A capacidade de mudar depende de si

Atenção. O Mona Lisa Show vai começar. Luzes. 7 personagens, 7 histórias para contar, 7 pessoas em palco. Eles falam de si próprios, abrem-se ao público como se fosse um reality show. Como se de uma montra se tratasse.

Atenção. O Mona Lisa Show vai começar. Luzes. 7 personagens, 7 histórias para contar, 7 pessoas em palco. Eles falam de si próprios, abrem-se ao público como se fosse um reality show. Como se de uma montra se tratasse. No fundo falam de nós ou de pessoas que conhecemos, em diálogos cruzados, que por vezes se tocam, dando respostas uns aos outros, criando dúvidas. Diálogos murmurados que nem sempre estão em foco. A certa altura estão todos a falar ao mesmo tempo. O concerto já começou.

Pedro Gil, mentor da ideia conceptual e encenador da peça teve a trabalhar neste espectáculo dois anos. Depois de “Homem-Legenda”, apresenta uma nova criação. A peça insere-se numa linha semelhante, a de espectáculo provocante. Os pensamentos de cada um ganham voz ou os pensamentos dos outros fazem-nos questionar os nossos próprios pensamentos. Os desejos mais íntimos podem estar em palco. Perguntas, muitas perguntas e nenhuma resposta, essa pode estar em cada um de nós. A temática versa sobre o amor, a família, a realização profissional e pessoal, o tempo e a qualidade de vida. Na prática são temas que reflectem os dias que vivemos na sociedade. Eles são de Lisboa e pertencem a este espaço.
Pedro Gil começou por criar um esboço das histórias que queria contar. Juntou a equipa de actores e partiram rumo a Montemor-o-Novo, onde fizeram uma residência artística, no Espaço do Tempo. As personagens foram ganhando forma e foram de algum modo reinventadas. O encenador considera que as personagens estão todas numa espécie de abismo. Todas já têm algumas conquistas na sua vida, têm um lugar seguro onde vivem. Mas, por isso mesmo podem mudar. Porque não? Apresento-os:
– Vai ser pai, trabalha no ramo imobiliário e corresponde-se na Internet com a Soraia, que através de uma fotografia falsa vai entrando nos pensamentos dele. Ricardo Gageiro dá voz a este homem.
– Mãe, esposa e publicitária a tempo inteiro, que se culpabiliza por ser sempre a última a ir buscar o filho ao infantário. Tem aulas de salsa, o único “luxo” a que se permite numa vida agitada. Ela é uma mulher cansada, que há meses que tenta acabar o livro que está a ler, nunca saindo da mesma página. Quer despedir-se, deixar de se esquecer das amigas e ter tempo. Raquel Castro numa óptima estreia.
– Casado há 26 anos. Dois filhos adultos. A filha descobriu que ele tem uma amante praticamente da idade dela. Ela está em pânico com o facto da mãe poder descobrir e confronta o pai com o facto de ter descoberto. Isto nunca lhe tinha acontecido. Será amor? Ele é António Fonseca.
– Namora há quatro meses. Mas o Nuno é que era. Tinham uma relação de perfeito encaixe. O Filipe quer ir viver com ela. E as luzes vermelhas acendem-se na sua cabeça: pânico, perigo, pensa rápido numa resposta. Ele é só “boa cama” na visão dela. Ele quer ser o pai dos seus filhos. Ela diz-lhe que quer uma relação aberta e que com ele nunca vai resultar. Acaba com ele. Quer um homem que a deixe ser livre sexualmente. Mónica Garnel tem um desempenho brilhante.
– Ele quer ser o filho ideal, visita pelo menos uma vez por mês a sua mãe. É homossexual e quer-lhe dar um filho. O seu pai nunca aceitou a sua sexualidade. Ele adora praia, o verão e as suas paixões. Romeu Costa é esse filho.
– É artista, mulher, bonita. Nasceu na Argentina, mas veio estudar para Portugal. Deixa a vida correr. Questiona-se. Um amigo dela, também artista, pergunta-lhe quando vai ela desistir de criar, quando vai ela ter a coragem para ir procurar a felicidade noutro lado. Ainhoa Vidal, a bailarina descobriu mais um talento.
– O pai tem cancro. Ele tem tantas perguntas para lhe fazer, o pai não tem nenhumas. O pai não aplaude as suas escolhas profissionais. O filho convida o pai para uma viagem. Não percebe como é que os dois nunca se embebedaram. Por David Almeida.
A encenação de Pedro Gil funciona muito na base do trabalho de actor. Tudo acontece entre a passadeira, os projectores e as personagens. Em termos temáticos não nos traz nada de novo, mas dá-nos flashes, fragmentos que podem fazer a diferença. Clichés e frases que toda a gente já disse ou já ouviu: “Quero acabar contigo. Não é sobre ti, sou eu. Preciso de espaço. A comida é quase tão boa como a da mamã. Não desistas de mim.” É de um naturalismo pop soberbo.
Até porque no meio de temas aparentemente banais, falam também de preconceitos, de problemas sociais e culturais e do poder dos ícones, da fama. Ao longo do espectáculo vão-se sentindo cortes emocionais, que por vezes são conseguidos pela música ou pela própria interrupção nos diálogos.
O que quer essencialmente é contar as histórias destas personagens e a forma como se relacionam, na actualidade: “Não procuro que as pessoas se identifiquem, apenas que aceitem, que sirva como uma janela que pode dar ou não num processo de reflexão.”.
A peça vem-nos relembrar que há possibilidade de fazer coisas que nunca tivemos coragem de fazer, escolhas, ter direito a, poder escolher. Saber dizer quero mais, quero diferente. Escolhi isto. Ser só eu, sem medos, sem desconfianças. Acabar a dizer: “Esta sou eu, a minha respiração” e parar de andar “Para trás e para a frente, como se fosse uma máquina: o que tenho de fazer, o que ficou por fazer”.
Pode mudar a sua vida? Não tanto, mas pode mudar algumas coisas da sua vida. Será um momento de libertação, desde que esteja disponível. A questão que o “Mona Lisa Show” deixa é: do que é que se vai lembrar amanhã?

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