2020/11/30

Carmona desautoriza Marques Mendes e não renuncia à CML

As sondagens dão o PS no limiar da maioria absoluta em Lisboa, o que pode aconselhar o partido a escolher um candidato de “luxo”, apostar no voto útil e rejeitar coligações à esquerda. António Costa ou Ferro Rodrigues são vistos como nomes possíveis, permitindo a Sócrates dar compensações políticas à ala esquerda do PS e gerir equílibrios no interior do partido. Entretanto, no PSD o momento é de grande agitação, à procura de um candidato disponível para uma missão quase impossível. Fernando Seara é uma das hipóteses e talvez o candidato preferido Marques Mendes. Ontem, Carmona Rodrigues fez críticas severas à oposição de esquerda mas, sobretudo, ao próprio PSD, queixando-se de falta de apoio e não renunciou, para já ao mandato. Carmona fica à espera da posição dos outros vereadores do PSD. Entretanto, Marques Mendes evitou comentar a atitude de Carmona mas reafirmou a necessidade de eleições.

Quando menos se esperava aconteceu. O presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, foi esta semana constituído arguido no processo BragaParques, tendo ontem de manhã sido ouvido no DIAP pela procuradora Maria José Morgado durante cinco horas. À noite, numa conferência de imprensa à hora dos telejornais, Carmona fez declarrações bombásticas, tecendo críticas à oposição de esquerda mas, sobretudo, ao próprio PSD, queixando-se de falta de apoio e não renunciou, para já ao mandato. Carmona fica à espera da posição dos outros vereadores do PSD. Não escondendo a sua mágoa, Carmona começou por dizer que tem “consciência das limitacões enquanto homem não politico, não descartando “o facto de ter cometido erros, políticos e de comunicação”. Numa alusão à oposição de esquerda, o ainda presidente da Câmara de Lisboa referiu ter “tido uma oposição persecutória, liderada por pessoas e instituições”. Sobre o PSD, Carmona referiu que não sentiu “em muitas ocasiões o apoio de sectores do PSD” e defendeu que se devem realizar eleições para todos órgãos da CML, Câmara e Assembleia Municipal, ao contrário do que parece ser a posição oficial do PSD. Carmona enfatizou ainda, a sua qualidade de independente, dizendo que “o sistema partidário portuguê parece não estar preparado para aceitar independentes, corpos estranhos”. A rematar, Carmona teve a atitude inesperada, passando por cima de Marques Mendes, de não renunciar imediatamente ao mandato, referindo “se todos saírem, eu saio”, uma tomada de posição que foi vista em sectores do PSD como a de um homem em desespero de causa, ferido na sua honra, aliás como o próprio afirmou. Muito notada foi uma parte da intervenção de Carmona em que, reclamando a sua inocência no caso BragaParques, reenviou a descoberta da verdade para o julgamento, o que faz pressupor que Carmona poderá ser acusado brevemente. Entretanto, Sá Fernandes, em reacção às declarações de Carmona considerou que estamos perante uma “falha democrática”. Já Gaioso Ribeiro referiu que “já basta”.
Na quarta-feira, depois de reunir com Carmona, Marques Mendes deu uma conferência de imprensa, à hora dos telejornais, em que considerou não haver condições políticas para a vereação social-democrata continuar a dirigir Lisboa e defendeu a realização imediata de eleições intercalares para a capital nos próximos dois meses. Refira-se que, nos termos da lei em vigor, a realização de intercalares não prejudica nova consulta no calendário previsto, que é o final do ano de 2009, então para os dois órgãos, Assembleia Municipal e Câmara Municipal. Durante esta semana ainda foi muito falada a hipótese de Marina Ferreira, a terceira vereadora da lista do PSD, ascender à presidência. Para a estratégia social-democrata tudo era preferível a eleições mas o perigo do descrédito e da ingovernabilidade da Câmara fizeram Marques Mendes e Paula Teixeira da Cruz irem por outro caminho. Na sua intervenção, não se percebeu se Marques Mendes também aceitava fazer eleições para a Assembleia Municipal e não só para a Câmara, mas ainda na quarta-feira essa questão tornou-se crucial, levantada por toda a esquerda. O facto de o PSD e a direita serem maioritários na Assembleia Municipal, faz com que a vereação que for eleita nas próximas eleições, se não for afecta à maioria instalada, resultado das eleições de 2005, possa contar com alguns problemas para fazer passar as suas medidas, designadamente a proposta de Orçamento. Já esta quinta-feira, tanto Azevedo Soares como Paula Teixeira da Cruz responderam à esquerda, considerando que não faz sentido existirem eleições para a Assembleia Municipal. A vice-presidente do PSD declarou que a esquerda estava a cometer uma “confusão institucional”, que existiam “legitimidades democráticas distintas nos dois órgãos”. Os social-democratas sustentam ainda que a Assembleia Municipal tem funcionado bastante bem e que a sua dissolução equivaleria à perda de mandato de todos os presidentes das juntas de freguesia, considerando que isso um encargo pesado para quem tem desempenhado o seu trabalho com total normalidade. Por detrás desta tomada de posição do PSD pode estar, para além de não facilitar a vida ao PS, a estratégia de fazer ver aos lisboetas que é preciso um presidente da Câmara para uma maioria já eleita em 2005, havendo a preocupação de reclamar que o PSD termine um mandato que, por vissicitudes várias teve de interromper.

