2019/12/13

As hesitações de Menezes e as dificuldades de Mendes

A Comissão Política Nacional do PSD vai propor que a eleição directa do líder ocorra a 5 de Maio, de modo a conhecer-se o eleito no dia seguinte, data do 32.º aniversário do principal partido da oposição. O Congresso para debater as moções de estratégia e eleger os restantes órgãos nacionais decorrerá entre 19 e 21 de Maio. Marques Mendes é, por enquanto, o único candidato. Luís Filipe Menezes anunciou um período de reflexão, mas convocou para depois de amanhã, domingo, um jantar com apoiantes seus. Certamente para lhes dizer que “vai a jogo”.

À hora de encerramento desta edição, um dos mais próximos colaboradores de Luís Filipe Menezes disse-nos que, naquele momento, “as probabilidades de avançar ou de desistir da corrida à liderança do PSD era de 50% para cada lado”, o que permite ao jornalista uma margem suficiente para arriscar dizer que é muito difícil para o autarca de Gaia não ser candidato às directas do PSD, para mais sendo o culminar de um processo pelo qual ele se bateu ferozmente no Congresso de Pombal. Se desistir de concorrer, Luís Filipe Menezes deixa de ter espaço de manobra na vida interna do PSD. Se concorrer e se for derrotado, poderá sempre intervir e reaparecer como candidato em outras eleições para a liderança do partido. Por outro lado, um jantar à sua volta para comunicar uma desistência seria sempre algo politicamente inconsistente.
É certo que são ponderáveis e justificadas as suas hesitações, em relação a duas situações concretas: por um lado, saber se são compatíveis, do ponto de vista prático e funcionais, as funções de líder do PSD e de presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia. Alguns argumentam, para afastar essa hesitação, o que aconteceu com Jorge Sampaio, que foi, em simultâneo, presidente da Câmara de Lisboa e líder do PS. “Só que Lisboa não é Gaia…” – dizem os menezistas e não deixa de ser verdade. Também parece a Menezes pouco curial que, tendo sido eleito para novo mandato autárquico há poucos meses, a ele renuncie em favor da liderança do PSD.
Acresce – e é outro facto político insofismável – que Luís Filipe Menezes não é deputado à Assembleia da República, nem o Grupo Parlamentar tem uma composição em cuja escolha tenha participado previamente. Sabe-se, aliás, que Menezes entende que os deputados do PSD, na actual legislatura, não são uma mais-valia política, no seu conjunto, para o partido e que as excepções não são suficientemente relevantes. Com este juízo, fora de Lisboa e fora do Parlamento governar o PSD, no caso de ser eleito, “é uma missão quase impossível” no dizer da fonte já citada.
O SEMANÁRIO sabe também que há questões logísticas a que Menezes atribui relevância. Por um lado, o escasso tempo disponível para fazer campanha junto dos militantes pelo País inteiro. Por outro, os meios disponíveis. E nesse sentido, por enquanto formula as seguintes questões: o partido coloca “todos” os candidatos em pé de igualdade? Financia as suas deslocações, proporciona-lhes meios, como automóveis, aluguer de salas e tudo o que for considerado necessário? Reserva-lhes um espaço na sede nacional e nas distritais? Proporciona-lhes o acesso a todos os meios de informação que sejam solicitados, nomeadamente ao ficheiro central de militantes?
A tudo o que fica dito, sobreleva, naturalmente, a questão política de fundo, em analogia com célebre frase “ser ou não ser – eis a questão”, formulada do seguinte modo: “Ir ou não ir, ser ou não ser candidato – eis a questão”. E a resposta é da responsabilidade exclusiva de Luís Filipe Menezes. Tomar posição antes do Conselho Nacional desta noite, na sede do PSD, em Lisboa (“que vai ser pacífico”, no dizer de um dos seus membros, apoiantes de Menezes), não parece curial. Domingo à noite o saberemos, mas, insiste-se, a margem é muito reduzida e as consequências de uma eventual desistência seriam mais nefastas do que uma candidatura perdedora contra Marques Mendes. (Sendo certo que, à partida e de acordo com previsões e análises, o actual líder parte com vantagem, quase com o tapete vermelho estendido…)

