Os abusos sexuais podem ser inventados?

Freud chegou à conclusão que as experiências sexuais precoces podiam ser imaginadas mais do que realmente vividas e experimentadas. Como articular esta posição com a perspectiva actual de que o abuso sexual infantil é muito mais comum do que se pensava no tempo de Freud, bem como com as denúncias constantes de abuso sexual infantil? Coimbra de Matos, Carlos Amaral Dias, Celeste Malpique, Eurico Figueiredo, Eduardo Sá, Jaime Milheiro, João Seabra Diniz e Rui Coelho deram as suas opiniões ao nosso jornal.


Coimbra de Matos: “O abuso sexual infantil tinha menos visibilidade social. Há, actualmente, um exagero de “denúncias” – é um fenómeno de rebound: a acusação precipitada alimenta a caça às bruxas. Só nos falta um “Ministério de Combate aos Vícios e Exaltação das Virtudes”.

Carlos Amaral Dias: “O que Freud afirmou não é incompatível com a verificação contemporânea de que o abuso sexual infantil é frequente. Porém, a grande maioria dos pacientes que nos procuram para psicanálise, provêm mais dos que “viveram” imaginariamente o que nós designamos por sexualidade infantil do que qualquer experiência proveniente do real.
Quanto ao resto, as fantasias sexuais inconscientes nunca fizeram primeira página dos jornais nem ontem, nem hoje, nem provavelmente amanhã.”

Eduardo Sá: “Se me permite chamar-lhe a atenção, as famílias hoje são, incomparavelmente, mais cuidadosas para com as crianças. No final do século XIX era banal que as crianças (quando não tomavam contacto regular com a sexualidade dos adultos) fossem, precocemente, iniciadas na sexualidade através de episódios de assédio, de abuso e de violação. No século XIX o abuso era, incomparavelmente, mais banal do que no século XXI! Quando Freud reparou nas “cicatrizes” irreparáveis que essas experiências precoces desencadeavam, chamou a atenção para o modo como a sexualização precoce era maligna. E escorregou na sua leitura, quando perspectivou a sexualidade como um eixo de todo o desenvolvimento infantil. Os danos do abuso sexual eram, naquela altura como hoje, tomados como terríveis e malignos. As construções em redor da sexualidade só seriam possíveis, com Freud como hoje, quando as crianças eram, de alguma forma, expostas à sexualidade dos adultos. As crianças nunca fantasiam em torno da sexualidade se nunca forem expostas à sexualidade. Portanto, imaginar, compulsivamente, em torno da sexualidade já supõe um presumível maltrato sexual. Em resumo, construções compulsivas acerca da sexualidade e os abusos sexuais serão dois degraus diferentes de um mesmo continuum que faz com que as crianças adoeçam com a ajuda de maus-tratos seuxais.”

Rui Coelho: “Não sei se necessariamente o abuso sexual é mais comum do que se pensava, o que há e, felizmente, é uma crescente consciência desta problemática, discutida nultifactorialmente de modo a que o cidadão tenha uma apercepção que anteriormente não tinha, fosse por desconhecimento, omissão ou, até, hipocrisia e/ou cinismo. Há, assim, fundamentalmente um maior cuidado e vigilância pelos Direitos da Criança, mas se calhar ainda é preciso fazer mais, pois está-se, potencialmente, a promover uma melhor prevenção na Saúde Mental.”

Jaime Milheiro: “Os processos de construção e de funcionamento da realidade interna em nada contrariam o que hoje se observa.”
“O trabalho fundamental de Freud foi sobre a realidade interna, que será sempre uma organização pessoal e característica de cada um, distinta da realidade externa que é a todos comum. Foi da descoberta dos processos de construção e de funcionamento dessa realidade interna que ele retirou as conclusões que refere, as quais em nada contrariam o que hoje se observa. Trata-se de leituras diferentes, em planos diferentes.”

Eurico Figueiredo: “Tanto o problema do abuso sexual precoce como das fantasias sexuais precoces são, como diria o Marques de la Palisse, possíveis.”
“Os problemas que coloca, o problema do abuso sexual precoce e das fantasias sexuais precoces, são, como diria o Marques de la Palisse, os dois possíveis. O quadro psicanalítico, em si, não é suficiente para em cada caso podermos saber qual é a verdade!”

