BES, BPI e CGD ganharam a AG do BCP

Só o BES o BPI e a CGD lucraram com o desfecho da última Assembleia-Geral do BCP. A confusão continua e o governo do banco não se clarificou, como convém à sua concorrência. Que saídas, agora, para o BCP? Berardo não deve convocar nova Assembleia-Geral e aceitará qualquer solução. Jogando na antecipação, Paulo Teixeira Pinto poderia surpreender o mercado e levar aos accionistas um nome que achasse ter condições para lhe suceder. Teixeira Pinto sairia, neste cenário, sem ser empurrado, mas porque teria construído uma solução de governo para o BCP. Contadas as espingardas, chegou o momento da diplomacia inteligente.

Os advogados de Joe Berardo e Moniz da Maia anteciparam o desfecho da Assembleia-Geral, de segunda-feira passada, e evitaram uma derrota, retirando os pontos da ordem de trabalhos e afastando a razão de ser da reunião de accionistas do BCP. Na noite de domingo, o acordo estava praticamente conseguido entre os accionistas, mas, na segunda-feira, tudo voltava à estaca zero e a contagem de espingardas, feita anteriormente, obrigava acções rápidas. No final, os protagonistas tentaram evitar mais polémicas públicas, percebendo que, objectivamente, o banco começava a perder valor, e que a concorrência era a primeira beneficiária, ao mesmo tempo que se começavam a clarificar as posições.
Pedro Teixeira Duarte assumia-se como investidor de longo prazo, distante dos dois mais evidentes protagonistas divididos e defensor do que se convencionou chamar “a terceira via”. É, aliás, esta que, cada vez mais, começa a fazer sentido, sobretudo, porque os principais investidores estrangeiros estarão de saída, a começar no Fortis, que, certamente, quererá realizar os 780 milhões, que vale a sua posição no BCP, para evitar ter que pedir aos seus accionistas nove biliões de euros para comprar a operação do BBN Amro na Holanda.
Também, a Sonangol tem que ir devagar no BCP. Ninguém se mete com os negócios angolanos, enquanto eles estiverem confinados ao BPN e ao BANIF. Mas, se José Eduardo dos Santos quiser controlar o BCP vai ter problemas e sérios.
Por outro lado, a crise de liquidez está a desmotivar os accionistas estrangeiros que alinharam com Jardim Gonçalves, ao mesmo tempo que muitos dos accionistas nacionais, alavancados em crédito, não aguentam estavelmente ser referências do BCP, sobretudo, com as acções a caírem quase mil milhões de euros, como aconteceu a seguir à Assembleia-Geral de segunda-feira. Os bancos credores começam a ficar nervosos e impacientes e, por isso, haverá muita gente a saltar fora.

