2026/04/09

Guerra no Iraque impõe “mapa da paz” para a Palestina

Por momentos George W. Bush e Tony Blair focaram as atenções para o conflito israelo-palestiano. O Presidente americano, imediatamente apoiado pelo primeiro-ministro britânico, prometeu apresentar, em breve, o “mapa da paz” aos israelitas e aos palestinianos. No entanto, alguns comentadores políticos interpretam este acto como uma estratégia de apaziguamento da revolta árabe e europeia perante um conflito no Iraque, duvidando do empenho e da vontade da administração Bush de implementar e levar a bom porto a discussão em torno do “mapa da paz”.

Com a guerra do Iraque no horizonte, George W. Bush voltou, há precisamente uma semana, a falar do processo negocial israelo-palestiniano. Desta vez salientou a importância do “mapa da paz” para se alcançar uma solução pacífica para aquela região que, segundo os intentos de Washington poderão culminar com a criação de um Estado palestiniano “viável e independente”, em 2005.

As palavras de Bush foram subscritas minutos depois pelo primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que, numa estratégia concertada, salientou a premência do relançamento do processo de paz no Médio Oriente e informou que o Presidente americano lhe teria dito que o “mapa da paz” seria publicado assim que o recém nomeado, primeiro-ministro palestiniano, Mahmoud Abbas, tomasse posse – facto que deverá acontecer daqui a três semanas.

Apesar das “boas” intenções anglo-americanas, a verdade é que as suas posições sobre o conflito israelo-palestiniano não podem ser interpretadas numa perspectiva restringida à situação degradante dos territórios autónomos e do próprio Estado de Israel. Na verdade, mais do que uma tomada de posição sobre esta questão, Bush e Blair marcaram uma estratégia, visando um eventual apaziguamento do mundo árabe, num mais que provável conflito no Iraque.

As duas questões não podem, obviamente, ser dissociadas até porque a questão palestiniana e a sua relação com Israel são, desde a criação do Estado judaico, o móbil da unidade árabe, ou pelo menos, o fio condutor de todo o mundo árabe. A causa palestiniana é talvez a única bandeira pela qual os líderes árabes falam a uma só voz, mas que, mesmo assim, ao longo dos anos não têm conseguido adoptar no terreno uma posição coesa e coerente, especialmente ao nível da liga Árabe.

Assim sendo, o plano de Bush para a Palestina poderá representar um instrumento da política externa norte-americana para lidar com os árabes e europeus em caso de guerra no Iraque, relegando o conflito israelo-palestiniano para um facto secundário, mas eficientemente instrumentalizado nas mãos da administração Bush. Por isso, não será de estranhar que ainda esta semana Brian Whitaker escrevia no “The Guardian” que “Ariel Sharon pode permanecer confiante de que nada mudou”.

Whitaker refere ainda que a abordagem de Bush e de Blair nesta questão foi ligeiramente diferente. De acordo com a interpretação do colunista do jornal britânico, Bush deverá entregar o plano aos israelitas e palestinianos para a sua discussão. Ou seja, não tendo referido a palavra “divulgação” pública, dificilmente a administração Bush estará, pelo menos para já, empenhada numa implementação do referido “mapa da paz”, que deverá estar muito próximo da sua fórmula final.

Nesta lógica, alguns comentadores políticos acreditam que a promessa de Bush, em apresentar o “mapa da paz”, foi uma esquema para tentar desarmar a revolta árabe e europeia sobre a questão iraquiana.
Relembre-se que o “mapa da paz” foi fruto dos esforços do “Quarteto” ( Estados Unidos, União Europeia, Rússia e Nações Unidas) e que tem sido constantemente alvo de discussão.

Apesar dos apelos à paz no Médio Oriente, a Casa Branca e Downing Street encetaram uma política que peca pela falta de coerência, quando confrontada com a problemática iraquiana. Mais uma vez, as palavras de Bush acabam por revelar-se insípidas e inócuas, se se tiver em conta que a administração norte-americana não terá o mesmo empenho em pressionar Israel e os palestiniano em eventuais negociações sobre o mapa da paz.

