2020/11/30

Um dia contra a guerra

O SEMANÁRIO acompanhou um dia de manifestações contra a guerra. Do largo de Camões à praça do Rossio, várias foram as opiniões e críticas feitas à administração Bush e ao alinhamento português com os interesses de Washington.

Quinze e trinta de sábado, dia 15, e o Largo Camões estava repleto de pacifistas para se manifestarem contra uma eventual intervenção bélica no Iraque, numa iniciativa que, apesar de integrada no Dia Europeu contra a Guerra, contagiou todo o mundo.

Fátima Messias da Comissão Organizadora mostrava-se, por razões óbvias, satisfeita com a adesão ao protesto. “A última concentração em Novembro não teve tanto sucesso em termos de entidades promotoras e de manifestantes: desta vez mais de cem organizações e cerca de 80 mil pessoas aderiram à iniciativa”, dizia ao SEMANÁRIO.

A plataforma à qual Messias pertence tem-se insurgido contra a posição belicista da administração Bush, alegando que a motivação desta é o negócio do petróleo. Num tom crítico, Fátima Messias não escondia o descontentamento perante o alinhamento do primeiro-ministro, Durão Barroso e de outros sete líderes europeus à vontade do Governo norte-americano.

Segundo ela, a esmagadora afluência ao protesto enfatiza a convicção de que “juntos podemos impedir a guerra” (slogan da manifestação). “A democracia pressupõe a consideração pela opinião pública” e, portanto, na opinião da activista, o primeiro-ministro deveria ter consultado o povo português antes de ter formalizado o seu apoio incondicional aos EUA .

Para além das várias organizações não governamentais presentes na manifestação, também algumas formações partidárias fizeram questão de estar presentes. O Partido Comunista, o Bloco de Esquerda e o Os Verdes estiveram em força nos protestos. A Juventude Socialista também aderiu apesar das reticências de Ferro Rodrigues.

A meio da tarde, os caminhantes pela Paz chegavam à Praça do Rossio encabeçados por Mário Soares, Manuel Alegre, Jamila Madeira (líder da JS), Carvalho da Silva (secretário geral da CGTP Intersindical), Maria de Lurdes Pintassilgo, Carlos Carvalhas e Francisco Louçã. Os dirigentes do PC e BE faltavam, assim, à reunião convocada para essa tarde pelo primeiro-ministro (Ferro Rodrigues foi o único líder partidário da oposição a comparecer à chamada).

Entretanto, no palco instalado no centro da Praça, discursavam cinco oradores: Domingos Lopes (vice-presidente do Conselho Português para a Paz e a Cooperação, principal organismo a promover a manifestação), José Barata Moura (director da Universidade de Lisboa), Maria de Lurdes Pintassilgo (em representação das organizações e movimentos religiosos), Carvalho da Silva e Mário Soares.

Havia consenso relativamente à ideia de que nada justificava a guerra e de que a administração Bush se movia de acordo com interesses económicos. Mário Soares afirmava que o ímpeto belicista americano tinha “um cheiro iniludível a petróleo” e que a noção de guerra preventiva subvertia o próprio direito internacional, em que assentam as resoluções das Nações Unidas.

Durão Barroso é alvo de duras críticas. Carvalho da Silva repudia o seguidismo do chefe de Governo (e de outros líderes como Blair, Aznar e Berlusconi), afirmando que a sua “atitude irresponsável” prejudicará Portugal na eventualidade da consumação da guerra no Médio Oriente. “Do ponto de vista económico somos dos países que sairão mais penalizados”, avisava.

Mário Soares corrobora este presságio invocando o facto de sermos uma das economias mais pobres da União Europeia e que a existência de um conflito ainda nos fragiliza mais. Segundo o antigo estadista, o Governo português deveria estar mais atento à presidência brasileira e, à semelhança, de Lula da Silva concentrar-se nas questões internas como é o caso do desemprego. Para Soares, a amplitude das manifestações revelou um “fenómeno de cidadania global”. A opinião pública internacional não deseja uma guerra e “os governantes deveriam saber que, em democracia, é o povo quem mais ordena.”

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