto de iminente falência do sistema ocidental, que a França emerge como a defensora dos projectos criados dos escombros da II Guerra Mundial e de cariz universalista. A todo o custo tenta manter instituições, nas quais se assume como grande nação e faz sentir todo o seu peso. A União Europeia e o Conselho de Segurança são organizações que dão a projecção mundial à França como uma grande potência. Uma fábula que à semelhança do seus antecessores o Presidente, Jacques Chirac, continua a acreditar que é verdade.

Desta forma, a França pretende manter um modelo de relações internacionais em que funcione uma União Europeia, para integrar uma Europa marcada por séculos de guerras, e uma ONU, depositária do direito internacional e instrumento regulador das políticas entre os Estados.

Numa altura em que os Estados Unidos parecem estar a contar menos com a Europa e dispostos a marginalizarem a ONU, não é de estranhar a defesa acérrima que Paris tem feito para a credibilização do Conselho de Segurança, especialmente através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Dominique de Villepin.

Desta forma, o “templo” de Villepin terá de ser defendido a todo custo pelos homens de Paris, mesmo estes sabendo que dificilmente evitarão a guerra.
A batalha política da França para evitar a guerra, muito provavelmente, fracassará, mas a França sabe também que na derrota à vitórias que se ganham.

“Acima de tudo existe a vitória de um princípio. Os Estados Unidos cometem um grave erro se crêem que a França se limitou a adoptar uma atitude mesquinha e grosseira. Chirac e Villepin acreditam, que eles, e só eles em última instância, estão a defender a visão europeia da ordem mundial frente ao inimigo mais perigoso dessa visão: os Estados Unidos”, escrevia Kagan, no “El País”.

Chirac na Argélia para falar de reconciliação

Numa visita histórica à Argélia, o Presidente francês, Jacques Chirac, afirmou na segunda-feira que o passado doloroso deveria agora dar lugar ao caminho da reconciliação, quarenta anos depois da brutal e violenta guerra da independência daquele país.

Numa visita histórica à Argélia, o Presidente francês, Jacques Chirac, afirmou na segunda-feira que o passado doloroso deveria agora dar lugar ao caminho da reconciliação, quarenta anos depois da brutal e violenta guerra da independência daquele país.

Numa deslocação de três dias por território argelino, Chirac tenta sarar velhas feridas, provocadas por um conflito que deflagraou entre 1954-62 e que pôs termo a 132 de domínio francês sobre a Argélia.

“Nós não podemos esquecer ou negar este passado complexo, e ainda doloroso”, disse Chirac, num discurso no Parlamento argelino. Citando o romacista Marcel Proust, o Presidente francês referiu ainda que “algumas memórias são como amigos, sabem exactamente como alcançar a reconciliação”.

Jacques Chirac é o primeiro líder francês a realizar uma visita de Estado completa àquele país desde 1962, tendo sido recebido entusiasticamente no passado domingo, com meio milhão de pessoas a entoarem o seu nome pelas ruas de Argel.

Portas vinca vocação de governo do CDS-PP

Populares lançam alicerces de um novo ciclo para partido.

Passando ao lado de todas as polémicas que recentemente se têm abatido sobre o partido, com diversas demissões incluindo a de Manuel Monteiro e o eventual surgimento de um novo partido à direita, a direcção popular está a preparar o lançamento das linhas mestras de um novo ciclo do CDS-PP. A “nova era” portista baseia-se numa re-adequação organizativa que visará privilegiar uma participação das bases reforçando o Conselho Económico e Social em detrimento dos concentrados poderes que hoje caracterizam o papel do presidente do partido.

A direcção do CDS-PP quer assinalar no Porto o início de um novo ciclo dp partido no governo que segundo o seu secretário-geral, Luís Pedro Mota Soares será de, no mínimo, oito anos.

O Congresso Nacional do CDS-PP está a ser preparado com o objectivo de lançar as linhas mestras do novo ciclo político que se está a iniciar com a passagem do partido do Largo do Caldas para a área da governabilidade. Celebrando o fim do ciclo estabelecido em Braga há cinco anos, que levou o CDS-PP ao poder há cerca de um ano, o partido de Portas quer agora lançar as sementes para uma “nova era” do partido a nível nacional.
Segundo Luís Pedro Mota Soares, secretário-geral do CDS-PP, esta é a oportunidade para que, depois de chegar ao governo, adequar o partido a “um conjunto de circunstâncias novas” com as quais se depara. “O facto de o CDS-PP estar no governo leva-nos a que tenhamos que assumir novos compromissos”, quer com o partido, quer com os portugueses.
No que toca à readaptação do partido a uma nova realidade ao nível interno, Mota Soares garante que existirão algumas novidades no que se refere à organização do partido “adequando um conjunto de novos elementos e de novos institutos dentro do partido às novas circunstâncias” que se afiguram. “A reorganização do Conselho Económico Social passa, por isso, por um compromisso do presidente do partido e da secretaria-geral com a estrutura do partido” com vista a colmatar o facto de Paulo Portas ser também Ministro da Defesa o que leva a que tenha “menos tempo disponível do que tinha na anterior conjuntura”.

