Borges trava lista ao Conselho Nacional mas mantém moção

António Borges, da Fundação Champalimaud, ainda pode avançar para a liderança neste Congresso de Pombal, mesmo não querendo e tendo travado a sua lista ao Conselho Nacional. É que o partido “cai-lhe no colo” se, diante da vitória da sua moção, Marques Mendes recuar.

António Borges, da Fundação Champalimaud, ainda pode avançar para a liderança neste Congresso de Pombal, mesmo não querendo e tendo travado a sua lista ao Conselho Nacional. É que o partido “cai-lhe no colo” se, diante da vitória da sua moção, Marques Mendes recuar. Por outro lado, a questão presidencial, que todos querem evitar, pode bem passar a ser a questão central deste congresso, com Santana Lopes a marcar o terreno. O Congresso do PSD em Pombal é, pelo menos, imprevisível.
É como o maior espectáculo do mundo. Como um circo. Não haverá surpresas, apesar das manobras. Luís Marques Mendes deverá ser o próximo líder do PSD e, como o próprio vai dizendo, “já tem apoios a mais”.
Santana Lopes foi abandonado. Está só e até os mais próximos o traíram. Para regressar, terá que fazer o percurso de regresso sozinho e sem o apoio de ninguém. Mas o que resta do santanismo joga as últimas cartadas num jogo em que nada tem a perder.
Luís Filipe Menezes assume as dores de um PSD liberal, sulista e elitista, desfeito em nome da candidatura presidencial de Cavaco Silva. E, é, contudo, este pequeno pormenor que pode fazer toda a diferença e alterar o jogo. À entrada do Congresso, os que vão com fama de líderes podem sair derrotados . A terceira via pode ser obrigada a ir a jogo. Mesmo não querendo, António Borges pode ter que ir a jogo ocupar o espaço de Cavaco Silva. Ferreira Leite será a próxima presidente da mesa do Congresso, substituindo Dias Loureiro.
Durão Barroso não gosta de António Borges. Santana Lopes também não e Marques Mendes não o quer por perto. Mas o novo político da Fundação Champalimaud tem apoios importantes, que vão de Marcelo a Manuela Ferreira Leite, de Leonor Beleza a Rui Rio, de Silveira Botelho a Aguiar Branco. Quem protesta contra ele é Nuno Morais Sarmento, o ainda vice de Santana Lopes, que, com Miguel Relvas e José Luís Arnaut, são mal vistos na Fundação.

Tudo em aberto?

Nestes termos, pode estar tudo em aberto, hoje à entrada do Conclave laranja, que deverá eleger o sucessor de Pedro Santana Lopes. Estrategicamente, quer os mendistas, quer António Borges, estão a tentar encurralar Santana Lopes, limitando qualquer hipótese de este poder ainda ser recandidato á Câmara de Lisboa. Um erro, que pode justificar o contra-ataque do antigo primeiro-ministro.
Ao mesmo tempo, tentam entendimentos com santanistas. Mendes vai integrar alguns nomes do anterior Conselho Nacional, como José Matos Correia. Do lado de Luís Filipe Menezes encara-se a hipótese, ante o recuo da lista afecta à Fundação Champalimaud, de integrar alguns nomes que apoiam a moção de António Borges.
Os almoços multiplicam-se em Lisboa. Definitivamente, apenas Marques Mendes, com Pedro Passos Coelho e Azevedo Soares, está disposto a ir até ao fim.
Com os barrosistas de fora, os santanistas acabam por dar corpo ao espaço de Luis Filipe Menezes, com as colaborações de Duarte Lima (muito ligado a Silveira Botelho) e de Rui Gomes da Silva. Até à ultima hora, o entendimento com Borges pode fazer sentido, caso o economista da Fundação Champalimaud decida avançar, admitem algumas fontes, contudo, António Borges pode ficar mesmo com o partido ao colo, caso a sua moção ganhe e Marques Mendes se veja obrigado a retirar.

Do seu lado, com os apoios expressos, Marcelo, Ferreira Leite, Rui Rio e Aguiar Branco, António Borges dá instruções para que não se faça nada. Nem candidatura, nem lista ao Conselho Nacional. Apenas a moção para fragilizar Marques Mendes, que lhes ficará nas mãos até ao dia em que decidam avançar. É esta a primeira tensão previsível deste congresso.