A composição do colégio eleitoral

“Num universo eleitoral de 130 mil militantes inscritos no PSD, neste momento apenas 40 mil têm capacidade eleitoral, pouco mais de 30%, mas os restantes ainda dispõem do tempo suficiente para pôr as quotas em dia e estar em condições de votar.” Esta informação recolhida de uma fonte administrativa do PSD, confirmada por outros sectores mais políticos, é um dos motivos que pode impulsionar a candidatura de Luís Filipe Menezes. “Este congresso dos estatutos provou duas coisas: o Dr Marques Mendes não empolga ninguém e o prof. Vítor Borges demonstrou que nunca existiu, a não ser como mito fabricado pela comunicação social” – opinião da ala menezista, que acredita que, no plano dos votos, se houver tempo de mobilização dos militantes, o autarca de Gaia “tem hipóteses de eleição”. A sua contabilidade passa por julgarem ser possível ter maioria com os votos das distritais do Porto, Braga, Lisboa, Aveiro e Faro e alcançar as preferências maioritárias da JSD. Neste tempo pré-eleitoral, a questão do ficheiro central dos militantes parece ser um dado crucial. “É que, se por azar do Dr. Marques Mendes ele for o único candidato, corre o risco de ser eleito por uma percentagem ínfima de votos, o que será muito desprestigiante para o PSD e para si próprio” – acrescentou a mesma fonte.
Do lado da actual direcção política do PSD, existe “uma grande tranquilidade e serenidade”, no dizer de um dos membros da actual Comissão Política. Concordam que “o pior que podia acontecer é que não houvesse mais candidatos à liderança, mas confiamos que isso não acontecerá”.
Os dois lados mais em evidência – Mendes e Menezes – convergem neste ponto: se Menezes são estivesse disponível para se candidatar, teria tido uma posição inflexível nas negociações entre os subscritores das moções de alteração aos estatutos, o que poderia ter inviabilizado a passagem das directas.
Algumas questões práticas da vida do partido e da influência dos dirigentes distritais ficou resolvida com a consagração estatutária de reuniões, “pelo menos de dois em dois meses”, entre o líder do partido e todos os representantes dessas estruturas. Tal disposição já liberta o líder do partido de se preocupar com a representação geográfica da comissão política, quando escolher os seus colaboradores. “Na comissão política o que é importante são os vice-presidentes, os outros membros existem mas são dispensáveis, porque de um modo geral não acumulam mais-valias” – opinião de um antigo membro do Governo com experiência na matéria… Esta fonte disse que Marques Mendes “arrumou a casa e a ele cabe ter capacidade interna para cativar a um tempo as elites, protagonizadas nas novas gerações, com inegável qualidade e poder de comunicação e gente com valia política e suficientemente conhecida para que as suas opiniões tenham peso na sociedade. Depois do Congresso, o novo líder deve ter a capacidade para marcar a agenda política e fazer a marcação cerrada e implacável ao primeiro-ministro”. Tarefa bem difícil nos tempos que correm, mas sem a qual, o PSD tem limitadas hipóteses de crescer politicamente como o exigem todos os militantes.
Após o Conselho Nacional de hoje, há um curto espaço de tempo para se perceber, o que é que vai acontecer até ao termo da apresentação formal de candidaturas. Tendo em conta a realidade objectiva, a opinião dos observadores, internos e externos ao PSD, haverá, certamente, dois candidatos fortes e talvez um ou mais “espontâneos”. E depois a palavra é dos militantes…

