2020/11/30

Madrid trava TGV

O Governo português não consegue obter resposta definitiva de Madrid para o avanço da rede ferroviária que inclui a ligação Madrid-Badajóz. Uma situação que pode atrasar em pelo menos cinco anos o arranque do TGV em Espanha e justificar o adiamento também da rede de alta velocidade em Portugal.

O governo português não consegue obter resposta definitiva de Madrid para o avanço da rede ferroviária que inclui a ligação Madrid-Badajóz. Uma situação que pode atrasar em pelo menos cinco anos o arranque do TGV e justificar o adiamento também da rede de alta velocidade em Portugal.
Sem recursos próprios nem viabilidade económica, a ligação Poceirão-Elvas pode estar comprometida para os próximos anos, assim como o debate à volta da construção da terceira ponte rodo-ferroviária de Lisboa.
Sem o TGV não há necessidade de uma nova ponte sobre o Tejo para já, embora a definição do seu traçado já tenha sido adjudicada pelo Conselho de Ministros.
Mas avançar com uma ponte ferroviária sem que o TGV esteja construído até Madrid e daí a ligar à Europa, seria apenas uma transferência de recursos públicos para as empresas de construção e obras públicas, o que não parece justificável, nem no contexto das actuais dificuldades da economia nacional.

Cavaco é o último a rir

Neste quadro, quem fica com a Taça e bebe o champanhe parece ser o presidente da República, que sempre foi contra o TGV, mas que dificilmente inviabilizaria o projecto do lado nacional.
O Governo tem afirmado que, no caso do TGV não se repetirá o processo da Ota, em que, perante a oposição de Cavaco e do PSD, acabou por recuar na sua posição. Mesmo com a discordância do presidente da Republica o Governo não teria dúvidas em avançar com o TGV.
Na verdade, se, no processo do novo aeroporto, o Governo cedeu a Cavaco Silva – e ao PSD de Marques Mendes, amparado por um movimento de protesto na sociedade civil – e deixou cair a localização da Ota, com o TGV o cenário nunca se repetiria, desde que Sócrates tivesse o respaldo do governo de Madrid.
No entanto, ao que o Semanário apurou o Governo não parece ainda disposto a ceder, adiantando que está em causa um acordo com a Espanha assinado durante a cimeira ibérica, e tudo indica que, mesmo sendo frontalmente contra o projecto, o Presidente da República tem que honrar os compromissos do Estado. Aliás a competência para decidir é, neste caso, do Governo, o que o próprio Cavaco Silva reconheceu publicamente durante a campanha eleitoral das presidenciais.
Desde a chagada de Ferreira Leite ao PSD reacendeu-se a questão, que já era um cavalo de batalha de Marques Mendes. Recorde-se que, ainda antes de se apresentar como candidato à Presidência da República, Aníbal Cavaco Silva já era contra o investimento público no TGV.
Logo na véspera de anunciar a candidatura, Cavaco Silva disse que “investimentos como os do novo aeroporto da Ota e do TGV, mesmo não existindo restrições orçamentais, só devem ser realizados se a totalidade dos benefícios sociais, ao longo da vida dos projectos, for maior do que os respectivos custos sociais”. A oposição de Cavaco Silva a estes projectos foi publicada no livro “A Agenda de Cavaco Silva”, do jornalista Vítor Gonçalves (actual correspondente da RTP em Washington), que saiu nas vésperas do anúncio da candidatura presidencial.
A questão dos investimentos rapidamente se tornou uma das grandes polémicas da campanha presidencial de 2006, o que obrigou o candidato a esclarecer que “o Governo tem competências para legislar sobre investimentos públicos, ouvindo a sociedade e discutindo em local próprio”.
Apesar de ter afastado da campanha a contradição entre a sua opinião e a do Governo, Cavaco Silva tem, recorrentemente, mostrado as suas dúvidas sobre estes investimentos públicos. E, agora o silencio de Espanha parece dar razão ao presidente. O TGV vai provavelmente ser adiado e desse modo a terceira via sobre o Tejo também ficará para depois de 2013

Análise custo-benefício

Há dois anos, Cavaco Silva defendeu que “é bom que se debata a rentabilidade desses grandes investimentos, e sem dúvida que o TGV é um grande investimento, para saber se, de facto, contribui para uma melhoria do bem-estar dos portugueses”. Na altura, pediu “análises custo-benefício muito profundas” sobre o dossier (tal como Manuela Ferreira Leite fez).
Nessa altura, Cavaco Silva fez uma viagem de comboio, em alfa pendular, entre Lisboa e Albufeira. Quando os jornalistas lhe pediram para comparar o Alfa Pendular com o TGV, o Presidente respondeu assim: “Acho que estes comboios estão bem. Ainda há bocado íamos a mais de 200 quilómetros à hora. É uma óptima velocidade para o Algarve e até para o Porto.” No dia seguinte, Sócrates recusou liminarmente parar o processo: “Seria um erro que o país pagaria caro em termos de competitividade e qualidade de vida.”
Depois disso, o Governo já encomendou novos estudos incluindo o da viabilidade da terceira ponte. Mas sempre reconhecendo a mais valia ferroviária. Porém, sem ligação a Madrid o TGV Poceirão-Elvas torna-se um investimento inútil.
Cavaco Silva é o último a rir.

TGV Porto-Vigo pode não parar

Já a ligação Porto-Vigo pode ser a primeira a avançar, dado que os espanhóis mantêm a ligação Madrid-Vigo, fazendo todo o sentido, sobretudo para valorizar a plataforma aeroportuária instalada no Porto.
Recorde-se que o vice-presidente do PSD, Rui Rio, se manifestou preocupado com efeitos colaterais no Porto do ataque de Manuela Ferreira Leite a projectos como o TGV. Na Comissão Permanente laranja que se realizou esta semana, o presidente da Câmara do Porto manifestou mesmo a sua posição, defendendo que o partido deve clarificar o que pensa sobre os investimentos, o que acabou por não acontecer até agora. Recorde-se que Rui Rio não é adepto da aposta do PSD em continuar a criticar abertamente alguns investimentos públicos, em especial o TGV.
Rui Rio defende também a ligação à capital: “Ninguém mais utilizará o avião para se deslocar a Lisboa e, portanto, é fundamental que a linha em alta velocidade vá captar o mercado galego”, disse o autarca do Porto em Fevereiro de 2006.
Uma posição que já terá influenciado as mais recentes declarações de dirigentes do PSD. Aliás, no último debate do Estado da Nação, na Assembleia da República, Paulo Rangel fez notar uma evolução do partido sobre a matéria: “O PSD não está contra as Obras Públicas em geral nem contra nenhuma em concreto”, disse o recém–eleito líder parlamentar.
Por seu lado, e contrariando essa posição, Nuno Morais Sarmento adiantou aos jornais que “se tivermos que pegar num projecto [para questionar] será o TGV”. O novo presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD dizia que “esta crónica tendência faraónica do PS, própria de países subdesenvolvidos e uma receita de modernização baseada no investimento público”.
Já na sua primeira entrevista, à TVI, Manuela Ferreira Leite ia mais longe ao dizer que “não há dinheiro para nada”, iniciando uma autêntica cruzada para pedir os estudos financeiros ao Governo.|

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