“Deve-se discutir muito seriamente a hipótese do nuclear”

João Soares é um dos rostos principais da ala esquerda socialista. O ex-edil de Lisboa, embora afirme que já provou que na política e no amor não se pode dizer nunca, assegura que a liderança do PS não é nada que esteja no seu horizonte.

João Soares, Presidente da Assembleia Parlamentar da OSCE

João Soares é um dos rostos principais da ala esquerda socialista. O ex-edil de Lisboa, embora afirme que já provou que na política e no amor não se pode dizer nunca, assegura que a liderança do PS não é nada que esteja no seu horizonte. Sobre a governação de Sócrates, refere que, não obstante existirem ministros que estiveram menos bem, o Governo fez reformas muito importantes: na educação, na Segurança Social, nas finanças públicas ou na saúde. Afirma-se defensor do nuclear, do TGV e um grande fã do Magalhães.

Duarte Albuquerque Carreira
da.carreira@semanario.pt

Numa altura em que a Europa parecia estar a pender para a esquerda, a direita ganha as eleições europeias. Como é que justifica este facto?

Vejo isso com tristeza e como mais uma prova de que, infelizmente, a Europa ainda não encontrou o seu caminho, numa lógica de afirmação no plano internacional dos valores que são os seus. Valores que têm que ver com o sistema social europeu, o respeito pelas regras democráticas… Todos os sistemas de solidariedade social que afirmaram a Europa no Mundo nos melhores momentos da sua história. Mas é sabido que a Europa está a passar por uma crise, não só institucional.

Mas não é um paradoxo? Numa altura em que se anunciava o fim do neo-liberalismo…
Tenho o privilégio de estar a trabalhar, no quadro parlamentar, num cenário internacional muito alargado, que vai desde Vancouver a Vladivostok. É o da Assembleia Parlamentar da OSCE, de que sou presidente desde há um ano. Isso tem-me dado a possibilidade de ter uma visão diferente das coisas. Acompanhei muito as últimas eleições presidenciais americanas. E tenho a convicção, de há uns tempos a esta parte, que é muito dos EUA que vai vir a mudança que vai impulsionar o Mundo, um Mundo confrontado com uma crise de dimensões para tantos inesperadas.

Vê uma dinamismo maior na Administração Obama do que na Comissão Europeia?

Incomparavelmente maior. Sobre essa matéria não tenho nenhuma espécie de dúvidas. A nova Administração americana está a fazer uma verdadeira “revolução” nos EUA e no Mundo. E, infelizmente, a Europa não tem sabido acompanhar. Uma boa parte das pessoas que estão à frente da Europa – e não quero reeditar a questão Durão Barroso – foram cúmplices da anterior Administração Bush.

Mas foi a família política que ganhou as eleições europeias.

Mas isso não significa que a política passe a ser justa pela simples razão de se ter ganho as eleições. Eu já ganhei e perdi eleições, sei bem como essas coisas são.

E o lugar de presidente da Assembleia Parlamentar da OSCE permite-lhe estar atento à vida política nacional?

Permite. E permite até, se quiser, uma certa distância em relação ao dia-a-dia e aos faits divers portugueses, que talvez ajude a apurar um pouco mais o olhar.

Não foi à reunião da Comissão Política Nacional do PS, órgão no qual tem assento. Se pudesse ter marcado presença, o que diria aos seus camaradas e ao seu Secretário-geral?

Não fui porque estava, nessa noite, a chegar da Ásia Central. Mas teria dito coisas semelhante àquelas que sei que disse, por exemplo, o António José Seguro: só quero ajudar, quero dar o meu contributo para que o PS possa continuar a ser o partido do Governo a seguir às próximas eleições legislativas.

E como é que isso se materializa?

Isso materializa-se, do meu ponto de vista – mas a responsabilidade de conduzir as operações é de quem tem legitimidade interna para o fazer -, conseguindo unir e mobilizar, antes de mais, todo o PS nas suas mais diversas sensibilidades, empenhando-o num combate que vai ser difícil.

