BES organiza grupo de patriotas para apoiar a OPA concorrente

O Governo fez saber que não abre mão da “golden shares” e da desblindagem dos estatutos da PT se os fundos avançarem sozinhos. A PT é para portugueses. E para não ficar nas mãos de Belmiro de Azevedo Ricardo Salgado, depois do aumento de capital do BES e da perda do Urquijo, está a preparar um grupo nacional para o acompanhar numa OPA concorrente. Enquanto isso, o ultimato de Belmiro de Azevedo à Autoridade da Concorrência parece poder complicar a vida ao empresário do Norte, comenta-se nos bastidores da OPA à PT.

Numa altura em que a eventual OPA sobre a Brisa está congelada, depois da Autoridade da Concorrência ter impedido o negócio da sua fusão com as Auto-Estradas do Atlântico, os avisos feitos esta semana por Abel Mateus, nos casos das OPAs à Portugal Telecom e ao BPI, podem introduzir alterações significativas nas previsões dos analistas. Para já, na PT, Abel Mateus promete uma posição definitiva para Julho próximo e aparentemente não terá gostado das pressões exercidas por Belmiro de Azevedo.

Ricardo Salgado organiza OPA competitiva

Esta semana, a Sonae fez saber que caso a Autoridade da Concorrência chumbe, na análise aprofundada que está a fazer ao dossier da OPA da Sonae à Portugal Telecom e à PT Multimédia, a fusão entre a Optimus e a TMN, a empresa de telecomunicações do Norte poderá desistir da OPA lançada.
Basicamente, o raciocínio da Sonaecom é que a operação só valeria a pena caso fossem possíveis os ganhos com a fusão das duas marcas. O mercado nacional não aguenta os custos de publicidade e o esforço operacional para o grupo manter duas marcas e apenas a fusão justificaria os ganhos que a Sonae antecipou para pagar a PT ao preço apresentado.
Já a estratégia delineada pela Portugal Telecom de se opor à OPA, aumentando artificialmente os resultados extraordinários em 2005, não só desacreditou a empresa de telecomunicações e a sua gestão anterior, como ainda por cima já havia antes criado espaço para a Sonae vir dizer que ponderava reduzir o preço da OPA em nove cêntimos por acção.
Uma situação que deixou um amargo de boca particular no BES, cujo envolvimento, ao preço médio de 8,30 euros por acção, está a começar a ficar perigoso, e a obrigar eventualmente a manter as reservas para pagar eventuais prejuízos.

Ricardo Salgado reage

Ricardo Salgado não poderia ficar parado diante da perspectiva de uma humilhação desta dimensão feita pelo empresário do Norte. E por isso está a mexer-se. Tentou inicialmente vender a sua posição, facilitando condições para que Miguel Paes do Amaral ou João Pereira Coutinho avançassem. Mas, do lado de Pereira Coutinho, apesar da facilidade da mobilização de fundos, o BES sentiu cautela e pouca vontade de correr riscos para safar terceiros. Já do lado dos “private equities”, o problema da credibilidade de Miguel Paes do Amaral foi apenas o primeiro, já que os fundos queriam manter Zenal Bava e aparentemente o antigo CFO da PT e actual presidente da PTM é incompatível com o financeiro da TVI.
Por outro lado, o Governo fez discretamente saber que usará a “golden share” para impedir o negócio e a desblindagem dos estatutos, caso os “private equities” entrem sozinhos no negócio.
E, em face desta posição do Governo, Ricardo Salgado ficou nas mãos da Sonae, com Belmiro de Azevedo a irritar a Autoridade da Concorrência com a ameaça de não fazer o negócio, caso a fusão seja chumbada por razões de concorrência, e, por outro lado, a ser intimidado pela possibilidade de Belmiro baixar o preço da própria OPA, deixando o BES ainda mais agarrado.

