2026/09/13

«Os autarcas estão a ser muito mal pagos»

Teresa Pais Zambujo, em entrevista ao SEMANÁRIO, falou sobre o momento que as autarquias e os autarcas atravessam na actual conjuntura nacional. Esta autarca não abre o jogo sobre a sua continuidade na câmara nas próximas eleições. A edil chama também a atenção do Governo sobre a remuneração dos autarcas em Portugal.

P:Fazendo o balanço destes meses à frente da autarquia, acha que o eleitorado do concelho de Oeiras está satisfeito com o seu trabalho até agora?

R:É ainda um pouco prematuro estar a responder a essa questão, pois ainda não fez um ano que assumi a presidência da câmara. No entanto, é um facto que, dos diversos contactos que tenho tido junto da população, a receptividade tem sido excelente, julgo que a população sente que há uma continuidade do trabalho iniciado pela anterior equipa, onde apenas se mudou o timoneiro. Todos os nossos projectos traçados para este mandato foram pensados em momento oportuno, no anterior mandato, por isso é normal que o eleitorado sinta a mesma garra e vontade política, desta equipa, para dar sequência aos trabalhos planeados. Por isso, faço até ao momento um balanço positivo, apesar do momento sensível que o País atravessa.

P:Correm rumores, que, em Março, o ministro da Cidades, Isaltino Morais, pode abandonar o Governo e regressar à presidência da Câmara de Oeiras. Confirma isto?

R:Essa questão só a própria pessoa é que pode responder. O que compete a esta equipa é prosseguir com o trabalho, fazendo com que o concelho vá crescendo, em termos de desenvolvimento sustentado.

P:Caso isso suceda, volta para a vice-presidência?

R:É normal que isso aconteça, quando um sai e outro entra na lista, é algo que sucede em todo o lado, as regras são claras nestas situações.

P:Então não põe a hipótese de se candidatar ao seu actual posto nas próximas eleições autárquicas?

R:Eu penso que ainda é muito prematuro estar a pensar numa candidatura, isto porque as coisas na política sucedem-se tão rapidamente que não podemos fazer planos para algo que ainda está muito distante.

P:Compreende, no entanto, que a sua candidatura não teria o mesmo impacto político no eleitorado, que uma recandidatura de Isaltino Morais, isto se o PSD quiser manter a hegemonia praticada ao longo dos anos em Oeiras?

R:Sabe, eu acho que aquilo que mantém o eleitorado é o trabalho desenvolvido, esse sim, fala por nós. Aquilo que me preocupa não é perder votos, mas continuar a desenvolver trabalho, de forma a criar o meu próprio espaço. Eu sou uma das pessoas que transitam do mandato anterior e o meu trabalho foi conhecido nas áreas que desenvolvi, nomeadamente ao nível do saneamento e da água, da educação, saúde, entre outros pelouros, portanto, sinto-me bem naquilo que faço e isso é meio caminho andado para ter sucesso.

P:Qual é a sua opinião sobre os recentes escândalos de corrupção ao nível das autarquias, como por exemplo o caso de Fátima Felgueiras?

R:Eu acho que nós autarcas, de uma maneira geral, estamos a viver um período complicado. Não há dúvida nenhuma que a exposição do autarca é muito diferente de outros níveis de governação. Uma administração central é uma administração sem rosto, enquanto a local é aquela onde nos vão bater à porta a todo o momento. Todos os dias, o autarca é confrontado cara a cara com a população, com os problemas do dia-a-dia. Por isso, estamos numa posição mais vulnerável.

P:O facto de a justiça estar a querer mostrar serviço ao nível das autarquias não a assusta?

R:Eu acho que deve haver rigor na actuação, deve haver a aplicação da justiça, não devemos é julgar em sedes que não são as próprias e em momentos em que não os próprios. Há que perceber determinadas situações que, na primeira análise, parecem injustas, para isso, é necessário haver rigor no conhecimento dos factos para se fazer justiça.

P:Quando assumiu a presidência da Câmara de Oeiras, encontrou algum caso suspeito na autarquia que merecesse ser investigado?