Na sua opinião, quais as razões que estão na base do “cartão amarelo” que a população quis mostrar ao Governo através das europeias?

Antes de mais, houve uma onda que varreu os 27 países da UE. Mas pesaram razões internas. E, durante a campanha, como é sabido, não houve uma discussão sobre questões de natureza europeia. Em termos gerais, Portugal é um País difícil de governar, há até aquela velha frase que os romanos quando nos ocuparam disseram sobre os lusitanos… É muito difícil governar Portugal e, ao fim de um certo tempo, as pessoas ficam descontentes com quem tem responsabilidades de poder. Porque o poder é ter que tomar decisões e optar, muitas vezes contra interesses corporativos que estão instalados de uma forma muito viva na sociedade portuguesa. É preciso saber encontrar um equilíbrio entre a vontade de mudar para melhor, e a necessidade de envolver nessa vontade aqueles que têm de ser os principais agentes dessa mudança. No caso da educação, por exemplo, não se pode fazer uma reforma do sistema educativo sem os professores. Mas para se fazer uma reforma minimamente séria do sistema educativo tem-se, em alguma medida, de estar contra aquilo que são os interesses instalados. E é esse equilíbrio que é fácil de definir numa entrevista, e em palavras ditas assim, mas quando se tem a responsabilidade de mexer nas coisas é diferente.

Uma remodelação profunda no Governo antes das europeias teria feito sentido?

Sinceramente acho que não. Acompanho aquilo que foi a posição do primeiro-ministro. E agora uma remodelação teria ainda menos sentido. Não é em ano de eleições que se modificam equipas governativas que têm que ser julgados por aquilo que foram capazes de fazer. É evidente que há pessoas que estiveram menos bem nas suas responsabilidades ao nível do Governo, mas seguramente não esperará que eu lhe diga quem são porque estamos em ano de eleições. E estou certo que não estarão em próximas equipas governativas se o PS ganhar, como desejo, as eleições legislativas.

Um dos actuais ministros que, certamente, não estará num possível futuro Governo socialista é Mário Lino. Que anunciou o adiamento do TGV para a próxima legislatura.

Aí tem um projecto com o qual eu me identifico claramente. E estou à-vontade para falar sobre essa matéria porque sempre disse, em todas as circunstâncias e desde há muitos anos, que o projecto do novo aeroporto é um disparate completo por ser mau para o País e para a região da capital do País. Mas estarmos ligados à rede de comboios modernos de alta velocidade é qualquer coisa de decisivo. Teria sido, do meu ponto de vista, muito mais ajustado ter feito a reforma do sistema ferroviário numa lógica de modernidade do que ter feito a segunda auto-estrada Lisboa-Porto junto ao litoral.

Posso presumir que discorda do adiamento, na melhor das hipóteses por mais uns meses, do projecto do TGV?

Agora não é dramático. São razões de pudor democrático. Lançar o concurso agora ou daqui a três meses é rigorosamente a mesma coisa, estamos a falar de coisas que se arrastam há trinta e tal anos.

José Sócrates mudou de estilo depois de ter perdido as europeias?

Não. Não mudou nem pretende mudar. Nem eu o aconselho, de maneira nenhuma, que mude – ele aliás não precisa dos meus conselhos. Ninguém pode mudar de estilo, sobretudo, numa lógica de proximidade com actos eleitorais como aquela que estamos a viver.

Mas apostar mais no diálogo?

O diálogo é importante. E é importante que o valorizemos, também, numa lógica de imagem. Teria sido desejável que houvesse mais diálogo, nomeadamente com o movimento sindical, ao nível dos professores, e das grandes questões que movimentaram o mundo do trabalhar. É importante que o diálogo exista, e que se passe a imagem desse diálogo, que deixe de haver tanta crispação no relacionamento com o universo sindical.

De acordo com a tradição, o partido que ganha as eleições europeias vence também as legislativas. Isso preocupa-o?
Nunca fiz a reconstituição histórica dessa matéria. Mas não estabeleço uma relação directa… Mas se você está a querer que eu diga que há o risco de perdermos, claro que há o risco de perdermos as eleições legislativas. Isso seria dramático para o País. É preciso que o País tenha a consciência de que se volta – com todo o respeito pessoal que tenho por ela – a velha senhora é o regresso do velho estilo cavaquista, no pior sentido politico da expressão, ainda por cima com Cavaco como Presidente. E coligados com o CDS de Portas.