Uma estratégia contra Belmiro

O último ano não tem sido fácil para Ricardo Salgado, depois da história da Portucale e da Operação Furacão. Parece que o arrendatário do regime passou a ser o maior vilão e por isso Salgado optou por uma estratégia mais construtiva e conciliatória, agora que se apercebe que ninguém está aqui para o suportar e, sobretudo, que na época do governo Sócrates não há intocáveis em Portugal.
A suspeita de corrupção no caso da Portugal foi aparentemente congelada, senão mesmo já arquivada pelo Ministério Público. Foi o primeiro passo para a reconciliação do banqueiro com o Regime. Depois a Operação Furacão, sobre o alegado branqueamento de capital de vários bancos, acabou reduzida ao pagamento de 30 milhões de euros pelo conjunto dos cinco bancos investigados. Foi o segundo passo. Entretanto, Ricardo Salgado foi a Angola com o primeiro-ministro e a disposição do grupo modificou-se.
O primeiro passo foi aproveitar para reforçar o capital depois das pressões do Banco de Portugal. Sem explicar nada aos accionistas, alavancou o dinheiro suficiente no BES para ir às compras, ainda que isso tenha dado ao Crédit Agricole 11,5% do BES e o controlo das áreas rentáveis do banco e do grupo financeiro pelos franceses, que a semana passada anunciara, investir pelo menos mais cinco biliões em aquisições este ano, na Europa.

Dinheiro do aumento de capital para ir às compras

Farto de perder, desde 1989, milhões de euros em Espanha, a estratégia evidente do BES deveria ser a de sair de um mercado onde se deu mal, apesar de ser o banqueiro do rei. A compra do Urquijo poderia ser uma maneira de solidificar o Grupo Espírito Santo na gestão de activos em Espanha e de estancar os prejuízos, mas havia um limite de preço. Mais uma vez, e como já havia antes acontecido com o Banco Atlântico, foi o accionista do BCP, o Sabadell de Barcelona, que acabou por comprar, por 760 milhões de euros, o banco espanhol controlado por capitais belgas. Do lado português a situação era incontornável: seria um suicídio para o BES dar mais de 650 milhões pelo Banco Urquijo, mas o certo é que a perda na corrida ao banco deixou Ricardo Salgado, depois do aumento de capital do BES, com dinheiro para ir as compras, e, obviamente, em Portugal, já que no estrangeiro o BES só tem perdido dinheiro. E, em Portugal, não tendo sido possível a reunião com os pequenos bancos como resposta à OPA do BCP sobre o BPI, a ideia de manter posições significativas e pilotar grandes empresas nacionais cheira a reedição da estratégia dos anos noventa, mas é um capital seguro para a gestão de Ricardo Salgado, que, deste modo, acaba por segurar os fluxos financeiros das grandes empresas nacionais.

Reforço na Portugal Telecom

Neste novo cenário e respondendo às exigências do Governo, Ricardo Salgado aparece, agora, em condições de fazer operações que gosta. Já o estava a fazer na EDP, criando um núcleo de suporte a António Mexia, indicado pela Iberdrola e pelo BCP.
Mas a Portugal Telecom, onde a Sonae tem estado a humilhar o BES e os seus accionistas actuais, pode tornar-se de novo uma das bandeiras do grupo, muito embora o BES não tenha vocação industrial e não saiba gerir a PT, como ficou provado na gestão de Horta e Costa.
Henrique Granadeiro, um político escolhido para transição acaba por ser o homem certo para fazer a nova ponte entre o Governo socialista e o BES e facilitar a constituição de um núcleo de empresários financiados com crédito do BES, para se juntarem aos fundos internacionais e à Telefónica no lançamento de uma OPA competitiva à PT, ou, em alternativa, caso a Sonae desista para reconstruir o núcleo duro dos accionistas da PT.
Certa é já a saída de Patrick Monteiro de Barros, que acaba por fazer um bom negócio. A pretexto da incompatibilidade com o Governo depois do chumbo da sua refinaria de Sines, Patrick Monteiro de Barros prepara uma saída tragicómica como gosta. Com conferência de imprensa marcada para 2 de Junho próximo. Irá, admite-se nos meios económicos, dizer que não acredita no Governo nem em Portugal e por isso vende tudo o que tem. A sua casa de Cascais pertence a uma fundação com 30 anos e dificilmente o Governo a apanhará e vende a única coisa que tem em Portugal, a sua posição na PT, pagando as dívidas ao BES e ainda ficando com algumas mais-valias. Depois, dentro de anos, poderá ainda aparecer em algum país africano, sítio onde afinal ganhou dinheiro.
Sem Patrick Monteiro de Barros, Salgado irá provavelmente buscar Ilídio Pinho, que diz estar disposto a meter 250 milhões na PT – mas que, no fim, acabará metendo apenas 50 ou 100, como habitualmente -,já que agora não pode mais contar com Américo Amorim, que furou o acordo na Galp, avançando sozinho e deixando o BES fora da operação.
Provavelmente financiará Joaquim Oliveira em mais 100 ou 200 milhões para que entre também na PT. Poderá ser uma decisão estratégica para o dono da Lusomundo Média, já que a ligação à PT pode voltar a ser estratégica para o grupo, que teve que alavancar perto de 350 milhões de euros no BCP para comprar o “Diário de Notícias” e o “Jornal de Notícias” à PT o ano passado. Acresce que Oliveira foi parceiro da PTM e ainda mantém posições na Sport TV. Podem ainda juntar-se ao grupo o BCP, que faria um Tratado de Tordesilhas com a EDP e eventualmente empresários com interesse no sector, como o próprio João Pereira Coutinho.