R:Não. Contudo, será leviano da minha parte assegurar que não há literalmente nada a apontar aqui. Uma autarquia com esta dimensão tem sempre milhares de frentes abertas, portanto, penso que ninguém pode afirmar que existe uma total transparência em todas as frentes. Temos consciência que podem existir casos pontuais, por isso, procuramos, na nossa actuação diária, ter uma base técnica que nos conforta ao actuarmos nessas situações.

P:Devido à dimensão da câmara a nível nacional, sente que a fiscalização é mais ou menos rígida?

R:Cada autarca deve falar pela sua autarquia. No nosso caso, nunca são de mais os recursos que temos para as vertentes de acompanhamento e fiscalização, isto porque nunca temos os meios suficientes para que a fiscalização seja a adequada às nossas necessidades. Afirmar isso seria estar a mentir. Há que ser realista e tentar ver o que é mais importante, para se estabelecer uma prioridade de actuação. Para ter uma fiscalização a 100 por cento, teria que ter um fiscal para os 163 mil munícipes, algo perfeitamente impossível.

P:No seu tempo de mandato já sofreu alguma espécie de pressão da parte de alguns construtores?

R:Não. Nunca senti. Posso mesmo dizê-lo com todo o à-vontade que, em todo o meu percurso profissional, nunca tive qualquer espécie de pressões. Eu tenho um princípio que pauto todas as minhas actuações, ou seja, quero cumprir as regras que estão em vigor, tudo aquilo que signifique desrespeitar, vêm bater à porta errada.

P:Acha que a limitação de mandatos dos autarcas é benéfica?

R:Eu julgo que deve haver lufadas no poder, não só local mas também no poder central, há um tempo certo para as pessoas estarem à frente dos projectos. Penso que oito anos é o adequado para se desenvolver projecto, pois um mandato só é muito pouco para se mostrar trabalho.
Não me choca nada que haja limitação, mas por que só nos autarcas?

P:Houve uma redução nas verbas do PIDDAC em relação à Câmara de Oeiras?

R:Houve sim. Não vimos contemplados no PIDDAC determinados projectos que consideramos vitais no nosso concelho, nomeadamente a saúde. Os nossos centros de saúde não têm nada a ver com a qualidade de vida que se pratica em Oeiras. Por isso, estou preocupada com compromissos que foram assumidos ao nível da saúde e, não só, que agora estão em risco.

P:Então não concorda com a proibição do endividamento das câmaras proposta pela ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite?

R:Claro que não. Não há nenhuma autarquia que concorde, isso está-nos a limitar a capacidade de acesso. Sem esgotarmos a nossa capacidade de endividamento, não tivemos pejo nenhum em recorrer ao crédito para realizar os vários projectos. Quando nos dizem que não podemos recorrer mais ao crédito, isso, obviamente, que nos vai criar atrasos.

P:O modelo de financiamento das autarquias está esgotado. O que é necessário mudar?

R:Quando manifestamos a nossa preocupação relativamente a essas limitações em termos do modelo de financiamento, tivemos a oportunidade de dizer nas sedes próprias que valeria a pena agilizar procedimentos, para que pudéssemos arrecadar receitas com um nível de eficácia e eficiência real. Isto, para não ficarmos prejudicados com determinadas informações que não existem e que devem ser actualizadas, por forma a terem reflexos positivos nas receitas que podemos arrecadar. Uma das apostas aqui em Oeiras foi atrair investidores que, de alguma forma, nos fazem ter um tecido empresarial e económico que nos dá algum conforto. É fundamental atrair investimentos estrangeiros para gerar riqueza e as autarquias serem mais independentes. Outras das nossas apostas é a recuperação e revitalização de imóveis nos dois centros históricos do concelho, para depois arrendar ou vender a preços acessíveis, sobretudo a jovens.

P:Considera que os autarcas a nível nacional estão a ser mal pagos?

R:Estão. Estão sem dúvida a ser muito mal pagos. Não só os autarcas mas também os políticos de uma maneira geral. Um verdadeiro autarca tem que estar 24 horas disponível, para qualquer emergência. Eu considero que as responsabilidades inerentes ao cargo não estão à altura dos ordenados praticados. Julgo que deveria haver um repensar da situação da parte do Governo.

Abel Baptista afasta ideia de fusão de PSD e CDS

Presidente da distrital de Viana do Castelo do CDS-PP apela a um entendimento pós-governo.