Celeste Malpique: “A psicanálise é a procura da verdade sobre si-mesmo e não se avança sem algum sofrimento.”
“É o que acontece a qualquer analisando que, inicia a análise com desejo de colaborar para se aliviar dos sintomas que o atormentam e que ,ao longo do processo se debate entre o desejo de se conhecer e a resistência que inconscientemente oferece ao seu autoconhecimento, pois terá de se confrontar com angústias e aspectos que a si próprio ocultava…A psicanálise é a procura da verdade sobre si-mesmo e não se avança sem algum sofrimento.”

João Seabra Diniz: “Os processos psíquicos são também reais, porque são algo realmente vivido pela pessoa e, portanto, são para ela reais”
“A pergunta levanta uma questão fundamental da história da teoria psicanalítica e um ponto de teoria que é impossível esclarecer devidamente aqui. Trata-se do papel da fantasia, da elaboração imaginativa que se faz, ou não faz, das experiências que se vão vivendo, e que pode ter uma dimensão distante da consciência clara. Freud pensou inicialmente que as narrativas que ouvia dos seus pacientes correspondiam a factos realmente acontecidos. Sobre isso baseou uma primeira formulação da sua teoria das neuroses.
Com o andar do tempo, foi descobrindo que a construção imaginativa feita sob o impulso de forças mais ou menos inconscientes e a partir de experiências relacionais, poderia também produzir sintomas, como se se tratasse de factos realmente acontecidos. Lembro-me de um artigo publicado já há bastantes anos no International Journal of Psychoanalysis, que no seu título desusado procurava afirmar a mesma ideia: “A fantasia realiza aquilo que representa”. Quando pensamos em realidade referimo-nos, em princípio à realidade física. No entanto, os processos psíquicos são também reais, porque são algo realmente vivido pela pessoa e, portanto, são para ela reais.
Mas atenção. Freud nunca disse que não existia o abuso sexual das crianças. Disse que os sintomas poderiam ser produzidos pela dinâmica da fantasia, sem que os factos acontecidos correspondessem exactamente ao que era imaginado e à interpretação que se lhes dava.
Penso que sempre se soube que o abuso sexual de crianças não era um acontecimento raro. O que acontece é que actualmente se está mais atento a esses factos, ao passo que anteriormente haveria a tendência a minimizar a sua gravidade. Mais despertos para este problema, temos que reconhecer que, muitas vezes, estamos ainda à procura da melhor maneira de actuar para proteger devidamente a criança, salvaguardando os seus interesses, no imediato e no futuro.”|