Sabe-se também que o Governo hebraico irá ditar as suas exigências quanto à aprovação do “mapa da paz”, num processo que sem a persuasão dos Estados Unidos, poderá durar eternamente.

Mesmo com as reformas da Autoridade Palestiniana em curso, Israel – pelo menos com o Executivo de Ariel Sharon, claramente marcado por “falcões” – nunca estará satisfeito quanto ao grau reformador da cúpula de poder palestiniana. Entretanto, o processo poderá arrastar-se indefinidamente e ficar ofuscado pela conjuntura internacional de crise durante meses ou anos, como aliás se verificou durante a campanha do Afeganistão e, agora, com a guerra do Iraque.

O resultado poderá comprometer os esforços de criação de um Estado palestiniano daqui a dois anos.
Para Whitaker, a posição assumida pelo primeiro-ministro britânico face ao “mapa da paz” foi uma “charada”, tendo sido apenas um meio para sensibilizar a opinião pública inglesa, por modo, a contrabalançar a oposição que tem manifestado sobre a questão do Iraque.

Uma estratégia que o chefe do Governo espanhol, José Maria Aznar, parece estar a seguir na opinião do especialista em assuntos diplomáticos do jornal israelita “Ha’aretz”, Aluf Benn. “Quanto mais a opinião pública nos seus países se opõe à guerra, mais Blair e Aznar se agarram à questão palestiniana como um salva vidas político…Eles têm que provar aos seus cidadãos na Europa que se preocupam em pôr fim à ocupação israelita nos territórios ocupados, para ganharem legitimidade na ocupação do Iraque”, escreveu Benn.


Primeiro-ministro palestiniano deverá
tomar posse daqui a três semanas

O Conselho Legislativo Palestiniano (PLC) aprovou, na terça-feira, a criação do cargo de primeiro-ministro, uma das exigências feitas pela administração Bush e pelo Governo israelita, enquadrada no processo de reformas políticas em curso no seio da Autoridade Palestiniana (AP), delineadas pelo “Quarteto”.

Naquilo que é já considerado como uma vitória para a democracia palestiniana, o Presidente, Yasser Arafat, viu-se obrigado a abdicar muitos dos seus poderes para o novo chefe de Governo.

Com os privilégios legislativos definidos, Mahmoud Abbas, o homem nomeada para ocupar o recém criado cargo, terá sensivelmente três semanas para formar Governo. Com esta medida, o domínio absoluto de Arafat na vida política palestiniana que se tem feito sentir nos últimos anos parece ter chegado ao fim, após um período de vários meses de contestação interna crescente, vinda, por vezes, do seio do seu próprio partido, a Fatah.

De acordo com o vice-presidente do PLC e legislador da Fatah, Ibrahim Abu Naja, Arafat “decidiu abdicar da sua exigência para participar na formação do Governo”. No entanto, Naja salientou que os deputados prometeram a Arafat informarem-no da composição do novo Executivo, antes deste ser apresentado ao PLC para ser objecto de aprovação. O membro da Fatah fez novamente questão de reiterar a impossibilidade de Arafat implementar as suas vontades e exigências ao novo Governo.

Mahmoud Abbas, tido como um homem moderado, terá agora que reunir uma equipa que consiga enfrentar os enormes desafios que se avizinham. Nas áreas mais críticas, o combate à corrupção surge como o maior problema para Abbas, juntamente com as questões de segurança, nomeadamente, com o controlo das facções extremistas. No novo primeiro-ministro são depositadas as esperanças do reatamento do processo de paz.

Neste contexto, Washington acolheu positivamente a criação do novo cargo político, tendo uma alta fonte do Departamento de Estado norte-americano revelado que os requisitos que a administração Bush definiu para a criação da figura de primeiro-ministro foram cumpridos. Antes, o secretário de Estado, Colin Powell, considerou esta medida um “passo positivo”, mas adiantou que os Estados Unidos gostariam de ter visto mais poderes atribuídos a Mahmoud Abbas.

Saddam vivo e tropas americanas avançam

Depois de uma nova onda de bombardeamentos à capital iraquiana, Saddam foi dado como ferido, o que foi desmentido pelo Governo. No terreno, as tropas da coligação continuam a avançar, ainda que com alguma resistência e já com perda de vidas.