A moção de estratégia do presidente da Distrital de Viana do Castelo do CDS-PP, Abel Baptista, criou algum “burburinho” nos preparativos para o Congresso Nacional do partido, a realizar na última semana do próximo mês, no Porto. Ao contrário do veio noticiado em alguns órgãos de comunicação social, o presidente da comissão política daquela estrutura não defende na sua moção que o PSD e o CDS-PP se fundam num só partido. Segundo o que o próprio garantiu ao SEMANÁRIO, “o projecto que já se iniciou, e está a correr muitíssimo bem, deve ser aprofundado e deve levar a um projecto político comum a médio e longo prazo” o que não implica directamente a fusão dos dois partidos.
Para Abel Baptista, foi feita uma “interpretação subjectiva que não corresponde objectivamente àquilo que nós queremos” e garante que ninguém da direcção do partido lhe “puxou as orelhas”. Segundo aquele popular, “não se trata da fusão dos dois partidos” mas vai avançando que não se deverá ter “medo de falar e de pôr essa questão em cima da mesa”.
“Há aqui uma série de declarações que não passam por fundir os dois partidos”, garante, “o que temos é ideias próximas relativamente ao PSD para podermos fazer esse tal projecto político comum”.
Em relação a uma possível fusão dos dois partidos, Abel Baptista afirma que “nem sequer há essa possibilidade. Acho que os dois partidos têm uma história demasiado rica que não irá permitir isso (…) até porque o espaço político do CDS é de manter”. O presidente de Viana fala de um “projecto comum também na oposição (…) acho que deve ser neste sentido. Mais do que tentarem anular-se um ao outro, devem fazer projectos conjuntos (…) para o bem e para o mal”. Abel Baptista sustenta ainda que “hoje dentro do CDS não deve ser defendida a equidistância que foi defendida por Freitas do Amaral em determinada altura no partido”.

Líder da Juventude Popular critíca abandono de Manuel Monteiro

Após o anúncio da saída de Manuel Monteiro, ficou a dúvida sobre o futuro do antigo presidente do CDS/PP, em tempos figura notável dentro do Partido. Agora, após a sua saída fala-se na fundação de um novo Partido. Que espaço terá esta nova força política e que objectivos?
Perguntas para as quais O SEMANÁRIO tentou obter resposta junto do líder da Juventude Popular.

Para João Almeida, a saída de Manuel Monteiro “é importante a nível institucional uma vez que se trata de um ex-presidente da Juventude Centrista onde a sua presença teve bastante peso, sendo por isso lamentável esta saída”.

No entender do Líder dos jovens populares “Manuel Monteiro erra ao sair, seguindo um caminho que não o institucional”, comentando “Acaba por fazer aquilo que ele próprio criticou a outros que abandonaram o partido por não concordarem com as opções estratégicas que implantou no partido, nomeadamente o Professor Freitas do Amaral”.

O Líder da JP, considera despropositado este abandono “numa altura em que o CDS/PP conseguiu um objectivo, neste caso a chegada ao poder, não faz qualquer sentido que um antigo líder questione o caminho seguido pelo partido”

Um novo partido de direita ?

João Almeida, mostra-se céptico quanto à fundação de um partido por Manuel Monteiro, “É errado fundar partidos só porque não concordamos com a linha que o partido está a seguir”, questionado sobre se haverá espaço para mais um partido à direita, o Jovem Popular argumentou “Poderá existir um novo partido caso tenha um novo pensamento, e limitando-se a uma ideologia anti-sistémica, anti-europeia e anti-institucional, e se Manuel Monteiro quiser ser o Francisco Louçã da direita, então poderá ter o seu espaço”
João Almeida caracteriza esta acção como sendo uma “intervenção bélica unilateral de Manuel Monteiro contra Paulo Portas”, dizendo ainda “Não há uma guerra pessoal entre ambos, porque o actual Presidente do CDS/PP limita-se a exercer a liderança do partido cumprindo a moção que foi democraticamente aprovada em congresso”.

JCP retida em Israel

Esta segunda-feira, uma delegação da Juventude Comunista Portuguesa, de solidariedade para com a Palestina, ficou retida no Aeroporto de Telavive durante 15 horas.