Berardo não pedirá mais nenhuma AG

O próprio Joe Berardo, certamente, não irá pedir mais nenhuma Assembleia-Geral depois da loucura da última. Contadas as espingardas iria perder pelo que não se coloca a jeito. Por outro lado como agitador quer vender as acções com mais-valias e por isso vai ser o primeiro a aceitar qualquer solução. O mesmo se passará com Moniz da Maia e todo o grupo dos sete.
É antecipando isso que Paulo Teixeira Pinto foi, logo, dizendo, na segunda-feira, que não era o porta-voz de ninguém e que lembrava que tinha sido Jardim Gonçalves a escolhê-lo. Ficou claro que qualquer solução, no actual quadro de accionistas, só será aceite se Jardim e Pinto se afastem.
E, neste contexto, a busca de uma solução credível pode ser a jogada de antecipação de Paulo Teixeira Pinto, já nas próximas semanas, avançando com um nome que o actual CEO considere que está em condições de conduzir o banco.
A questão do governo do banco, nos termos em que ficou depois da última Assembleia-Geral, pode aguentar-se até à assembleia de Março de 2008, interessando isso aos concorrentes, pois é obvio que o BCP está a perder notoriedade e negócio, por causa do desgaste desta guerra de accionistas.
Neste cenário, como CEO e accionista, a última coisa que Paulo Teixeira Pinto se emprenharia era em destituições de colegas ou mesmo no afastamento de Jardim Gonçalves. Mas, como accionista e presidente executivo, poderia indicar aos accionistas um nome para seu sucessor – por exemplo, Santos Ferreira, Pedro Fernandes Homem ou António Horta Osório, ou, numa solução interna e pacificadora, mas de mais curto prazo, Alípio Dias (o homem dos equilíbrios do Bloco Central, empurrado para o lado de Jardim pelos acontecimentos) ou, numa solução mais fracturante, Francisco de Lacerda (líder da facção Mello dentro do BCP) ou João Talone, (estando postos de lado nomes como António Mexia ou António de Sousa) – que eles aceitassem e aceitassem convidar. Seria esse novo putativo CEO que iria dizer com quem quereria trabalhar, nomeadamente, com quem da Administração actual e do Conselho Geral e de Supervisão do banco. Seria ele a dizer se ficaria com alguns dos actuais administradores e responsáveis do banco (por exemplo, com Jardim Gonçalves) ou não, não tendo Paulo Teixeira Pinto ou Pedro Teixeira Duarte que se desgastarem com despedimentos e negociações de envelopes financeiros.
A antecipação de Paulo Teixeira Pinto, para lá de economicamente vantajosa, poderia, neste cenário, ser – não uma jogada politica, como pareceram algumas até agora – mas a confirmação de que o CEO quereria continuar a ter influência no banco, depois da sua eventual saída da Administração, evitando maiores desgastes directos, e, sobretudo, que, aos 47 anos, conseguiria gerir uma situação tão delicada como esta, demonstrando, afinal, estar à altura de outros protagonismos, dentro e fora do banco.
A entrevista de Pedro Teixeira Duarte, ao “Diário Económico”, ontem, era bem um sinal que, do lado da construtora, a paciência se estaria a esgotar e que haveria um público distanciamento relativamente às posições de Jardim Gonçalves. Pedro Teixeira Duarte sabe que a crise económica está a chegar e que a recessão em Espanha empurrará de volta ao País mais 100 desempregados, emigrados em Espanha, tornando a situação em Portugal insustentável.
Bom senso e agilidade diplomática são os trunfos a jogar agora. A crise global ajuda à maior contenção. E, quem for mais diplomata e mais inteligente acabará por sair bem de uma história que, na opinião pública, não deixa ninguém bem no retrato.

Instabilidade no banco não desvia CEO
das metas do “Millennium 2010”

Foi marcando esta agenda que Paulo Teixeira Pinto, logo depois da Assembleia-Geral, anunciou que o banco vai cumprir os planos e os prazos da abertura de novos balcões na Roménia e garante que vão “manter escrupulosamente as metas”. Dar um sentido de normalidade para que todos possam recuperar a face e o banco não perca mais.
“Vamos manter escrupulosamente as metas, nomeadamente a abertura de um banco na Roménia”, afiançou aos jornais o presidente do Banco Comercial Português à saída da AG.
Mas, reconheceu, também, que esta situação de sucessivas AG gerou algum impasse no banco: “esta situação terá obrigatoriamente de ser recuperada” em termos de “timing”.
Indagado pelos jornalistas ao final da AG sobre se pondera sair da instituição, Paulo Teixeira Pinto afirmou que vai “sair um dia e não vai ser daqui a 20 anos”, acrescentando que “a minha saída nunca fez parte de nenhum acordo” entre os accionistas, e que “o meu lugar esteve sempre à disposição dos accionistas”.
“O cargo de presidente do conselho de administração não é um emprego” e em jeito de desabafo disse que nos últimos dois anos apenas gozou cinco dias de férias.
Em relação ao futuro do banco, o CEO fez um apelo à estabilidade, dizendo que “o banco precisa de sair das primeiras páginas dos jornais”.
Para os próximos meses, e questionado sobre as eventuais negociações para se chegar a um consenso em relação aos estatutos, Paulo Teixeira Pinto diz “ser admissível” que se siga, agora, um “período de um a dois meses de discussão”, acrescentando “ser possível uma AG em Outubro. Mas não estou a dizer que vai haver uma AG em Outubro”.
E rematou, quando questionado sobre a existência de divergências com Jardim Gonçalves, que “não há divergências, nem pessoais, nem funcionais com Jardim Gonçalves”.