Capucho coloca-se na linha de partida

No entanto, esta linha de defesa de eleições só na Câmara sofreu ontem as primeiras brechas. Para além de Carmona, o presidente da Câmara de Cascais, António Capucho, colou-se ao PS e defendeu também a realização de eleições para a Assembleia Municipal. Capucho sustenta a sua posição em “questões éticas e de elementar coerência política”, lembrando que “é público que o PSD defende uma alteração à Lei Eleitoral das Autarquias (que coincide com a posição do PS), no sentido de se eliminar a eleição separada da Câmara Municipal e da Assembleia”. A posição de Capucho pode não ser totalmente inocente. Em primeiro, lugar, há quem considere no PSD que Capucho, mesmo perante uma conjuntura difícil, como a actual, poderia estar disponível para ser candidato por Lisboa. Por outro lado, sectores do PSD referem que a posição de Capucho também pode não ser alheia à vontade do ex-ministro do Bloco Central em candidatar-se à presidência da distrital de Lisboa do PSD, disputando o lugar a Paula Teixeira da Cruz. Recorde-se que o actual nº 2 de Capucho em Cascais, o social-democrata Carreiras, foi o grande opositor de Paula Teixeira da Cruz nas últimas eleições na distrital.
A hipótese Capucho não é alheia ao momento agitado que se vive no PSD, com o partido apanhado em mó de baixo com Carmona. As sondagens publicadas esta semana dão os social-democratas com 23 por cento, a vinte pontos do PS, que aparece no limiar da maioria absoluta. Desde que se percebeu que Carmona ia cair, as conversas e movimentações não pararam. Teixeira da Cruz, vice-presidente do PSD, que muitos vaticinam como futura líder e candidata a primeira-ministra, seria, em condições normais, a candidata natural do PSD a Lisboa. Há quem considere que ela era capaz de ganhar em 2009, numa conjuntura política mais favorável ao PSD. No entanto, agora, o “timing” não parece o ideal. E caso perdesse as intercalares, poderia hipotecar o seu futuro político. Não é por acaso que alguns sectores, próximos do PS, têm “puxado” pela sua candidatura a Lisboa.

Super Seara

Neste quadro ingrato para o PSD, outros nomes têm surgido. A hipótese de Fernando Seara sair de Sintra para enfrentar Lisboa, foi muito comentada nos últimos dois dias. Fernando Seara é uma figura prestigiada, muito mediática, com um perfil de técnico competente, muito activo, com muitas ideias. Não foi por acaso que Seara venceu a dupla de luxo João Soares/Jorge Coelho nas últimas autárquicas, havendo quem diga que ele é um desperdício em Sintra. Além do mais, o benfiquismo de Seara, semanalmente reavivado na SIC-Notícias, poderia fazer dele um candidato gerador de simpatias. O seu casamento com Judite de Sousa, figura prestigiada da comunicação social, também não deixaria de ser um trunfo de imagem. Fernando Seara pode, de facto, não ser apenas um mero candidato de recurso mas, efectivamente, ser o melhor candidato, colhendo as preferências de Marques Mendes e Paula Teixeira da Cruz. A semana laranja agitada deu lugar, ainda, a outros cenários, equacionados em sectores social-democratas. A hipótese de Santana Lopes estar disposto a ser candidato, colocando Mendes sem saber o que dizer, foi um deles. Recorde-se que em 2005 Santana manifestou vontade de ser recandidato à presidência da capital mas Mendes não o permitiu. Outro cenário que foi esta semana colocado na mesa foi a hipótese de ser o próprio Marques Mendes a candidatar-se a Lisboa. Porém, uma hipótese pouco provável. Nos últimos dias, Marques Mendes declarou, com ênfase, que quer ganhar as legislativas de 2009, vontade incompatível com uma candidatura a Lisboa. Se ganhasse a capital, Mendes tinha de dedicar-se à sua gestão, se perdesse tinha, provavelmente, de se demitir da liderança do PSD.

