2019/10/22

Tiro a Sócrates

O bombardeamento cavaquista a Sócrates intensificou-se esta semana. O dia de ontem, 25 de Junho, logo a seguir à entrevista de Manuela Ferreira Leite na SIC, foi particularmente difícil para o primeiro-ministro, de autêntica guerra relâmpago. A partir do norte de Portugal, Guimarães, berço da nação, e Braga, a cidade dos arcebispos.

Bombardeamento cavaquista

O bombardeamento cavaquista a Sócrates intensificou-se esta semana. O dia de ontem, 25 de Junho, logo a seguir à entrevista de Manuela Ferreira Leite na SIC, foi particularmente difícil para o primeiro-ministro, de autêntica guerra relâmpago. A partir do norte de Portugal, Guimarães, berço da nação, e Braga, a cidade dos arcebispos. As bombas vieram assinadas: compra da TVI pela PT, simultaneidade das eleições e Concordata com a Santa Sé. Ninguém acredita que há menos de um ano ainda se falava neste país em cooperação estratégica.

A cooperação estratégica parece um artefacto de antigamente. Não deixa de espantar que, há menos de um ano se falasse ainda nela, quando hoje se vive um clima de guerra dura e total entre Belém e São Bento. Esta semana foi particularmente difícil para Sócrates. O dia de ontem ficou mesmo assinado por uma ofensiva de Belém, nunca vista, que começou logo de manhã e se prolongou por todo o dia. Curiosamente, na véspera, Manuela Ferreira Leite tinha estado na SIC, no mesmo palco onde Sócrates esteve há uma semana. A líder do PSD era outra mulher, tranquila, satisfeita, emanado segurança. A entrevista não lhe podia ter corrido melhor. Os inimigos de Sócrates estão a aproveitar a sua grande fragilidade, derivada da derrota nas europeias, para lhe caírem em cima na pior altura. Vale tudo. Sócrates parece ter entrado numa centrifugadora. A frase que mais se tem ouvido nas últimas duas semanas nos meios políticos, naturalmente próximos do PSD, é que Sócrates está a colher o que semeou.
Ontem de manhã, depois de na véspera Sócrates ter sido questionado no Parlamento sobre a compra da TVI pela PT e de Sócrates ter garantido que não sabia nada do negócio, Cavaco Silva instou a PT a esclarecer os portugueses. “Face às dúvidas fortes que neste momento estão instaladas na sociedade portuguesa, é importante que os responsáveis da empresa de telecomunicações expliquem aos portugueses o que está a acontecer entre a PT e a TVI. É uma questão de transparência”, disse o Presidente da Re República. Cavaco fez ainda questão de explicar que não costuma fazer “declarações públicas sobre negócios das empresas”, mas que neste caso entendeu “abrir uma excepção”, “pela natureza do sector que está causa e pela importância nacional da empresa de telecomunicações”. Recorde-se que o governo, através da Golden Share, que detém na PT tem o poder de veto em relação aos negócios da PT.

Sobre esta operação, o presidente do conselho de administração da PT, Henrique Granadeiro, fez ontem saber que “se houvesse qualquer perspectiva de negócio com a Media Capital teria de ser resolvido no conselho de administração”, o que não aconteceu nem se prevê que aconteça.

Na mesma manhã de ontem, Cavaco passou a outro disparo contra José Sócrates, numa matéria muito diferente. A partir de Guimarães. Depois de na semana passada ter ouvido os partidos sobre a data das autárquicas, o governo estava à espera que o PR, que também ouviu os partidos esta semana, marcasse primeiro a data das legislativas. A ser assim, o governo poderia marcar as autárquicas para uma data diferente das legislativas, não cedendo à vontade de Cavaco. Ora o Presidente da República considera agora que o governo é que tem de marcar primeiro a data das autárquicas, argumentando que as leis sugerem este processo. “É o Governo em primeiro lugar que tem de anunciar a sua decisão sobre o dia das eleições autárquicas. E só depois disso é que o Presidente da República pode anunciar a sua decisão. Fá-lo-ei quando chegar o meu tempo. Estarei concerteza preparado para anunciar aos portugueses essa data depois de o Governo anunciar a data das eleições autárquicas”, disse Cavaco Silva. O Presidente da República frisou, em seguida, que “este é o processo sugerido pelas leis em vigor”, uma declaração que deixou muita gente estupefacta. É a segunda vez esta semana que Cavaco se socorre de informações que não do conhecimento comum dos políticos e juristas, já para não falar da generalidade dos portugueses. Cavaco também disse no princípio da semana que os portugueses preferem eleições legislativas e autárquicas em simultâneo, de acordo com os dados de uma sondagem que ninguém conhece.
Ao marcar as legislativas depois de o governo marcar as autárquicas, o Presidente da República tem a porta aberta para, mesmo contra a opinião dos partidos, à excepção do PSD, fazer coincidir os dois actos eleitorais, o que deve ser o mais provável.
Por último, horas depois, em Braga, Cavaco Silva disse esperar que as questões pendentes na Concordata entre o Estado e a Igreja “sejam resolvidas a muito breve prazo”. Cavaco acrescentou que “há boa vontade das duas partes para resolver o problema da regulação da Concordata”, frisando que se trata de assuntos que “já deviam ter sido resolvidos”.
Cavaco Silva respondeu a um apelo lançado pelo Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga que lamentou a demora na assinatura da regulamentação da Concordata, essencial para a aplicação da mesmo. No último mês, vários sectores da direita têm-se insurgido contra a demora do Governo nesta questão. Ao solidarizar-se com este processo, Cavaco deu mais uma machadada a Sócrates e também ao sector mais jacobino do PS, onde pontifica Vital Moreira.
Para além deste bombardeamento cavaquista, Sócrates tem sido fustigado com fogos cruzados, vindo de todos os sectores. Viu empresas que trabalharam com o governo ou que o primeiro-ministro elogiou serem alvo de operações do poder judicial, viu o PSD levantar a questão do saco azul da Fundação Comunicações Móveis, o Freeport recrudescer, o Ministério Público arquivar uma queixa em relação a um artigo que pode muito bem ter ultrapassado os limites da lei.

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