2019/09/21

Os negócios de uma guerra anunciada

A guerra anunciada no Iraque e a emergente crise nuclear da Coreia do Norte criaram um autêntico puzzle sistémico para a administração Bush. Aparentemente seriam duas questões tratadas autonomamente, inseridas nas suas conjunturas regionais e políticas. Até certo ponto este raciocínio é válido, no entanto, existem outros factores a ter em conta na abordagem.

A questão iraquiana, nomeadamente o problema do regime pária de Saddam Hussein, apresenta-se num processo final, que certamente acabará na confrontação bélica, prevista para os próximos meses. Aqui, convém desmistificar a ideia avançada por alguns analistas de que o ataque estará fortemente condicionado pelas questões climatéricas do Golfo, premunindo-se uma acção militar para fins de Janeiro, princípios de Fevereiro.

Há umas semanas o SEMANÁRIO avançava, citando fontes militares americanas ao “The Los Angeles Times”, que o problema das altas temperaturas constituía um vector de ponderação, mas que a guerra poderia ser desencadeada a qualquer altura do ano, mesmo com elevadas marcas nos termómetros.
De qualquer maneira, americanos e ingleses continuam a enviar para a região fortes contingentes, acelerando a mobilização de tropas. No passado fim-de-semano, o secretário da Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, autorizou o deslocamento de mais 62 mil homens.

Ainda esta semana foram enviados 600 soldados americanos para Israel, para fortalecer as defesa israelitas face a um eventual ataque iraquiano.
Prevê-se que no próximo mês estejam no golfo cerca de 150 mil tropas anglo-americanas. Também o Reino Unido já accionou sua máquina de guerra tendo enviado esta semana para o Golfo Pérsico o porta-aviões HMS Ark Royak, naquela que é a maior mobilização naval britânica desde a guerra das Falklands, em 1982.

A intervenção militar no Iraque desenha-se de dia para dia, e apesar da presença dos inspectores da UNMOVIC no terreno, aplicando a resolução 1441, vislumbra-se cada vez mais a certeza de que “com ou sem ONU, o ataque ao Iraque será inevitável (SEMANÁRIO, 13 de Setembro, de 2002)”. Ou seja, o trabalho a ser desenvolvido por aquele conjunto de técnicos, que terminará prematuramente, na opinião destes, no próximo dia 27, de pouco ou nada servirá para a estratégia da Casa Branca.

Ainda na quarta-feira os Estados Unidos voltaram a afirmar que se fosse necessário avançariam unilateralmente, sem uma segunda resolução do Conselho de Segurança, mesmo que os inspectores não aparecessem com material passível de comprometer Saddam na violação da resolução 1441.

O Presidente George W. Bush tem certamente o seu plano desenvolvido e muito provavelmente alcançará uma dimensão mais vasta, do que aquela perspectiva redutora cujo os objectivos norte-americanos assentam no controlo do petróleo ou na erradicação de um regime desestabilizador da segurança internacional. Na verdade, estas duas questões podem ser facilmente dissecadas, se se tiver em conta movimentações tácticas na diplomacia e política externa norte-americana nos últimos tempos.

Caso a intervenção militar venha ser uma realidade no Iraque, muito dificilmente as empresas norte-americanas tomarão conta do petróleo iraquiano. Este será deixado aos europeus, nomeadamente aos franceses e aos russos – os países que mais interesses têm concretizados naquele país. Além do mais, os Estados Unidos apenas pretendem obter uma estabilidade no fornecimento de petróleo e não propriamente o controlo daquele recurso na região do Golfo.

Neste capítulo, as grandes companhias petrolíferas dos Estados Unidos estão a virar-se para a África Ocidental, nomeadamente Angola, e para a zona do Cáucaso, com o Qazaquistão na mira, e claro está a própria Rússia. A acrescentar a tudo isto existem as vastas reservas norte-americanas, assim como o potencial Alasca.

Quanto à segunda questão, relacionada com a segurança internacional, a administração Bush está ciente de que Bagdad não representará o fim, mas sim o princípio de uma acção mais ampla que poderá muito bem visar o desconcertante regime da Casa de Saud, no qual o príncipe regente, Abdullah, conotado como um anti-americano, tem alimentado clivagens na longa e frutuosa relação entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos.

E é talvez nesta lógica que um comentário publicado esta semana no “The Los Angeles Times” referia que os Estados Unidos não deveriam virar as costas ao seu “fiel amigo”. O problema é que um dos pontos de origem do financiamento do terrorismo internacional provém dos milionários sauditas, uma conexão de difícil concretização no caso iraquiano.

Remover Saddam e negociar com a China

A revista “BusinessWeek” afirmava veementemente na semana passada que a Coreia do Norte representava uma ameaça à segurança internacional, no entanto, a estratégia adoptada pelos Estados Unidos face ao regime de Kim Jong Il não tem sido coerente com esta evidência. Se, por um lado, Bush tem-se mostrado implacável perante Saddam Hussein, por outro, tem demonstrado uma atitude bastante flexível com Pyongyang.

Segundo algumas análises, esta postura é explicada por uma estratégia que visa o desenvolvimento norte-americano de uma política externa a longo prazo, que terá inevitavelmente de passar pela China, potência influente no teatro asiático, no qual a Coreia do Norte está a criar problemas. Assim, Washington poderá estar a considerar resolver o problema da Coreia do Norte em Pequim.

Mas com a hipótese de exílio do líder iraquiano em cima da mesa, a Casa Branca poderia ter algo mais a tratar com Pequim. De acordo com algumas teorias da conspiração, Saddam Hussein poderia escolher aquele vasto país como o seu novo santuário para encetar o seu projecto de terrorismo internacional. Obviamente que esta lógica faz apenas sentido, quando se enquadra a China numa perspectiva ofensiva perante o ocidente.

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