Operadores prevêem queda das acções
do BCP e rejeitam cenário de OPA

Os operadores do mercado nacional antecipam uma queda das acções do BCP e consideram que a instituição está demasiado instável para ser atractiva a uma oferta pública de aquisição (OPA), como o sugerido pelo empresário Joe Berardo.
“O mercado ainda está a tentar perceber o que se irá resolver em termos de futuro do BCP. Por isso, é mais provável que as acções venham a cair hoje do que a subir, mesmo apesar dos comentários do comendador Joe Berardo”, afirmou ao Jornal de Negócios Online Luís Duarte, do Caixa Banco de Investimento.
Posição partilhada por outro operador de uma corretora, que considera que “a enorme incerteza em relação a um entendimento entre accionistas do BCP deverá pressionar as acções”. Quanto à possibilidade de o banco estar vulnerável a uma OPA, o mesmo operador afirma que “existem demasiadas divisões na estrutura de liderança e na estratégia do BCP” para que o banco “consiga atrair alguma oferta de aquisição, como sugeriu Joe Berardo”.
O cenário de OPA foi lançado por Joe Berardo, um dos maiores accionistas da instituição e a enfrentar também grandes problemas para o pagamento das dívidas se a desvalorização continuar. “Não me admiraria nada que aparecesse por aí uma OPA”, afirmou empresário madeirense, que controla 6,8% do BCP. Berardo disse ainda “ter medo que daqui a uns dias, o banco comece a falar espanhol”.
A possibilidade deixada em aberto por Berardo não teve qualquer efeito de subida nas acções do BCP que desvalorizou significativamente nas sessões seguintes.

BES prevê dificuldades no acordo entre
accionistas do BCP

Por seu lado a Espírito Santo Research (ESR) considerou que não deverá ser fácil aos accionistas do BCP chegarem a um acordo final, em relação à estrutura de gestão do banco. A posição foi defendida pelo departamento de análise do BES, numa nota divulgada depois da Assembleia-Geral.
“O processo de negociação vai continuar, mas parece que será difícil aos accionistas do BCP atingirem um acordo final quanto à estrutura de gestão do banco”, defenderam os analistas Cristina Vieira da Fonseca, responsável pelo departamento de “research”, e Carlos Lobo.
Os analistas salientam que qualquer entendimento entre accionistas “só será possível se os conflitos internos forem esquecidos”, o que defendem que seria positivo para o banco.
Apesar da incerteza quanto à liderança do maior banco privado português, a casa de investimento recorda que as acções negoceiam com um prémio de OPA e que “um acordo interno poderá reduzir a probabilidade de uma oferta de aquisição”.

Rogério Alves: haverá nova assembleia
do BCP antes do fim do ano

Quem anima a possibilidade de uma Assembleia-Geral antecipada é, desta vez, a Teixeira Duarte. Endividada e dependente do BCP, no caso da Cimpor e da própria actividade da empresa, terá todo o interesse em marcar a próxima Assembleia-Geral, eventualmente apoiada por outros accionistas dos dois lados.
O advogado Rogério Alves, que representou a Teixeira Duarte na assembleia geral do BCP, afirmou, já depois de concluídos os trabalhos do encontro, que irá realizar-se nova reunião magna de accionistas ainda antes do final do ano, para escolher um novo modelo de governação para o banco.
O bastonário da Ordem dos Advogados acrescentou que a Assembleia de segunda-feira foi o primeiro passo para a pacificação interna do BCP e acrescentou que a retirada dos pontos da ordem de trabalhos foi um sinal de boa vontade dos accionistas para se conseguir a concertação e o consenso na instituição.
Mais uma vez, Paulo Teixeira Pinto pode ter, agora, a palavra. Ele pode dar a solução aos accionistas que não se entenderam até agora.

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