No entender da direcção do partido existirá também um conjunto de compromissos externos que deverão ser respeitados pelo partido. Mota Soares considera que o CDS-PP deverá “preparar um novo ciclo da governação portuguesa” que em seu entender “será, no mínimo, de oito anos”. “Passamos de um partido do arco da governabilidade para um partido do governo” o que leva a que a direcção do partido tenha que estabelecer “todas estas linhas me parecem muito importantes” e que levaram, inclusivamente, “à antecipação do nosso congresso para esta data”.
Em relação à necessidade de desconcentrar algumas das competências do presidente do partido, Mota Soares garante que não passará por nenhuma alteração “ao nível estatutário” e garante que não se trata de uma “delegação de competências porque não passa por isso”. No entanto, essa desconcentração passará pelo reforço de “um dos fóruns que têm que ser privilegiados na acção política do partido, nomeadamente num partido que está no governo: o Conselho Económico e Social”. Para a direcção, este órgão deverá passar a constituir “um palco onde militantes e não militantes possam debater, de uma forma mais livre, um conjunto de políticas que são fundamentais e que podem depois ter consequências na governação do país”. Mota Soares fala ainda de mais autonomia para as bases do partido com a promoção de actividades “que não estejam sempre e só dependentes do presidente do partido”.
O Congresso dos populares estará ainda imbuído de forte simbolismo. Tudo porque será realizado passados, exactamente, cinco anos do congresso de Braga. “não é uma celebração do que se passou em Braga, quem entender isso assim está redondamente enganado”. O que os responsáveis do partido visam é celabrar o início do ciclo que levou à formação do actual executivo. Lembrando o slogan “duas oposições que dialogam fazem melhor trabalho do que duas oposições que estão em constante guerra” e a recuperação do discurso da democracia cristã, o secretário-geral popular sublinha que “esse congresso preparou um ciclo de cinco anos” e que as linhas mestras daquele ciclo foram preparadas nesse congresso. “Neste congresso queremos, numa visão de futuro, preparar também as linhas mestras do novo ciclo de oito anos (…) os próximos congressos também serão condicionados por um conjunto de linhas de actuação que podem sair deste congresso”, garante.
O local escolhido para a realização do conclave dos populares visa também lembrar o primeiro congresso do partido no Palácio de Cristal, onde não voltou. Esse congresso histórico do CDS, acabou cercado por radicais de esquerda e chegou a exigir a intervenção militar e policial. Este “congresso marcou muito a vida do partido” e represneta uma “homenagem sentida que se quer fazer à resistência do CDS”.

«Os autarcas estão a ser muito mal pagos»

Teresa Pais Zambujo, em entrevista ao SEMANÁRIO, falou sobre o momento que as autarquias e os autarcas atravessam na actual conjuntura nacional. Esta autarca não abre o jogo sobre a sua continuidade na câmara nas próximas eleições. A edil chama também a atenção do Governo sobre a remuneração dos autarcas em Portugal.

P:Fazendo o balanço destes meses à frente da autarquia, acha que o eleitorado do concelho de Oeiras está satisfeito com o seu trabalho até agora?

R:É ainda um pouco prematuro estar a responder a essa questão, pois ainda não fez um ano que assumi a presidência da câmara. No entanto, é um facto que, dos diversos contactos que tenho tido junto da população, a receptividade tem sido excelente, julgo que a população sente que há uma continuidade do trabalho iniciado pela anterior equipa, onde apenas se mudou o timoneiro. Todos os nossos projectos traçados para este mandato foram pensados em momento oportuno, no anterior mandato, por isso é normal que o eleitorado sinta a mesma garra e vontade política, desta equipa, para dar sequência aos trabalhos planeados. Por isso, faço até ao momento um balanço positivo, apesar do momento sensível que o País atravessa.