A revolução sexual de Freud

Sigmund Freud efectuou uma verdadeira ruptura na sexualidade, ao romper com a sua base exclusivamente biológica, anatómica e genital para fazer dela a essência psíquica da actividade humana, criando também uma teoria totalmente inovadora sobre sexualidade infantil. Os textos de Freud sobre a matéria têm mais de cem anos mas a sua marca de modernidade faz com que pareçam escritos no presente. O SEMANÁRIO publica extractos dos seus ensaios sobre a teoria da sexualidade, editados pela Publicações Europa-América.
“Um aspecto da visão popular da pulsão sexual é que ela está ausente na infância e só desperta no período de vida a que se dá o nome de puberdade. No entanto, isto não é só um simples erro, como também tem tido graves consequências, porque é principalmente a essa ideia que devemos a nossa ignorância quanto às condições fundamentais da vida sexual. Um estudo aprofundado das manifestações da infância revelar-nos-ia provavelmente as características essenciais da pulsão sexual e mostrar-nos-ia o curso do seu desenvolvimento e o modo como é composta a partir de verias fontes.
É visível que os autores que se ocupam a explicar as características e reacções dos adultos dedicam muito mais atenção ao período arcaico compreendido pela vida dos antepassados do indivíduo – isto é – reconhecem muito mais influência à hereditariedade – que a outro período arcaico, que está compreendido no tempo de vida do próprio indivíduo – isto é, a sua infância. Seria de supor que a influência deste último período seria mais fácil de compreender e que deveria ser considerado antes da infância da hereditariedade. É certo que na literatura a respeito desta matéria encontramos ocasionalmente comentários sobre a actividade sexual precoce em crianças pequenas – sobre erecções, masturbação e até actividades que se assemelham ao coito. Mas são sempre citadas apenas como acontecimentos excepcionais, como raridades, ou como exemplos horríveis de uma depravação precoce. Que eu saiba, nem um único autor reconheceu a existência regular de uma pulsão sexual na infância; e a razão para essa estranha omissão deve procurar-se, penso eu, em parte nas convenções sociais, que os autores respeitam devido à maneira como eles próprios foram educados, e em parte num fenómeno psicológico que até hoje ninguém conseguiu também explicar. O que tenho em mente é aquela amnésia peculiar que, no caso da maioria das pessoas, mas de modo algum em todas, lhes esconde o princípio da sua infância, até aos seus 6 ou 8 anos. Até agora, não nos ocorreu sentir qualquer espanto perante essa amnésia, embora pudéssemos ter tido boas razões para fazê-lo. Porque sabemos por outras pessoas que, durante esses anos, dos quais mais tarde nada retemos na memória além de algumas recordações ininteligíveis e fragmentárias, reagimos com vivacidade a impressões, que éramos capazes de exprimir dor e alegria de um modo humano, que dávamos provas de sentir amor, ciúme e outros sentimentos apaixonados que na altura nos emocionavam profundamente, e até fazíamos comentários considerados pelos adultos como excelentes provas de possuirmos um bom discernimento e os começos de uma capacidade de julgamento. E, de tudo isto, depois de adultos, não temos o mínimo conhecimento próprio! Por que razão se deixa ultrapassar a esse ponto pelas outras actividades da nossa mente? Temos, pelo contrário, boas razões para crer que em nenhum outro período a capacidade para receber e reproduzir impressões é maior que precisamente nos anos da infância.
Por outro lado, devemos presumir, ou devemos convencer-nos pelo exame psicológico de outras pessoas, que essas mesmas impressões que esquecemos deixaram no entanto as mais profundas marcas na nossa mente e tiveram um efeito determinante sobre todo o nosso desenvolvimento. Não pode pois haver nenhuma real abolição das impressões da infância, mas antes uma amnésia semelhante à que os neuróticos exibem para com acontecimentos posteriores, e cuja essência consiste simplesmente em manter essas impressões fora da consciência, isto é, em recalcá-las. Mas quais são as forças que provocam esse recalcamento das impressões da infância? A pessoa que conseguir resolver este enigma terá também explicado, penso, a amnésia histérica.
Entretanto não podemos deixar de observar que a existência de uma amnésia infantil nos fornece mais um ponto de comparação entre os estados psíquicos das crianças e os dos psiconeuróticos. Já encontrámos um outro ponto na teoria a que chegámos no sentido de a sexualidade dos psiconeuréticos ter permanecido, ou sido levada de volta, a uma fase infantil. Poderá ser que, afinal de contas, também a amnésia infantil possa estar em relação com os impulsos sexuais da infância?
Além disso, a conexão entre a amnésia infantil e histeria é mais que um simples jogo de palavras. A amnésia, que ocorre devido ao recalcamento, só é explicável pelo facto de o sujeito já estar de posse de um reservatório de traços de memória que foram retirados do uso consciente e que agora, por elo associativo, atraem para si o material que as forças do recalcamento pretendem repelir da consciência. Pode dizer-se que, sem amnésia infantil, não haveria amnésia histérica.
Estou convencido de que a amnésia infantil, que transforma a infância de todos nós em algo de semelhante a uma época pré-histórica e que lhe esconde o começo da sua própria vida sexual, é responsável pelo facto de, regra geral, não se dar importância à infância no desenvolvimento da vida sexual. As lacunas que assim surgiram no nosso conhecimento não podem ser preenchidas por um único observador. Já em 1896 insisti no significado dos anos da infância para a origem de certos fenómenos importantes ligados à vida sexual, e desde então ainda não parei de sublinhar o papel de desempenhado pelo factor infantil na sexualidade.”|

Aliança Santana-Menezes trava avanço de cavaquistas

Nas últimas semanas, Santana Lopes e Luís Filipe Menezes tiveram algumas divergências, o que foi aproveitado pelos cavaquistas para intervirem. Porém, esta semana, os dois homens fizeram declarações recíprocas de admiração e fidelidade, o que pode ter travado, para já, novas investidas dos adversários. Entretanto, caso o líder do PSD aceite a realização de directas antecipadas, antes das eleições legislativas de 2009, o SEMANÁRIO sabe que Ferreira Leite é o nome desejado pelos cavaquistas.

