2020/10/20

Todos querem censurar o Google Earth

Nada mais confortável que viajar pelo mundo sem sair da frente do computador. É esse o serviço que o Google Earth oferece: palmilhar o planeta através de imagens de satélite com pormenor suficiente para ver o automóvel que estacionou à frente de casa. Mas, se para a maior parte das pessoas esta é uma ferramenta lúdica e inofensiva, para muitos políticos e militares o Google Earth tem de ser encerrado. Sustentam que esta é uma poderosa arma nas mãos dos terroristas que passam a conhecer a localização exacta de bases militares, centrais nucleares e residências oficiais de estadistas. Esta é uma matéria que abrirá um precedente, quer se decida pela censura, quer pela legitimidade da defesa interna.

O Google Earth é um programa de acesso gratuito que permite a visualização de imagens de satélite de todo o planeta. Consiste num software que é descarregado gratuitamente para o computador pessoal. Usa-
-se para “sobrevoar” cidades, ruas, florestas e montanhas de todo o mundo. Basta digitar um endereço, ou a latitude e longitude de um qualquer lugar e a imagem correspondente aparece. Depois dos protestos dos utilizadores, as imagens mais polémicas de certos locais sensíveis da capital americana, como o domicílio do Presidente Bush ou o Capitólio foram substituídas por outras, não censuradas. Com excepção do Observatório Naval dos Estados Unidos da América, residência oficial do vice-presidente Dick Cheney, que continua fortemente pixelizada. De onde vem, então, a censura? Provavelmente os Serviços Secretos dos EUA já trataram de proteger a segurança das personalidades oficiais norte-americanas.
O mais célebre dos motores de busca não acusa o toque. Responde dizendo que usa apenas imagens que já tinham sido disponibilizadas e publicadas por outras. De facto, uma parte das imagens de alta resolução de Washington provém, por exemplo, de um serviço geológico americano (US Geological Survey, uma agência científica federal). O programa WorldWind, equivalente ao GoogleEarth, publicado um ano antes pela NASA, permite igualmente constatar que as últimas imagens captadas em 2002 estão censuradas, enquanto as de 1998 não estão. Poder-se-á pensar que esta alteração é reflexo do desejo crescente de segurança interna norte-americana pós–11 de Setembro. Mas isso não explica por que razão o telhado e a piscina da Casa Branca foram disfarçadas grosseiramente enquanto que o Pentágono, a escassos quilómetros de distância, é visível em alta resolução e exibe claramente a reconstrução feita na ala oeste, depois dos ataques de 11 de Setembro.
Os EUA não são os únicos a esconder os seus locais mais sensíveis. Índia, Coreia do Sul, Austrália e Tailândia já vieram a público mostram a sua indignação perante o que consideram ser uma violação da sua intimidade territorial. Os potenciais alvos mais citados são os edifícios oficiais, as instalações militares e os locais industriais como as centrais nucleares. Por enquanto só um país dispõe de privilégios no âmbito da lei americana: a resolução máxima das imagens comerciais de Israel não podem ultrapassar os dois metros por pixel.
De facto, os diferentes países não são tratados da mesma forma: no Google Earth somente os EUA dispõem de uma cobertura quase total com boa resolução. Nos restantes países, a cobertura por satélite é de qualidade média.
Quantos aos riscos do Google Earth, uma sociedade francesa, a Fleximage, citada por uma revista, diz que censurar a imagens não é a solução: “Essa censura só terá uma consequência: atrair ainda mais os olhares dos curiosos.”

Ataques terroristas na mira

Estas imagens que o Google Earth disponibiliza oferecem ao internauta uma viagem pelo mundo sem sair da frente do ecrã do computador. É, assim, possível dar uma espreitadela a um campo de batalha e acabar o trajecto junto às pirâmides do Egipto ou no Taj Mahal. Mas não é o aspecto lúdico que está a incomodar meio mundo. As críticas concentram-se na disponibilização de locais sensíveis, como são as bases militares americanas no Iraque, os campos de prisioneiros de Guantanamo ou as centrais nucleares. Motivos mais que suficientes para vários países terem solicitado ao Google a suspensão do serviço, que apesar de não ser o único é o mais visitado.

A Coreia do Sul já enviou um comunicado a Bush em que fala do perigo que o Google Earth encerra, argumentando que as imagens mostram a localização exacta do palácio presidencial e de outras localizações estratégicas do país. Antes, foi a Austrália que se indignou com a existência de imagens do seu único reactor atómico “HIFAR”, usado para produzir matéria destinada à área médica. A Holanda não se ficou por pedidos e exigiu mesmo o encerramento do Google Earth.
Os militares americanos, na mesma linha de ideias, também manifestaram o seu incómodo face ao serviço. O capitão Josué Thompson, comandante de uma base aérea próxima de Bagdad, declarou à NBC que “as imagens do Google expõem a base ao ataque dos rebeldes iraquianos”.
Por enquanto a internet ainda consegue fugir às leis que regem o mundo físico. A questão que se coloca é até quando.

Veja também Google TV e outro equipamento informático.

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