Ainda pensa que a direita em Portugal é dirigida por uma troika agressiva, impiedosa e muitas vezes despudorada na argumentação política? Disse isto em 2003 referindo-se a Durão Barroso, Paulo Portas e Santana Lopes.

Nessa altura era. Mas reconheço que esse não é o estilo de Manuela Ferreira Leite. Aliás, lembro-me bem – e já que você está a fazer citações – dos comentários que ela fez sobre o Durão Barroso quando foi para a Comissão Europeia e deixou o Governo e o PSD entregue a Santana Lopes. Condenou isso com veemência e honra lhe seja feita por essa atitude.

Que bandeiras gostaria que o seu partido trouxesse para a campanha eleitoral das eleições legislativas?

Em primeiro lugar, o PS tem de valorizar o esforço, importante e incontestável, que foi feito por este Governo em muitas áreas. Sei que na nossa terra há muita dificuldade em ter memória daquilo que de positivo foi feito… Houve transformações importante, nomeadamente no plano das Finanças Públicas. Equilíbrios que foram conseguidos que, agora, em larga medida, estão comprometidos pela grave crise internacional. Depois houve coisas decisivas que foram conseguidas na área da Segurança Social. O Vieira da Silva teve um papel na reforma da Segurança Social que tem de ser sublinhado com uma palavra de gratidão por quem, como eu, seguiu isso com atenção. Correia de Campos, na saúde, fez uma reforma importante. Também há algumas áreas na educação onde se deram saltos qualitativos importantes: a introdução do estudo do inglês, o aumento do tempo de estudo, a questão dos computadores… Sei que é de bom-tom entre muita esquerda pretensamente esclarecida gozar com o computador Magalhães, mas eu sou um fã do Magalhães. Devo-lhe dizer que tenho feito promoção internacional do Magalhães e tenho visto o deslumbramento com que países da Europa, da Ásia Central ou do Cáucaso ficam perante o projecto.

Mas o dr. João Soares não tem um Magalhães.

Não tenho um Magalhães aqui porque o computador que me deram no Parlamento é outro. Mas o meu filho mais novo, o Jonas, já usa o seu Magalhães.

A mensagem que passou não foi essa.
Esse é um dos dramas do tempo que estamos a viver: há, muitas vezes, uma grande diferença entre a realidade de facto e a imagem exterior que passa. E as pessoas que estão concentradas a trabalhar em modificar a realidade de facto no terreno, às vezes, esquecem-se das questões da imagem e consideram-nas secundárias.

Isso num Governo tão profissional quanto à imagem e com agências de comunicação?

Não acredito em agências de comunicação. Olhe, há quem diga que foi isso que me aconteceu em Lisboa: estava tão concentrado no trabalho que estava a fazer no terreno que me borrifei nas questões da imagem, e depois apareceu um Santana Lopes a dizer que fazia 250 mil casas para jovens no centro histórico, ou que fazia uma piscina em cada freguesia, muitos parques de estacionamento… E eu que tinha feito parques de estacionamento, algumas piscinas e muitas casas não me preocupei com a imagem.

Mas também não perdeu por muitos votos, cerca de 800…

856, deve ser um número que só eu sei. Nem o Santana se deve lembrar dele. E há quem diga que mal contados – matéria sobre a qual eu nunca me pronunciei.

Voltando à questão das bandeiras que o Governo deve trazer para a campanha eleitoral das legislativas…

As coisas têm que, cada vez mais, aproximar-se de uma escala humana, próxima das pessoas. Tudo o que tenha que ver com a qualificação é muito importante. Qualificar as pessoas, qualificar o território, qualificar a administração publica. A educação e a saúde são coisas muito sérias. A qualificação da Administração Pública, com a diminuição do peso da burocracia, onde houve por parte deste Governo vontade de mudar mas as coisas não foram tão longe quanto seria desejável. E a qualificação do território, matéria onde se fez um esforço: o investimento nas energias renováveis, eólicas e solares, deixou uma marca, ficámos muito bem qualificados no ranking europeu em matéria de energias renováveis.