Ferro faz caminho de Sampaio:
primeiro Lisboa e depois Belém

Os socialistas, apesar de confiantes na vitória, não querem servir de bobos da festa do PSD nestas eleições intercalares. Mesmo que os social-democratas enfrentassem o ónus de deixar Lisboa uma vez mais ingoverbável, caso minasssem a acção da vereação do PS a partir da Assembleia Municipal, ninguém sabe mesmo o futuro, principalmente em política. A possibilidade de o mandato intercalar correr mal ao PS não pode, assim, ser excluída, o que poderia fazer com que os socialistas voltassem a ficar com a capital em 2009. Ainda por cima, as autárquicas de 2009 deverão realizar-se depois das legislativas. Ora, pressupondo que Sócrates volta a ganhar as eleições, tal pode revelar-se, em termos de contrapesos políticos, favorável ao PSD. Este conjunto de incógnitas faz com que quem decida (ou quem receba luz verde) no PS para avançar para as intercalares, também tenha alguns riscos. Nesta óptica, os pesos pesados António Costa e Ferro Rodrigues, candidatos possíveis do PS, que fazem parte de uma sondagem de avaliação pedida pelos socialistas nos últimos dias, podem pensar duas vezes antes de avançar. Sobretudo em relação a António Costa a missão parece mais arriscada. Para ser candidato, Costa tinha de abandonar o governo, o que é um encargo pesado para o próprio e mesmo para Sócrares que, ao perder Freitas do Amaral, ficou só com o peso-pesado Costa ao seu lado. Caso perdesse as intercalares, Costa podia hipotecar a carreira política, o que seria um preço muito alto para quem é considerado, em muitos sectores socialistas, como o homem melhor colocado para suceder a Sócrates. Desde já, é público que Costa e Sócrates fizeram um pacto geracional para não guerrearem pelo poder, como fizeram Guterres, Gama e Sampaio. Já Ferro Rodrigues tem muito menos a perder. O hoje embaixador de Portugal na OCDE poderia ter em Lisboa uma excelente de oportunidade de regresso político, com muitas cartas para dar, ultrapassando o trauma da sua demissão, após Jorge Sampaio dar posse a Santana Lopes. Também Sócrates não deixaria, certamente, de ver na solução Ferro um bom golpe político mas tem um gesto para corrigir injustiças. Recorde-se que Sócrates pertenceu ao Secretariado de Ferro, sendo o único guterrista a fazê-lo. Uma vitória de Ferro em Lisboa poderia, ainda, abrir as portas de Belém ao ex-líder socialista, seguindo, ironicamente, o mesmo percurso político de Jorge Sampaio. Recorde-se que Ferro Rodrigues chegou a dar sinais numa entrevista, quando era líder do PS, de que poderia estar disponível para ser candidato presidencial nas eleições de 2006. Este cenário de Ferro Rodrigues como presidente da Câmara de Lisboa e potencial candidato a Belém, permitiria ainda que Ferro “protegesse” agora António Costa e não colidisse, no futuro, com as ambições políticas do hoje ministro da Administração Interna em suceder a Sócrates no governo. Para além dos nomes de Costa e Ferro Rodrigues, Maria de Belém também aparece como uma das figuras possíveis para concorrer à capital. Com a escolha de qualquer destes nomes, oriundos da ala esquerda do PS José Sócrates pode aproveitar as eleições em Lisboa para gerir equílibrios no interior do PS, dando compensações políticas à ala mais à esquerda do PS. Depois de Pina Moura ter ido para presidente da Media Capital, os poderes parecem necessitar de ser ajustados no PS. As eleições em Lisboa poderiam ser a oportunidade. Se esta linha em relação à ala esquerda do PS vingar, António José Seguro, o nome preferido pelo líder da concelhia socialista de Lisboa, Miguel Coelho, para se candidatar a Lisboa parece ter poucas hipóteses de ser o escolhido. Há dois meses, quando Gabriela Seara foi constituída arguida e se colocou a hipótese de eleições, Seguro deu sinais de estar disponível para o lugar, atitude que foi imediatamente coberta politicamente por sectores próximos de António Costa, dando também sinais de ele estar disponível para a corrida. Costa e Seguro têm uma rivalidade histórica e ambos têm ambições de liderar o PS, vendo na CML o trampolim para essas funções.

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