Belmiro em risco?

A solução está à vista, portanto. Belmiro poderá já não ter condições para comprar a Portugal Telecom: Ricardo Salgado aproveitará o aumento de capital para manter a gestão industrial da PT e financiar um grupo de patriotas que, com os fundos privados internacionais, poderão prosseguir a estratégia delineada de vender o Brasil à Telefónica e dividir o cabo da rede de cobre, abrindo a possibilidade para um segundo episódio na PT. Eventualmente uma guerra entre Belmiro e João Pereira Coutinho pelo controlo da PT Multimédia.

A mudança do paradigma

A questão do livro de Manuel Maria Carrilho traz, mais uma vez, para o centro da controvérsia política a existência de um triângulo de legitimidades diferentes, cujos pólos – os eleitos, as magistraturas e os jornalistas – concorrem em poder.

A questão do livro de Manuel Maria Carrilho traz, mais uma vez, para o centro da controvérsia política a existência de um triângulo de legitimidades diferentes, cujos pólos – os eleitos, as magistraturas e os jornalistas – concorrem em poder. Este autêntico “Triângulo das Bermudas” faz desaparecer o moderno Estado europeu, emergindo, em seu lugar, as máfias, os poderes informais, os grupos de pressão ilegítimos e até o terrorismo.
Entre estes poderes a questão do equilíbrio e da divisão não se coloca. Não são as funções do Estado que estão em causa. Estes eleitos, magistrados e jornalistas não as exercem, limitando a intervenção executiva ao desempenho dos tecnocratas e a actividade legislativa – para além do folclore dos sampaístas, com os crucifixos e o protocolo – à mera transcrição das directivas de Bruxelas.

Do que se trata é que, no quadro da política espectáculo, a questão da transparência ganha relevância na definição do político, do magistrado ou do jornalista.
A credibilidade dos protagonistas nas sociedades democráticas europeias acaba por corresponder à ideia do super-homem. O eleito tem que estar acima de qualquer suspeita, não ter cadastro e ser um tipo decente. Mas também não pode ter mácula ou pecado. A ideia do homem perfeito, sem passado nem pecado, é a ilusão que acompanha a ideia de político, de magistrado e de jornalista. O político tem que ser sério, a justiça cega e o jornalista independente. É nisto que se quer acreditar.
Porém, a realidade acaba por se impor. O eleito, o magistrado e o jornalista são simplesmente homens como todos os outros, e, por isso, a solução no Estado de direito foi o da afirmação da lei. Criam-se leis para delimitar o âmbito de actuação. Criminalizam-se os comportamentos mais comuns, não cuidando de os prevenir. Não se entende que seja mais importante prevenir um crime que criar uma nova categoria de crimes.
Ao mesmo tempo o poder executivo é entregue à opacidade dos técnicos, as finanças públicas e a Segurança Social são reduzidas à dimensão do contabilista, o poder executivo verdadeiro é confiado a autoridades ditas independentes, chefiadas por homens não eleitos – como a Autoridade da Concorrência, a ANACOM, a CMVM, ou a da Energia, para não falar já na Autoridade das Florestas ou a Agência Alimentar.
O poder executivo sai do universo do eleito e os maiores disparates são cometidos, ditos e proclamados em nome de pseudoconhecimentos técnicos, tão limitados, históricos e ultrapassados, quanto os das ditas autoridades que os controlam.