Nas últimas semanas, Santana Lopes e Luís Filipe Menezes tiveram algumas divergências, o que foi logo aproveitado pelos cavaquistas e barrosistas para intervirem. Porém, esta semana, ambos fizeram declarações recíprocas de admiração e fidelidade, o que pode ter travado, para já, novas investidas dos adversários desta direcção do PSD. Estas movimentações dos dois homens, fazendo prever um caminho e depois revelando-se outro, muito diferente, estão a deixar desconcertados, sabe o nosso jornal, muitos opositores de Menezes.
No fim-de-semana, em entrevista à TSF, Santana Lopes referiu que Menezes “tem sido irrepreensível” e que tem uma “relação exemplar” com o líder social-democrata.
Esta terça-feira, na SIC-Notícias, Luís Filipe Menezes correspondeu a esta declaração, de um modo semelhante, até com os mesmos termos. O líder laranja considerou que Santana “tem sido de uma lealdade irrepreensível, cumprindo “escrupulosamente” as decisões da direcção do partido, acrescentando que o líder parlamentar laranja “tem a minha confiança, a minha solidariedade, o meu respeito e o meu apoio. Tinha, tem e terá”. Saber se os dois homens têm sabido resistir a todas as pressões para se tornarem desavindos, conseguindo manter a unidade, ou se tudo não passa de uma encenação política de ambos, visando, precisamente, condicionar a accão política dos adversários, é a grande questão que se coloca. Levar os adversários a cometerem erros de avaliação, pode ser a principal motivação de Menezes e Santana. Refira-se que, nas últimas semanas, assistiu-se a um quase ambiente insurrecional no PSD, daqueles onde o partido tem sido fértil nos últimos anos e que parecem prenunciar movimentações com vista à mudança. Manuela Ferreira Leite multiplicou-se em declarações políticas, Paula Teixeira da Cruz criou o seu clube de reflexão, António Borges reapareceu mais uma vez, Nuno Morais Sarmento acordou da sua hibernação política, já esta semana, para criticar a proposta de Menezes de acabar com a publicidade na RTP 1 caso venha a ser primeiro-ministro. A possibilidade de existirem novas eleições directas no PSD, ainda antes das eleições legislativas de 2009, tornou-se o grande tema de discussão em vários sectores da oposição a Menezes, tendo como base o facto de, já com quatro meses de liderança, o actual líder laranja não ter revelado um programa e uma estratégia coerente para fazer uma oposição eficaz a José Sócrates. Nuno Morais Sarmento referiu, por exemplo, que Menezes não tem correspondido, sequer, como líder da oposição, quanto mais como candidato a primeiro-ministro. Recorde-se que este género de critícas foi o pão nosso de cada dia no tempo de Marques Mendes, inclusivé vindas de Menezes.
No caso de directas antecipadas, a importância de uma campanha junto das bases parece ser crucial. Foi, aliás, este um dos principais segredos da vitória de Menezes. Tendo presente esta realidade, alguns sectores menezistas não se têm cansado de acusar muitos dos críticos do actual líder de não representarem ninguém no partido, a não ser a si próprios, dando, assim, a entender, que teriam poucos votos caso fossem a directas. Porém, a perspectiva dos critícos é pouco sensível a este ataque. Entre os cavaquistas e os barrosistas há a noção de que as lógicas aparelhísticas podem de nada valer se, efectivamete, os militantes social-democratas perceberem que há uma real e forte hipótese de um nome credível e com uma política e estratégia coerente conduzir o PSD de regresso ao poder já nas legislativas de 2009, desfazendo uma meta com que Sócrates já conta. A verificar-se uma luta nestes termos, seria o confronto entre o apelo basista de Menezes e a jogada da cartada do poder, funcionando com uma das naturezas mais fortes do PSD, partido com vocação mais de governo do que de oposição.