Falta o resto, talvez em Maio…

Depois de tantos burburinhos, acções de bastidores, acusações plenas de intencionalidade e destinadas a derrubar Marques Mendes, ou, no mínimo, a pôr em causa a sua liderança, eis que ele emerge como o único vencedor do Congresso Estatutário. Não por força das circunstâncias, mas pela enorme paciência que teve em aturar todos os críticos e pelo modo e forma como teceu uma estratégia vitoriosa, no sentido de obter o essencial em causa em detrimento do acessório. Foi magnânimo e aberto às negociações no tempo certo. Por mais vitória que reclamem os seus críticos internos, a começar por Luís Filipe Menezes ou Rui Gomes da Silva, quem ganhou o Congresso do PSD foi Marques Mendes. Não é ainda o seu baptismo de fogo, nem foi este Congresso que o transforma em herói mítico ou em estadista consagrado. Foram apenas dados pequenos passos.
Uma digressão desapaixonada pelo que aconteceu no Congresso permite detectar alguns sinais importantes para o futuro e que devem também ser objecto de reflexão por parte da actual liderança. Uma coisa são as opiniões publicadas, por mais força que tenham os seus autores – e alguns têm, casos de Marcelo Rebelo de Sousa e de Pacheco Pereira – outra é o pulsar do “povo laranja”. Bem diferente, na medida em que os social-democratas têm um sentido de unidade, na diversidade que se mostra nas mais diversas ocasiões.
A postura de Marques Mendes confere-lhe credibilidade, mas não o isenta de praticar a unidade do partido mesmo em relação a quem se lhe opõe internamente. Por isso, mais do que a representação distrital (ou geográfica) da Comissão Política Nacional, com a consagração artificial de lugares de poder e influência internos, é preciso chamar à direcção do partido dirigentes com qualidade política e técnica nos mais diversos domínios. A equipa dirigente do PSD tem que ser reconhecida como tendo mérito, capacidade de análise e de mobilização e integração na sociedade, para programar não só o dia-a-dia de um partido de oposição, mas trabalhar nas plataformas alternativas que cativem o eleitorado, quando chegar a hora de fazer o balanço e votar para novas legislativas. O PSD precisa de alcançar um sentido de sobrevivência e de resistência a um ciclo temporal, onde cabe a possibilidade real de ficar afastado do poder por duas ou três legislaturas. O professor Cavaco Silva não é seguro de vida de ninguém, e muito menos da direita portuguesa ou do PSD (que não é um partido geneticamente de direita, ao contrário do que alguns pretendem fazer crer). Marques Mendes já percebeu isso, mas ainda não foi capaz de ter o golpe de asa que o torne indiscutível à frente do PSD. Escasseia-lhe aquilo que os politólogos chamam carisma, sem que haja unanimidade no conteúdo substantivo dessa palavra. Até agora, Marques Mendes susteve o que era mais importante, tem condições para passar a prova de fogo das eleições directas. Tudo isso – e é já bastante – não faz dele, insiste-se, nem um líder carismático, nem um estadista respeitado. Para ambas as coisas ainda tem um longo caminho a percorrer. Marques Mendes chegou ao topo da hierarquia partidária, porque dos dirigentes de segunda linha é o que tem mais méritos e o que desejou o lugar. De certa forma, o vazio político registado pelos analistas é fruto da abstenção de todos os dirigentes do PSD, com prestígio firmado, que não quiseram chegar-se à frente; Marcelo Rebelo de Sousa, Manuela Ferreira Leite, Mota Amaral, António Capucho, Dias Loureiro e António Borges, para citar alguns nomes sonantes.
O SEMANÁRIO foi o primeiro jornal a referir que a eleição directa do líder devia ocorrer na data do aniversário do PSD, a 6 de Maio. Pudemos ter acesso a alguma informação privilegiada e o resto foi dedução. A partir da marcação do Congresso Extraordinário, por causa dos estatutos, caminhar depressa seria sempre o objectivo, fosse quem fosse o vencedor. Paulo Portas, no seu estilo seráfico e com a sua palavra venenosa (mas são tão chatos os seus programas na SIC…), veio dizer que Sócrates deve estar a sorrir com as quezílias internas do CDS e do PSD. É extemporâneo dizer isso. O PSD está a fazer, agora que está na oposição, o mesmo que fez o PS, quando os social-democratas eram poder. E não foi por isso que os socialistas, reorganizados, conquistaram o poder algum tempo depois. Não é isso que vai acontecer com o PSD, porque os socialistas têm maioria absoluta, governam sozinhos e é mais difícil (embora não impossível, a implosão acontece muitas vezes quando menos se espera) que soçobrem antes do termo da legislatura. Mas a reorganização interna era necessária. Está em curso até ao final do primeiro semestre, sem que tal signifique um “brinde” do principal partido da oposição a Sócrates.