P:Correm rumores, que, em Março, o ministro da Cidades, Isaltino Morais, pode abandonar o Governo e regressar à presidência da Câmara de Oeiras. Confirma isto?

R:Essa questão só a própria pessoa é que pode responder. O que compete a esta equipa é prosseguir com o trabalho, fazendo com que o concelho vá crescendo, em termos de desenvolvimento sustentado.

P:Caso isso suceda, volta para a vice-presidência?

R:É normal que isso aconteça, quando um sai e outro entra na lista, é algo que sucede em todo o lado, as regras são claras nestas situações.

P:Então não põe a hipótese de se candidatar ao seu actual posto nas próximas eleições autárquicas?

R:Eu penso que ainda é muito prematuro estar a pensar numa candidatura, isto porque as coisas na política sucedem-se tão rapidamente que não podemos fazer planos para algo que ainda está muito distante.

P:Compreende, no entanto, que a sua candidatura não teria o mesmo impacto político no eleitorado, que uma recandidatura de Isaltino Morais, isto se o PSD quiser manter a hegemonia praticada ao longo dos anos em Oeiras?

R:Sabe, eu acho que aquilo que mantém o eleitorado é o trabalho desenvolvido, esse sim, fala por nós. Aquilo que me preocupa não é perder votos, mas continuar a desenvolver trabalho, de forma a criar o meu próprio espaço. Eu sou uma das pessoas que transitam do mandato anterior e o meu trabalho foi conhecido nas áreas que desenvolvi, nomeadamente ao nível do saneamento e da água, da educação, saúde, entre outros pelouros, portanto, sinto-me bem naquilo que faço e isso é meio caminho andado para ter sucesso.

P:Qual é a sua opinião sobre os recentes escândalos de corrupção ao nível das autarquias, como por exemplo o caso de Fátima Felgueiras?

R:Eu acho que nós autarcas, de uma maneira geral, estamos a viver um período complicado. Não há dúvida nenhuma que a exposição do autarca é muito diferente de outros níveis de governação. Uma administração central é uma administração sem rosto, enquanto a local é aquela onde nos vão bater à porta a todo o momento. Todos os dias, o autarca é confrontado cara a cara com a população, com os problemas do dia-a-dia. Por isso, estamos numa posição mais vulnerável.

P:O facto de a justiça estar a querer mostrar serviço ao nível das autarquias não a assusta?

R:Eu acho que deve haver rigor na actuação, deve haver a aplicação da justiça, não devemos é julgar em sedes que não são as próprias e em momentos em que não os próprios. Há que perceber determinadas situações que, na primeira análise, parecem injustas, para isso, é necessário haver rigor no conhecimento dos factos para se fazer justiça.

P:Quando assumiu a presidência da Câmara de Oeiras, encontrou algum caso suspeito na autarquia que merecesse ser investigado?

R:Não. Contudo, será leviano da minha parte assegurar que não há literalmente nada a apontar aqui. Uma autarquia com esta dimensão tem sempre milhares de frentes abertas, portanto, penso que ninguém pode afirmar que existe uma total transparência em todas as frentes. Temos consciência que podem existir casos pontuais, por isso, procuramos, na nossa actuação diária, ter uma base técnica que nos conforta ao actuarmos nessas situações.

P:Devido à dimensão da câmara a nível nacional, sente que a fiscalização é mais ou menos rígida?

R:Cada autarca deve falar pela sua autarquia. No nosso caso, nunca são de mais os recursos que temos para as vertentes de acompanhamento e fiscalização, isto porque nunca temos os meios suficientes para que a fiscalização seja a adequada às nossas necessidades. Afirmar isso seria estar a mentir. Há que ser realista e tentar ver o que é mais importante, para se estabelecer uma prioridade de actuação. Para ter uma fiscalização a 100 por cento, teria que ter um fiscal para os 163 mil munícipes, algo perfeitamente impossível.

P:No seu tempo de mandato já sofreu alguma espécie de pressão da parte de alguns construtores?

R:Não. Nunca senti. Posso mesmo dizê-lo com todo o à-vontade que, em todo o meu percurso profissional, nunca tive qualquer espécie de pressões. Eu tenho um princípio que pauto todas as minhas actuações, ou seja, quero cumprir as regras que estão em vigor, tudo aquilo que signifique desrespeitar, vêm bater à porta errada.

P:Acha que a limitação de mandatos dos autarcas é benéfica?

R:Eu julgo que deve haver lufadas no poder, não só local mas também no poder central, há um tempo certo para as pessoas estarem à frente dos projectos. Penso que oito anos é o adequado para se desenvolver projecto, pois um mandato só é muito pouco para se mostrar trabalho.
Não me choca nada que haja limitação, mas por que só nos autarcas?