Ferreira Leite podia ganhar a Sócrates


Caso o líder do PSD aceite a realização de directas antecipadas, antes das eleições legislativas de 2009 o SEMANÁRIO sabe que Ferreira Leite é o nome desejado pelos cavaquistas. De forma a que se diminuam os riscos e que a estratégia dê certo. Precisamente, combatendo áquela que pode ser a armadilha tecida por Santana e Menezes, levando os adversários a jogo quando já têm montado no terreno, nas distritais e concelhias, através das bases profundas, a cama em que se vão deitar. É aqui que surge o nome de Manuela Ferreira Leite. A ex-ministra das Finanças de Durão Barroso escreveu na semana passada, no “Expresso”, um pequeno artigo com grande fôlego político, começando por dizer que “governar não é um trabalho técnico que se esgota na produção legislativa e não transpõe as paredes do Conselho de Ministro”, numa alusão ao autismo do primeiro-ministro e às criticas de que é alvo de desfazamento da realidade do país, e terminando a dizer que de pouco vale a Sócrates remodelar o governo, diminuindo tensões, quando é o próprio primeiro-ministro que está na origem do problema. Os cavaquistas parecem estar convencidos que nenhum dos nomes que mais se têm agitado nos últimos meses para enfrentarem Menezes, casos de António Borges, Paula Teixeira da Cruz, Aguiar Branco ou mesmo Rui Rio, garante um sucesso fiável. Ferreira Leite tem a grande vantagem de ter mantido pontes com o menezismo e o santanismo, quer no Congresso pós-directas, quer em declarações equidistantes que fez, sempre com a preocupação do interesse do partido, quer, ainda recentemente, através da sua participação central nas últimas Jornadas Parlamentares do partido. Este estatuto de independência de Ferreira Leite poderia ter efeitos paralisantes na estratégia de Santana e Menezes. Por outro lado, segundo os cavaquistas, a ex-ministra teria fortes hipóteses de levar a melhor sobre Sócrates nas legislativas de 2009. Resta saber se Ferreira Leite está disponível para corresponder aos anseios dos opositores de Menezes e Santana.|

A última cartada de Clinton

Na semana que antecedeu o decisivo ciclo de eleições primárias para definir o candidato democrata à Casa Branca, Hillary Clinton e Barack Obama aguçaram
argumentos num aguerrido debate televisivo, em que ambos os candidatos criticaram mutuamente as suas propostas, nomeadamente na área da saúde. Vitórias nos estados do Ohio e Texas são essenciais para Clinton ganhar novo fôlego, contrariando desta maneira as 11 vitórias seguidas de Obama.

Numa altura em que Obama e Clinton ultimam estratégias para atacar a vitória no Ohio e Texas, aumentam o tom nas acusações às suas propostas. Num debate televisivo na Universidade de Cleveland, os dois pré-candidatos à Casa Branca foram bastante duros nas suas acusações, especialmente na área da saúde, ponto crucial da campanha e tópico com especial relevância para os norte-americanos, que se queixam dos mais de 47 milhões de cidadãos norte-americanos sem seguro de saúde.
“Deveríamos fazer um debate baseado em informação rigorosa e não em informação falsa, enganadora e desacreditada, em especial em algo tão importante”, referiu a senadora de Nova Iorque.
Na resposta, Obama lembrou que Hillary se tem referido às propostas que ele fez de forma errada, enganando os eleitores. “A senadora Clinton tem-nos feito constantemente ataques negativos, através de e-mail, panfletos, anúncios e não nos queixamos porque percebemos que essa é a natureza destas campanhas.”
Hillary conta com um apoio de 50% da população no Ohio, contra 43% a favor de Obama. Já no Texas, as intenções de voto encontram-se muito mais próximas: 48% para Hillary contra 47% para Obama, segundo uma sondagem divulgada pelos jornais “The Washington Post” e ABC. No mesmo dia, Vermont e Rhode Island também votarão suas primárias.
Confrontada sobre uma possível retirada caso perca nestes estados, Hillary responde categoricamente que “isso não irá acontecer”, preferindo realçar o empenho colocado nos debates e nas campanhas junto dos norte-americanos.
Segundo alguns analistas, a ex-primeira dama acredita que vencerá nos dois principais estados que participarão nas próximas primárias, mesmo após as 11 derrotas consecutivas sofridas frente ao senador de Illinois. Obama ganhou em todos os estados que foram a votos desde a “superterça” de 5 de Fevereiro, quando 21 estados realizaram as suas votações primárias.
A pensar na proximidade à comunidade latina, os dois candidatos devem ainda ter um novo debate antes da próxima terça-feira. Os latinos são uma comunidade especialmente densa no Texas e estão até agora mais próximos de Clinton, já que Obama representa a comunidade negra, tradicional rival dos hispânicos no mercado de trabalho norte-americano.