Cavaco como referência moral

Porém, isto não resulta. O País empobrece. Do que se trata então?
Tudo isto foi, exactamente, a necessidade de manter a governabilidade, no quadro da democracia europeia. Já começamos a admitir que as democracias não são necessariamente apenas aquelas que foram inspiradas na revolução americana.
Mas a tecnocracia continua ainda a acreditar que Keynes é igual a Marx, sem perceber o erro das suas políticas e os excluídos que cria.
É, por isso, que ouvimos disparates como as políticas pró-cíclicas do BCE, imbecilidades como as da falência da Segurança Social e assistimos paralisados à anemia dos consumidores na Europa e ao definhar da nossa economia.
A Europa continuará a exportar Ferraris e Mercedes, agora para a China, para a Rússia e para a Índia. Mas, para além destas jóias acabadas de descobrir pelas novas classes emergentes da Ásia-Pacífico, a indústria deslocaliza-se, ou muda tecnologicamente, redundando necessariamente no desemprego.
É aqui que entramos nós. Sem grandes produções, sem ainda termos dado a volta às expectativas, todos temos que partilhar as preocupações com a dualidade de desenvolvimento e as assimetrias que a globalização acentua nos países perdedores, como Portugal.
Não precisamos rigorosamente nada de más notícias e algumas variações percentuais nas perspectivas do crescimento económico (como vimos nas últimas semanas entre o Governo, o INE, a OCDE ou o BdP) são, do ponto de vista económico, irrelevantes e verdadeiramente não deveriam nem ser sequer notícia.
Mas, a consciência de que a Economia pode estar a agravar o problema social é um sinal de alerta para o próprio Estado. Porque é por aqui que ele deixa de fazer sentido.
Pensar que se ganha maior governabilidade com mais empobrecimento e liquidação das capacidades críticas da Nação é ingénuo, mas pode ser a única solução que temos entre mãos e, nesse sentido, seria lamentável.
É, por isso, que a própria iniciativa do Presidente da República, quando denuncia a pobreza em Portugal, no âmbito do seu “Roteiro para a Inclusão”, não pode ser desligada desta aparente desestruturação do Estado e, sobretudo, da consciência das reduzidas expectativas para os próximos anos.
De certo modo, Belém constitui-se, mais do que como uma válvula de escape de um Regime que não tem soluções, nem oposição – e que não valoriza os seus protagonistas – como a nova referência moral de um País onde a família, a escola e a Igreja parecem ter falhado como formatadores de valores.
A própria consciência de que isto tem que ser assim, destes novos paradigmas, também políticos, deve-nos deixar ainda mais apreensivos e pode até ser perigoso no futuro. Mas, sobretudo, depois da “morte” do político, do juiz e do jornalista, torna irrelevante todas as considerações tecnocratas que se vão fazendo. É que, depois da “caridade”, já só resta Nossa Senhora de Fátima?

“PCP admite ser Governo se o povo o entender”

O PCP admite ser Governo em Portugal, se o povo português assim o entender, afirma Jerónimo de Sousa, secretário-geral dos comunistas, em entrevista ao SEMANÁRIO. Ao balizar a trajectória futura do partido, o líder do PCP fala, também, do presente, considerando, a propósito da tão falada remodelação ministerial, que a substituição de tal ou tal ministro em nada alteraria a orientação geral do Governo. “A nossa exigência é a da mudança de rumo da política nacional”, conclui Jerónimo de Sousa.

O PSD e o CDS/PP defenderam recentemente a remodelação do Governo. Será que o PCP também a preconiza?
O PSD e o CDS, para fugir à questão de fundo da necessidade de uma outra política, propõem, digamos que, o “trabalho à peça”. Como se a substituição de tal ou tal ministro alterasse a orientação geral do Governo. A nossa exigência é a da mudança de rumo da política nacional.

