2021/09/23

O controlo dos Mediapor António Silva Ribeiro

Com o objectivo de garantirem um bom relacionamento com os órgãos de comunicação social…

…, preservando um nível adequado de segredo operacional num ambiente multimédia permanente, os militares dos EUA fizeram uma proposta irrecusável às grandes cadeias noticiosas: a integração de jornalistas em unidades combatentes.

Desta forma, proporcionam aos mídia um acesso sem precedentes às particularidades dos combates. Porém, desta forma, focalizaram as notícias numa parte muito restrita da campanha, garantindo assim o controlo dos mídia.

No planeamento da campanha no Iraque os militares dos EUA defrontaram-se com um problema principal. Devido à dimensão da força militar empenhada e ao jogo político-diplomático desenvolvido ao longo de diversos meses, era impossível actuar com surpresa estratégica contra o Iraque. Por isso, a não ser que conseguissem obter algum controlo sobre as notícias do desenvolvimento da campanha, também não poderiam desfrutar de surpresa operacional.

Em 1991 a manobra de envolvimento realizada através do deserto surpreendeu o exército de Saddam Hussein. Para além disso, as forças armadas dos EUA foram capazes de estabelecer bases logísticas avançadas dentro do Iraque, antes do inicio da campanha terrestre. Todavia, nessa época, a CNN era a única cadeia de televisão que operava em permanência. Alcançou enorme reputação durante a operação “Tempestade no Deserto” e mostrou que havia mercado para os serviços noticiosos contínuos.

No planeamento da presente campanha os militares defrontaram-se com a perspectiva de cobertura mediática permanente. Nestas circunstâncias, se não houvesse algum controlo sobre os mídia, os planos seriam apresentados a todo o mundo e a surpresa operacional tornar-se-ia impossível.

Porém, a tarefa de restringir o acesso dos mídia ao campo de batalha não foi fácil, porque teve de ser feita sem criar problemas políticos. Os militares norte americanos não queriam hostilizar a comunicação social, quando se perspectivava um conflito. Por isso, tentaram conciliar a inevitabilidade de uma cobertura mediática permanente, com os requisitos de surpresa operacional.

Os órgãos de comunicação social têm uma enorme vulnerabilidade: são entidades comerciais. Competem intensamente uns com os outros por audiências de massas.

Acima de tudo necessitam de acção. Por isso, o Departamento de Defesa dos EUA decidiu proporcionar às redes informativas uma acção militar intensa, oferecendo a integração em unidades combatentes, tal como aconteceu na II Guerra Mundial e no Vietname. Porém, há uma diferença fundamental entre o que aconteceu nestes conflitos e a actualidade. Na campanha do Iraque os jornalistas podem transmitir os acontecimentos em directo, sem qualquer trabalho de edição realizado nos estúdios, ocupando imenso tempo de emissão com acção real.

Havia algum receio que os militares controlassem o trabalho dos jornalistas. Exceptuando algumas limitações mínimas por razões de segurança, que até servem para aumentar a autenticidade dramática da cobertura, os jornalistas têm trabalhado à sua vontade.

Todavia, para os militares, o requisito essencial passa por condicionar os relatos dos jornalistas àquilo que está ao alcance das suas câmaras. Como foram os militares que decidiram as unidades onde integrariam os jornalistas, conhecendo os planos de actuação dessas formações, puderam definir aquilo a que as audiências teriam acesso.

Os jornalistas foram integrados na 3ª. Divisão de Infantaria, na 101ª. Divisão Aero-transportada, na 1ª. Força Expedicionária dos Fuzileiros, em porta-aviões, em quartéis-generais e em bases aéreas do Kuwait. Porém, estão ausentes das unidades da 1ª linha, dotadas de grande mobilidade, dos bombardeiros estratégicos ou de qualquer local na parte Oeste do Iraque.

Para além dos jornalistas junto à fronteira da Jordânia e do Curdistão Iraquiano, e daqueles que se encontram em Bagdade, a maioria tem sido conduzida pelo deserto a Sul do rio Eufrates, dispondo de uma visão muito restrita da campanha.

As cenas transmitidas de Bagdade, combinadas com a cobertura das movimentações no deserto, proporcionam aos telespectadores uma extraordinária visão dos bombardeamentos e da progressão de algumas unidades empenhadas no Sul do Iraque. Por isso, os militares não podem ser acusados de impedir o trabalho dos jornalistas.

No entanto, conseguiram conter a curiosidade jornalística e as especulações dos comentadores sobre a guerra, limitando assim aquilo que é difundido. Desta forma, garantiram algum espaço para a surpresa táctica e operacional, sobretudo a Norte e a Oeste de Bagdade, onde serão desenvolvidas acções decisivas para o desfecho do conflito.

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