Esta delegação, tinha como objectivo promover o encontro com Juventude Comunista de Israel, e vários jovens palestinianos, porém à chegada ao aeroporto de Telavive, a delegação da JCP foi surpreendida pelas entidades israelitas que não deixaram os jovens comunistas prosseguirem com a sua visita.

Sob o pretexto da ausência de convite por parte de qualquer organização israelita, os oito enviados da JCP viram-se obrigados a permanecer no aeroporto durante 15 horas, sem que tenham conseguido contactar o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Embaixada Portuguesa em Israel.

Para a JCP, este incidente só veio provar que o Governo de Ariel Sharon não quer que o mundo conheça as verdadeiras condições em que vive e luta o povo palestiniano.

Da arrogância imperial à falência das instituições

Como em todos os momentos perigosos da história da humanidade, houve sempre uma massa crítica que emergiu para reflectir sobre as causas e consequências das alterações sistémicas. Na iminência de uma guerra contra o Iraque, os espíritos políticos inquietam-se e as opiniões públicas manifestam-se.
No universo dos pensadores, Adriano Moreira fala da “grande falta de liderança no ocidente” e Mário Soares alerta para o “perigo da falência das instituições internacionais criadas dos escombros da II Guerra Mundial, se os Estados Unidos decidirem caminhar para o abismo com uma intervenção militar em solo iraquiano”.

O “ferimento da consciência moral” é o que a administração norte-americana está a provocar na humanidade, segundo as palavras do antigo Presidente da República portuguesa, Mário Soares, escutado atentamente por uma plateia apinhada de jovens, na passada quarta-feira, num dos auditórios do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), por ocasião de um seminário sobre as eventuais ameaças que o Iraque e a Coreia do Norte possam representar para a paz e segurança globais.

Mário Soares foi um dos muitos oradores que debateram e apresentaram ideias, perspectivas e cenários intrínsecos à questão iraquiana, que já começou a corroer alguns pilares da sociedade ocidental (leia-se ONU, NATO e UE), provocando brechas que poderão ser dramáticas para o futuro de algumas organizações e projectos pioneiros emanados dos escombros da II Guerra Mundial.

Na verdade, o combate político entre os apoiantes da estratégia do Presidente norte-americano, George W. Bush, e aqueles que vêem no chefe de Estado francês, Jacques Chirac, o contra poder à arrogância desmesurada de Washington, deixou de estar centrado no problema particular do Iraque.

Aqui, o ditador iraquiano quase que passou a ser um acessório num debate ideológico entre demandas nacionais, muitas vezes soberanistas ( desprezando o carácter altruísta e positivo de determinados projectos universais alicerçados sobre os princípios dos direitos humanos e da moral), e concepções políticas nobres, mas, por vezes, descuradas do realismo político, naturalmente próprio das relações internacionais.

“O Ocidente não discorda fundamentalmente sobre o Iraque. O debate não é realmente sobre o Iraque, mas sim sobre os Estados Unidos. Muitos na Europa estão mais preocupados com a América do que com o Iraque”, escrevia esta semana Fareed Zakaria, na revista “Newsweek”, num artigo intitulado, “Isto [o debate] já não é sobre o Iraque”.

E na verdade, Mário Soares não tem dúvidas ao considerar Saddam Hussein um “ditador sanguinário”, responsável pelo aniquilamento das liberdades e garantias do povo iraquiano. Porém, Soares refere que “existem muitos (ditadores) por este mundo fora” e que o discurso de Bush sobre esta matéria é incoerente. Desta forma, Soares não partilha das “certezas” que, por exemplo, o conselheiro político da embaixada norte-americana presente no seminário, Robert Blau, defendeu.

O antigo chefe de Estado português tem sérias dúvidas quanto ao facto do Iraque representar verdadeiramente uma ameaça à paz e segurança globais. Contrapõe energeticamente Blau – que não é mais do que a extensão do pensamento da administração Bush -, e denuncia o “carácter religioso” do discurso do Presidente americano, salientando que a expressão “eixo do mal” é perigoso e “sem sentido”, descendo ao nível da retórica de Saddam Hussein.