O plano da Fundação Champalimaud

A Fundação tem um plano para o centro-direita em Portugal. Mas é para daqui a dois ou três anos. Para os meios da Fundação Champalimaud, a questão é simples: quem estiver agora, não estará depois e a eleição de Marques Mendes como líder, com a votação maioritária da moção de Borges, torna inevitável a instabilidade do novo líder: ninguém pode assumir a liderança com a estratégia de outro.
Nos bastidores, esta estratégia garante que, a qualquer momento, se poderá questionar a legitimidade do líder e substitui-lo a tempo das próximas legislativas.
Por outro lado, António Borges e Ferreira Leite já recuaram no propósito de avançar já com o nome da Cavaco Silva, como candidato do PSD às presidenciais: isso limitaria a candidatura presidencial de Cavaco Silva e, sobretudo, dava espaço para Santana Lopes, já neste congresso, aparecer como vítima e criar problemas claros ao apoio eventual do PSD a Cavaco. Esta é a segunda tensão previsível.
A estratégia seguida foi a contrária: por um lado, vão dizendo que Santana Lopes está morto e que não tem condições para voltar à Câmara Municipal de Lisboa. Aliás, a meio da semana, o presidente da Câmara de Lisboa foi mesmo confrontado com declarações de Carmona Rodrigues, seu vice, a dizer que tinha melhores condições que Santana Lopes para ser candidato, em Outubro próximo.

Ainda uma candidatura presidencial de Santana

Traído o homem que o trouxe para a política, Carmona aparece como solução que barra Santana Lopes. Mas, o ainda líder do PSD tem também a progressão da sua carreira profissional travada pelo executivo de José Sócrates, que não está disposto a dar-lhe nada, como retaliação pela campanha eleitoral.
Cercado, Santana Lopes, ou desiste, ou vai à luta que lhe resta, como defendem alguns santanistas: o anúncio de uma candidatura presidencial, que Santana Lopes excluiu objectivamente, ainda no passado sábado, volta a estar em cima da mesa e a ser ponderada. Em política, nunca há nunca.
É um perigo novo: Santana Lopes sabe que ninguém tem “pachorra” para depressões ou vitimizações: agora, é luta política ou nada. E, o facto de o terem empurrado para aí faz com que não tenha nada a perder. Pode ser bem esta a história do Congresso de Pombal, admite-se nos bastidores do PSD.
Com os barrosistas excluídos e acusados, com Marques Mendes no terreno, já praticamente com a passadeira colocada, mas manietado pela muito provável vitória da moção de António Borges, o espaço para a manobra das presidenciais, afinal a questão que logo de seguida se coloca, depois de ter sido uma das razões da sua demissão, acaba por deixar de novo Santana Lopes livre e com razões.
A questão presidencial, que todos querem afastar deste Congresso de Pombal, pode voltar a ser a questão central do mesmo. É um cenário destes que pode obrigar, em pleno congresso, a mudar todas as estratégias, alianças, objectivos, ou seja, tudo.
A hipótese dos santanistas votarem a moção de António Borges está praticamente assegurada, para limitarem o poder de Marques Mendes. Mas, num cenário de maior confronto, em matéria de presidenciais, podem vir a verificar-se novas aproximações. Em matéria de presidenciais, e caso Santana queira trazer o assunto ao congresso, o silêncio de Cavaco poder-lhe-á ter sido fatal. Nos bastidores do PSD, mas sobretudo para Santana Lopes não há duvidas: ou essas novas alianças se fazem no Congresso ou depois dele.

Borges ainda pode ser obrigado a avançar

Cavaco Silva foi até agora considerado como um dado adquirido. Quase um dogma. Tudo se manterá, a menos que exista grande confusão no Congresso e que Santana Lopes se apresente com disponibilidade para ser o candidato do PSD. Nesse caso, mesmo que o PSD não vá a votos nesta questão, o assunto fica lançado e fará, depois, o seu percurso.
Fruto da novidade da sua ambição política e com o espaço de Cavaco atacado, António Borges pode ter que retirar a sua moção ou então avançar com uma candidatura a todos os órgãos do partido, já amanhã. Porque se o grupo cavaquista e marcelista o não fizer, nessas circunstâncias, será possível o prematuro recuo de Cavaco Silva, desinteressado por causa da confusão criada no PSD e, finalmente, haver espaço para outras candidaturas presidenciais.
O grande objectivo dos santanistas é obviamente condicionar as presidencais. À Fundação Champalimaud compete o propósito de garantir que o próximo líder será apenas a prazo e, embora façam a corte ao incontornável Cavaco Silva, todos têm a consciência que, com Cavaco Silva em Belém, as coisas podem ficar bem mais difíceis para a liderança do PSD. Será ele a mandar.
Os Congressos do PSD começam a ser cada vez mais como os Conclaves no Vaticano: ou seja, imprevisíveis.

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