A energia nuclear deveria ser uma bandeira para a próxima legislatura?

Pessoalmente, acho que é uma matéria que se deve discutir. Se eu, em vésperas de eleições, aparecer a dizer que se deve avançar para o nuclear, você faz disso um título muito chamativo e depois crucificam-me na praça pública. Deve-se discutir muito seriamente, mas duvido que seja possível fazê-lo em vésperas de eleições. Até porque em Portugal é muito fácil fazer demagogia e crucificar as pessoas quando elas dizem a mais elementar das verdades.

Tenciona fazer campanha ao lado de José Sócrates?

Claro que sim. Farei sempre campanha pelo PS – em todas as circunstâncias. Nunca ninguém me viu não participar numa campanha do meu partido. Participarei muito activamente.

Tenciona recandidatar-se a deputado?

Claro que sim, até para poder continuar o meu mandato como presidente da Assembleia Parlamentar da OSCE. Onde tenho procurado honrar o Parlamento português e prestigiado Portugal.

Em nome da governabilidade o PS deve estar aberto a um entendimento com o resto da esquerda representada no Parlamento?

Só faz sentido falar sobre essa matéria depois das eleições. O PS tem que pedir uma maioria para poder continuar a governar, em nome daquilo que fez, em nome daquilo que se propõe fazer e em nome, sobretudo, da inquietação que os portugueses teriam em ver voltar o esquema da “velha senhora”: o cavaquismo puro e duro na sua versão mais hard.

E se não tiver essa maioria? É possível a esquerda dialogar entre si?

Isso depois se verá. Mas acho que a esquerda pode dialogar. Defendi isso para Lisboa, antes de qualquer outra pessoa o fazer. E é importante sublinhar que quem pôs em causa essa primeira e única experiência, de unidade da totalidade da esquerda, foi o PSR, com Francisco Louçã. Mas a unidade da esquerda é difícil, sobretudo vendo estes antecedentes.

Mas o desígnio da governabilidade, ainda mais numa altura de profunda crise, não poderá falar mais alto?

O António Guterres provou com muita inteligência, e muita capacidade de realizar na prática, que era possível governar mesmo sem uma maioria absoluta. A verdade é essa. Os primeiros quatro anos do Guterres foram absolutamente excepcionais.

Depois da morte de Francisco Sá carneiro, Cavaco Silva é a grande referência da direita nacional. Acha que a sua acção enquanto PR tem beneficiado o PSD?

Não quero ser injusto e não lhe faria essa acusação. Se o PS não tiver uma maioria absoluta para governar, como alguns desejam, Cavaco Silva vai ter muitas dificuldades como PR. Vai ter que ajudar a fazer equilíbrios que permitam ao País ser governado com o mínimo de estabilidade. Ninguém quer voltar a um período, como já houve na nossa história democrática, em que os governos duravam um ano ou ano e meio no máximo. O País precisa de estabilidade governativa e a necessidade de intervenção do PR, obviamente, terá que ser reforçada. Mas espero que isto não se tenha que provar – até por ele, coitado.

Ainda alimenta a vontade de, um dia, ser secretário-geral do PS?

Dei a cara na altura em que julguei ser importante fazê-lo. E com os resultados que são conhecidos, levei uma cabazada – como outros também levaram. Mas eu levei uma cabazada muito maior do que a do Alegre e, como democrata que sou, aceitei os resultados com a maior das humildades. Nessa matéria, não penso que faça sentido voltar a dar a cara outra vez. Embora, já uma vez um avião que caiu me tenha ensinado que devemos estar preparados para tudo. Mas a liderança do PS não é nada que esteja no meu horizonte. A Roseta é que costumava dizer que “na política e no amor não se pode dizer nunca”. Eu gosto da frase, e acho que já o provei nos dois planos

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