Vai mais longe ao acusar Washington de ainda não ter explicado ao mundo por que optou por atacar o Iraque. Soares deixa ainda um aviso à Casa Branca para ouvir as vozes discordantes da estratégia norte-americana.
Estratégia essa, que assenta no combate ao terrorismo e na necessidade de desarmar o regime de Bagdad das suas armas de destruição maciça. Blau insiste no “programa (NBQ) agressivo” de Saddam Hussein, assumindo que “dar mais tempo ao Iraque só fazia sentido se houvesse uma mudança de atitude do regime”.

E, como tal, o ataque dos Estados Unidos parece ser uma inevitabilidade, numa atitude quase “messiânica” personificada por Bush. Reflectindo um pouco o estado de espírito de alguns norte-americanos, nomeadamente ao nível governativo, mediático e académico o diplomata americano criticou o discurso europeu pela sua inacção, exemplificando com (pseudo) intervenções militares do passado, especialmente nos balcãs. “Após a queda do muro de Berlim não nos podemos dar ao luxo de ser pacifistas”.

Um termo que, apesar de tudo, Soares rejeita, quando aplicado na restrição total do uso da violência. O antigo Presidente refere que “os povos e os Estados têm o direito à auto-defesa”, e neste caso a violência surge como uma consequência lógica. É precisamente neste capítulo que Soares incide mais acutilantemente suas críticas à administração Bush. O direito de fazer ou não fazer a guerra não pode ser definido pela Casa Branca.

Nas perspectivas de Mário Soares e Adriano Moreira, outro dos oradores do seminário em questão, a legitimidade de declarar guerra caberá sempre as Nações Unidas, um fórum único no seu conceito e nos seus objectivos. Na óptica dos oradores será, única e exclusivamente, no Conselho de Segurança que se definem eventuais intervenções militares. Nesta área nada pode ser feito à revelia daquele organismo, correndo-se o risco de secundarizá-la e condená-la ao desaparecimento. “Se não tivermos a ONU, o que resta? É o único lugar do mundo onde todos falam com todos”, observa Moreira.

Este considera que o mundo deve muito à ONU e às suas subsidiárias e que, apesar das deficiências inerentes à organização, instituições como a UNICEF ou UNESCO não têm paralelo. “Como tal a ONU tem de ser preservada”. No entanto, a crise que se desenha no ocidente está a colocar em causa a legitimidade desta organização e de outras duas, a NATO e a União Europeia.

Moreira refere que a “extraordinária falta de liderança no Ocidente” impede que se atenue a brecha que se abriu algures no eixo transatlântico. O debate político e diplomático alcançou níveis indesejáveis e preocupantes.

Talvez daqui a duas semanas todos consigam alcançar um consenso no Conselho de Segurança, da mesma forma que se obteve na NATO em relação à Turquia e na União Europeia, com a plataforma de entendimento. A sensação é de que foram medidas adoptadas para evitar a ruína dos alicerces da ordem ocidental.

Para homens como Mário Soares e Adriano Moreira a actual conjuntura está a pôr em causa instituições que demoraram anos a ser edificadas. O desaparecimento ou a condenação das mesmas à irrelevância é um facto que dever ser combatido a todo o custo. Por isso mesmo, Soares tem adoptado um discurso bastante duro em relação à administração Bush.

“Como amigo dos Estados Unidos coloco os problemas, porque o respeito pelos outros implica a verdade”, diz. Crente incondicional do Direito Internacional, Soares não aceita um “direito que se baseie na força bruta”.

Os receios pela iminência da hecatombe do edifício ocidental não são particulares e parecem invadir as mentes dos seus líderes. A crispação entre Paris e Washington fizeram aumentar os medos e as expectativas quanto ao futuro do sistema internacional. “Esperemos que todo o edifício (da aliança ocidental) não venha por aí abaixo”, lia-se há umas semanas no “New York Times”, citando altos fontes governamentais da administração Bush.

O arrastamento da ONU, da UE e da NATO para as memórias da história é um risco que não pode ser minimizado. “A falência destas instituições poderá ser uma realidade se os Estados Unidos avançarem sozinhos”, contra tudo e contra todos. “Se isto vier acontecer, e esperemos que não, então será um salto no abismo”, avisa Mário Soares.