Depois da casa familiar de Saddam Hussein ter sido atingida num dos bombardeamentos cirúrgicos a Bagdad, o estado de saúde do Presidente iraquiano é desconhecido, tendo sido, inclusivamente, avançado que teria sido ferido e até perdido a vida.

Para provar o contrário, o Governo iraquiano deu, esta manhã, uma conferência de imprensa em que foi dito que Saddam está bem e mostrada uma gravação alegadamente de um conselho de ministros realizada hoje. A CIA diz que a análise à gravação revela que a voz é mesmo de Saddam, mas que a data em foi feita não é clara.

Também Tony Blair decidiu quebrar o silêncio quanto ao início do conflito. Em Bruxelas, após o conselho europeu, o primeiro-ministro britânico reiterou a sua determinação em destituir Saddam Hussein do poder e confirmou a queda de um helicóptero britânico e a subsequente perda da vida de oito homens. O Iraque afirma ter feito cair um caça norte-americano, mas o Pentágono nega a alegação, confirmando, no entanto, a morte de um soldado em combate, mas sem adiantar pormenores.

Entretanto, a partir do Kuwait, veículos blindados norte-americanos estão a caminho de Bagdad. Na frente sul, os marines encontraram resistência inesperada ao tentarem tomar o controlo de uma cidade portuária. Também perto de Nassiria, uma importante passagem do rio Eufrates, os americanos depararam-se com uma bolsa de resistência que lhes deteve a marcha. No Qatar, as tropas da coligação estão a ter dificuldades em avançar devido à fortíssima tempestade de areia que se faz sentir.

Em Washington, o Presidente George W. Bush reúne-se hoje com os líderes do congresso para informá-los sobre as primeiras 36 horas do conflito no Iraque.
No mundo árabe, as reacções à acção militar contra o regime de Saddam Hussein dão conta de uma enorme revolta. Num dia que é santo, as orações evocam a paz, mas os apelos dos líderes religiosos em muitos locais dirigem-se para a vingança contra os americanos. No Cairo, uma das grandes cidades árabes, os cidadãos demonstram a sua oposição à guerra pelo segundo dia, manifestando-se em massa nas ruas – uma iniciativa marcada também marcada para outras capitais árabes.

Solbes diz Guerra justifica incumprimento dos défices orçamentais

A guerra no Iraque é um risco «excepcional» para a economia e pode justificar uma interrupção temporária nas restrições do Pacto de Estabilidade e Crescimento, que limita os países da Zona Euro a ter um défice orçamental abaixo dos 3 por cento do PIB, disse Pedro Solbes.

O Comissário Europeu para os Assuntos Monetários, em declarações ao jornal francês «Les Echos», afirma que a guerra é «claramente» uma das «circunstâncias excepcionais» que pode permitir aos Governos por de lado a obrigação de cumprir o limite de 3por cento no défice orçamental.

No PEC estão estabelecidas algumas ressalvas que desobrigam os países a cumprir as metas fixadas no documento, com o caso de ocorrer uma recessão prolongada ou a existência de uma guerra.

O ano passado Portugal conseguiu obter um défice orçamental abaixo dos 3por cento do PIB, depois de em 2001 ter sido o primeiro país a violar o PEC.
Este ano o Governo espera um défice de 2,4 por cento do PIB, mas os dados da execução orçamental e o abrandamento da economia parecem ameaçar este objectivo.

A existência de uma guerra e caso Bruxelas confirme o aliviar das regras do PEC, Portugal e os países da UE, a braços com um abrandamento da economia, podem assim abrandar as restrições orçamentais.

O ano passado a França e a Alemanha violaram as regras do PEC, ao apresentarem défices orçamentais acima dos 3 por cento.

António Chainho e Marta Dias “Ao vivo no CCB”

“AO VIVO NO CCB” é o título do álbum que resultou da gravação dos concertos que o guitarrista António Chainho e a cantora Marta Dias deram, nos dias 28 e 29 de Janeiro, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém.