Obama já debate com McCain

Mas não só contra Hillary Clinton é que Obama tem debatido ideias. Actual líder nas pesquisas para próximo inquilino na Casa Branca, o senador pelo Illinois abordou o conflito no Iraque, levando o mais que possível candidato republicano John McCain a retomar o debate sobre aquele cenário de guerra.
O impopular conflito é um dos principais temas da campanha. Os democratas defendem uma rápida retirada das tropas, o que, segundo McCain, seria uma forma de rendição e representaria uma vitória para os extremistas islâmicos.
“Tenho algumas notícias”, disse McCain. “A Al Qaeda está no Iraque. Chama-se Al Qaeda no Iraque. Meus amigos, se sairmos, eles não vão estabelecer uma base, vão tomar um país, e não vou permitir que isso aconteça.”
Mas a posição de McCain foi de certa forma afectada por um depoimento na quarta-feira do director dos Serviços Secretos dos EUA, Michael McConnell, ao Senado. McConnell disse que a Al Qaeda sofreu duros reveses no ano passado no Iraque e teve centenas de membros mortos ou capturados, embora ainda seja “capaz de realizar ataques letais”.|

Santana Lopes admite que sem cedência socialista “será difícil” um …

Lei eleitoral autárquica em debate

Os líderes parlamentares do PS, Alberto Martins, e do PSD, Pedro Santana Lopes, reuniram-se na quarta-feira para falar da revisão da lei eleitoral autárquica mas os dois partidos optaram pelo silêncio a seguir ao encontro.
Porém, o SEMANÁRIO sabe que o PSD quer fazer duas alterações ao projecto de lei eleitoral autárquica que aprovou em conjunto com o PS, considerando que “será difícil” manter o acordo com os socialistas se as duas propostas não forem aceites, anunciou hoje o líder parlamentar social-democrata, Santana Lopes.
O PSD quer que os presidentes de junta possam votar os planos e orçamentos municipais e corrigir o número de membros da oposição presentes nos executivos camarários. “Nestes dois pontos queremos uma correcção. Achamos que não é pedir muito”, afirmou Santana Lopes, que falava aos jornalistas no final da reunião semanal da bancada parlamentar do PSD.
Questionado se o seu partido faz depender o acordo com o PS para revisão da lei eleitoral autárquica dessas duas alterações, Santana Lopes admitiu que “será difícil ser de outra maneira”.
No passado domingo, o líder do PSD, Luís Filipe Menezes, garantiu que “não haverá acordo” caso a nova lei autárquica retire aos presidentes de junta o direito de votar na assembleia municipal o orçamento camarário e as grandes opções do plano. Uma total inversão da posição da actual direcção do PSD, que assumiu o acordo feito no tempo de Marques Mendes, negociado pela bancada com o PS e cuja formulação foi aprovada em conselho nacional.
Em declarações aos jornais na última segunda-feira, Santana Lopes admitia ter sido apanhado de “surpresa” pelas declarações de Menezes, com quem diz ainda não ter falado sobre o assunto. Salientando “não querer fazer comentários” antes dessa conversa, Santana Lopes admite que lutará para que a reforma se concretize. “A minha obrigação é encontrar uma solução para garantir uma reforma assumida há anos e que continuo a considerar importante”, frisou o líder da bancada laranja. “Se a reforma da lei autárquica for por água abaixo, perdem-se alterações importantes, nomeadamente o facto de o presidente da câmara poder escolher os seus vereadores”, acrescentou.
Recorde-se que o PS e PSD apresentaram um projecto conjunto de revisão da lei eleitoral das autarquias em Dezembro, que aprovaram na generalidade em Janeiro, com os votos contra dos restantes partidos.|