P:Houve uma redução nas verbas do PIDDAC em relação à Câmara de Oeiras?

R:Houve sim. Não vimos contemplados no PIDDAC determinados projectos que consideramos vitais no nosso concelho, nomeadamente a saúde. Os nossos centros de saúde não têm nada a ver com a qualidade de vida que se pratica em Oeiras. Por isso, estou preocupada com compromissos que foram assumidos ao nível da saúde e, não só, que agora estão em risco.

P:Então não concorda com a proibição do endividamento das câmaras proposta pela ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite?

R:Claro que não. Não há nenhuma autarquia que concorde, isso está-nos a limitar a capacidade de acesso. Sem esgotarmos a nossa capacidade de endividamento, não tivemos pejo nenhum em recorrer ao crédito para realizar os vários projectos. Quando nos dizem que não podemos recorrer mais ao crédito, isso, obviamente, que nos vai criar atrasos.

P:O modelo de financiamento das autarquias está esgotado. O que é necessário mudar?

R:Quando manifestamos a nossa preocupação relativamente a essas limitações em termos do modelo de financiamento, tivemos a oportunidade de dizer nas sedes próprias que valeria a pena agilizar procedimentos, para que pudéssemos arrecadar receitas com um nível de eficácia e eficiência real. Isto, para não ficarmos prejudicados com determinadas informações que não existem e que devem ser actualizadas, por forma a terem reflexos positivos nas receitas que podemos arrecadar. Uma das apostas aqui em Oeiras foi atrair investidores que, de alguma forma, nos fazem ter um tecido empresarial e económico que nos dá algum conforto. É fundamental atrair investimentos estrangeiros para gerar riqueza e as autarquias serem mais independentes. Outras das nossas apostas é a recuperação e revitalização de imóveis nos dois centros históricos do concelho, para depois arrendar ou vender a preços acessíveis, sobretudo a jovens.

P:Considera que os autarcas a nível nacional estão a ser mal pagos?

R:Estão. Estão sem dúvida a ser muito mal pagos. Não só os autarcas mas também os políticos de uma maneira geral. Um verdadeiro autarca tem que estar 24 horas disponível, para qualquer emergência. Eu considero que as responsabilidades inerentes ao cargo não estão à altura dos ordenados praticados. Julgo que deveria haver um repensar da situação da parte do Governo.

Abel Baptista afasta ideia de fusão de PSD e CDS

Presidente da distrital de Viana do Castelo do CDS-PP apela a um entendimento pós-governo.

A moção de estratégia do presidente da Distrital de Viana do Castelo do CDS-PP, Abel Baptista, criou algum “burburinho” nos preparativos para o Congresso Nacional do partido, a realizar na última semana do próximo mês, no Porto. Ao contrário do veio noticiado em alguns órgãos de comunicação social, o presidente da comissão política daquela estrutura não defende na sua moção que o PSD e o CDS-PP se fundam num só partido. Segundo o que o próprio garantiu ao SEMANÁRIO, “o projecto que já se iniciou, e está a correr muitíssimo bem, deve ser aprofundado e deve levar a um projecto político comum a médio e longo prazo” o que não implica directamente a fusão dos dois partidos.
Para Abel Baptista, foi feita uma “interpretação subjectiva que não corresponde objectivamente àquilo que nós queremos” e garante que ninguém da direcção do partido lhe “puxou as orelhas”. Segundo aquele popular, “não se trata da fusão dos dois partidos” mas vai avançando que não se deverá ter “medo de falar e de pôr essa questão em cima da mesa”.
“Há aqui uma série de declarações que não passam por fundir os dois partidos”, garante, “o que temos é ideias próximas relativamente ao PSD para podermos fazer esse tal projecto político comum”.
Em relação a uma possível fusão dos dois partidos, Abel Baptista afirma que “nem sequer há essa possibilidade. Acho que os dois partidos têm uma história demasiado rica que não irá permitir isso (…) até porque o espaço político do CDS é de manter”. O presidente de Viana fala de um “projecto comum também na oposição (…) acho que deve ser neste sentido. Mais do que tentarem anular-se um ao outro, devem fazer projectos conjuntos (…) para o bem e para o mal”. Abel Baptista sustenta ainda que “hoje dentro do CDS não deve ser defendida a equidistância que foi defendida por Freitas do Amaral em determinada altura no partido”.