Em ambos os concertos, António Chainho passou em revista alguns dos temas mais emblemáticos da sua carreira dos quais são exemplo, “Fadinho Simples”, “Gaivotas ao Amanhecer”, “Guitarra sem Fronteiras”, “Zanga das Comadres”, “Improviso em Mi Menor”, “Rotas Marítimas”, aproveitando também a ocasião para apresentar, em primeira mão, alguns temas novos como “Fado Alegre”, “Fado Tão Bom”, “Encontrei um Fadista”, “Fado Preto” e “Calha Bem”, cujas letras são da autoria de Marta Dias.

Para a realização de ambos os concertos, António Chainho contou ainda com a participação especial de Fernando Alvim (viola), Rão Kyao (flauta, em “Voando Sobre o Alentejo” e “Quase Fado”), Eduardo Miranda (bandolim e viola) e Tuniko Goulart (viola).

Todavia e enquanto o álbum não chega às prateleiras das principais lojas de música, o single de apresentação “Fado Tão Bom” está já disponível no site do guitarrista português.

Bomtempo na alma de Gabriela

A música de câmara é o seu repertório de eleição, pela sua vertente intimista, explanada nos recantos do quarteto “Capela”. Gabriela Canavilhas, pianista, professora, e até radialista, percorre no seu novo álbum “Quintetos com piano” a trilha desenhada por João Domingos Bomtempo nas pautas do século XIX, e acompanhada do SEMANÁRIO viaja pelas suas paixões, as suas origens que lhe moldaram um percurso, por entre a música de hoje e de sempre.

Açoriana enamorada pelo adiado retorno às raízes africanas que lhe foram berço, agradecida pela experiência vivida ao longo de dois anos nos Estados Unidos, hoje professora no Conservatório Nacional de Lisboa e colaboradora da Antena2 no programa “O despertar dos músicos”.
Fiel intérprete do conceito de música de câmara que advém da ideia de um pequeno grupo de instrumentistas funcionando como solistas, num “género de repertórios que exploram a depuração da linguagem e procuram diferentes texturas sonoras”.
O inevitável relacionamento entre as instituições governamentais e o meio cultural Português mereceu referência por parte da pianista “o estado tem a obrigação de criar meios e condições para os artistas se expressarem nas áreas artísticas em que a lógica de mercado não funciona” acrescentando que “não se pode continuar a olhar a cultura como algo que necessita de ser subsidiado totalmente, mas como qualquer coisa com potencialidade para ser lucrativa no balanço económico do país”, concluindo, “o estado deve estar atento às vanguardas, às novas criações e ao estabelecimento e afirmação de novas linguagens”.
Situando a música erudita como tendo “tantas nuances de mercado como qualquer outra”, com o exemplo de um dos seus álbuns “Vocalizos”, totalmente construído com base em obras de compositores contemporâneos Portugueses e que atingiu um substancial número de vendas, situação que encaminha o rumo do seu discurso para o facto das editoras discográficas não apostarem ainda fortemente neste segmento do mercado musical como algo rentável.
A ” pluralização de repertórios apresentados, como se afere do grande êxito alcançado pelos três tenores, que se traduziu numa clara estratégia visando a massificação da venda, vem na sequência de uma lógica de mercado que começa a ser explorada na área da música erudita”.
Gabriela Canavilhas prossegue neste âmbito, mas introspectivamente colocada perante a questão da comercialização da sua própria obra revela “o reconhecimento de um aluno, uma carta de um ouvinte valem mais que os concertos e os discos pois são mera expressão da nossa actividade. O que realmente importa para um artista é tocar em alguém ao longo da sua vida”.
No fecho da conversa Gabriela, amante da música como arte indissociável da cultura que a molda em todas as suas cambiantes, traça para os leitores do SEMANÁRIO um pequeno esboço da sua visão em relação à música Portuguesa, nomeadamente quanto à questão da formação ” onde a qualidade do ensino tem melhorado substancialmente nos últimos anos, situação consubstanciada pelo surgimento de novos instrumentistas”.
Também o fenómeno gerado em torno da denominada música “pimba” mereceu um comentário, ” o ar de superioridade com que músicos credenciados observam este tipo de sonoridade traduz-se por um certo basismo latente, que faz desvanecer a verdadeira e natural essência tradicional de onde provém este tipo de canções”.