Na eleição directa do líder, seria bom que Marques Mendes tivesse concorrentes e que um deles, pelo menos, fosse forte em termos políticos. Quero dizer com isto que, ao longo deste ano, mal contado, Marques Mendes ganhou a afectividade dos militantes, mesmo quando estes presenciaram os ataques, alguns injustos, ao modo como lidera o partido. Depois de ganhar as directas, como certamente acontecerá, o tempo seguinte será ocupar-se do País, ter uma equipa credível, dispor de linhas de apoio sólidas e procurar marcar o ritmo da agenda política, de modo coerente e eficaz.
Do Congresso estatutário ficaram o vazio do discurso político de António Borges e a marcação de terreno que fez Nuno Morais Sarmento. A partir deste congresso Morais Sarmento posicionou-se como futura alternativa, como uma reserva do PSD, fazendo-o com um discurso consistente, demonstrativo de uma linha própria de pensamento político. Com a possibilidade real, que não exclui, de poder dar a sua contribuição para a solidez política do principal partido de oposição. Está encontrado o líder da sensibilidade laranja que foi protagonizada por Durão Barroso, na sua pureza original (isto é, antes da sua aliança controversa com Santana Lopes…). Sarmento ainda não passou para a primeira linha dos grandes dirigentes do PSD, mas passa a ser agora uma figura incontornável. Espera-se que o novo líder a eleger em Maio não cometa o erro de ostracizar Morais Sarmento. A prazo isso poder-lhe-ia ser fatal.
António Borges deixou (definitivamente?!…) de ser D. Sebastião do PSD. É alguém que tem conhecimentos económicos e capacidade política consistentes, mas falta-lhe poder de comunicação e, porventura mais grave, vontade de assumir a liderança neste tempo de vacas magras. E isso, na altura própria, os militantes não lhe vão perdoar. É também uma personagem sem carisma e tudo o que à sua volta tem sido dito, parece, hoje, artificial. É que, mesmo quando regressar ao PSD, a excitação pela proximidade real do poder, haverá sempre muitos interessados… António Borges foi alguém que apareceu para mostrar que existe, mas tem sido incapaz de assumir um protagonismo irresistível no que diz respeito à sedução pelo exercício do poder. A vontade de ocupar tais funções de poder, no partido ou no Governo, são condições essenciais que mobilizam individualmente todos e cada um dos dirigentes políticos. O seu discurso tem sido demasiado insonso. Aproveitem-se as capacidades que o homem tem em beneficio do partido, mas não se alimentem, em torno dele, sonhos de poder. Com o que tem feito, seria uma enorme surpresa vê-lo dentro de alguns anos a liderar um Governo.
São tempos enfadonhos os que se seguem, porque não há eleições à vista. Mas é o tempo da reflexão e da mudança. Quem não perceber isto, está condenado a ter uma vida subalterna, deixando que outros consolidem posições…
Os caminhos da política são neste momento insondáveis e os últimos seis, sete anos, têm sido férteis em surpresas. Basta lembrar que Mário Soares, nos dez anos em Belém, coabitou apenas com um primeiro-ministro, ainda que, mesmo na fase derradeira, tivesse a alegria de empossar um governo PS. Quando se pensava que, aos governos de Cavaco Silva, se seguiria um outro período de estabilidade política, com executivos socialistas, a situação teve a reviravolta que permitiu a Durão Barroso cumprir a sua profecia de ser chefe do Governo. E logo a seguir, foi o descalabro que se viu – Barroso, presidente da Comissão Europeia e Santana Lopes, o mais desastrado e dos mais efémeros chefes de Governo, depois do 25 de Abril.
Trazem-se estes factos à colação, porque parece útil tê-los em conta, no momento em que a magistratura presidencial do novo inquilino de Belém ainda carece de dados de análise concreta, a sua coabitação com o Chefe do Governo é uma incógnita e a própria situação interna no partido que sustenta o Governo é também um mistério (ou um barril de pólvora?…). Por isso, no tempo certo, o PSD faz as suas alterações internas. Não foi, por isso, um congresso inútil. Mas falta o resto… Talvez depois de Maio, se a nova direcção política tiver a arte e o engenho de saber conquistar o País. Tarefa, aliás, bem difícil, nos tempos que correm. Pedro Cid

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