O Governo, cuja política tem sido bastante criticada pelo PCP, adoptou uma série de reformas estruturais que são indispensáveis à superação da crise que o País atravessa. Atendendo às críticas que fazem, poderá afirmar-se que os comunistas estão contra essas reformas estruturais?
A sua pergunta parte de um pressuposto que rejeitamos. O Governo não está a fazer reformas, está é a desencadear uma ofensiva que visa atingir os direitos dos trabalhadores e dos reformados. Usa o chavão das dificuldades das contas públicas e da sustentabilidade da Segurança Social e do Serviço Nacional de Saúde para ofender e mutilar direitos sociais e laborais. Os resultados estão à vista. A crise não só não foi superada como se instalou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, é, sem dúvida, uma das personalidades mais marcantes deste Governo. Ainda há bem pouco, a propósito de uma manchete abusiva do “Expresso”, afirmou-se cansado, não do seu trabalho, que cumpre com gosto, mas sim das constantes tropelias que a comunicação social lhe faz. Acha que a direita não perdoa ao professor Freitas do Amaral o seu deslizar para a esquerda?
Vê-se que há uma fixação obsessiva da direita, em particular do CDS, em relação a Freitas do Amaral. Mas será a Freitas do Amaral ou ao ministro dos Negócios Estrangeiros? Haverá algum ajuste de contas fulanizado, mas admito que não seja só isso. Não nos cabe a nós responder à questão.

Falamos da comunicação social. Manuel Maria Carrilho, no seu livro-bomba, lançado recentemente, chama-lhe o “polvo” e responsabiliza-a pela sua derrota em Lisboa. Considera, na realidade, que Manuel Maria Carrilho perdeu as eleições por causa dos “media”?
Não acompanho a justificação dada! Pode ter sido um factor mas não o factor determinante. O PS apresentou-se sem projecto para a cidade, politicamente descredibilizado pela sua postura de colaboração com a gestão Santana Lopes/Carmona e numa postura hegemónica recusando a experiência da coligação “Por Lisboa”. Admito que a culpa maior não foi de Manuel Maria Carrilho, mas não pode branquear a responsabilidade do PS.

Segundo o PCP, os agricultores portugueses têm sido tratados como os funcionários públicos. Ao que sei, os comunistas defendem um orçamento rectificativo para se pagarem as verbas que são devidas a esses agricultores. O PCP acha que são sempre as mesmas as vítimas da crise?
O Estado deve ser uma “pessoa de bem”. O PS teve tempo de alterar os critérios de atribuição das ajudas e não o fez. Logo deveria ter considerado o compromisso do Estado em sede do Orçamento.
O que propomos é a reparação e a resolução do problema pela via de um Orçamento Rectificativo.

Costuma fazer o contraste vivo e gritante entre os lucros astronómicos da banca portuguesa e o desemprego e a pobreza, que grassam no País. Julga que esse contraste é irremediável ou, pelo contrário, tem solução?
É chocante, eu diria quase obsceno, este fosso existente, esta injustiça na repartição da riqueza. Com outra política económica e fiscal é possível alterar este estado de coisas. Será preciso ser economista para perceber como é injusto um pequeno empresário pagar 36% de IRC e um banqueiro pagar 11 ou 12%?…

Os mais pessimistas dizem que Portugal não é viável e que, bem vistas as coisas, o melhor seria a união com a Espanha, para gáudio dos iberistas. Qual a posição do PCP sobre uma hipotética união do nosso país com a Espanha?
Temos um Estado-nação, somos um povo que construiu a sua própria história e que tem o direito de soberanamente defender a sua independência e o seu futuro colectivo. Somos contra o isolacionismo nacionalista. Defendemos uma linha de cooperação e relações abertas com todos os povos e países onde, por razões de proximidade e interdependências, se deve contar com a Espanha.

Com a eleição de Cavaco Silva para Presidente da República, previa-se, em alguns sectores, que o nosso semipresidencialismo poderia evoluir para o presidencialismo. Afinal, as contas saíram furadas e o que se está a assistir, com o estilo apagadíssimo de Cavaco em Belém, é à evolução do semipresidencialismo para o parlamentarismo. É caso para dizer, citando o nosso povo, que a vida é uma caixa de surpresas…
Há dias um “patrão dos patrões”, no meio do aplauso à política do Governo PS, avisava o seu partido (o PSD) para não fazer muito estorvo na oposição. É óbvio que tal “conselho” se estende ao actual Presidente da República que, nestes primeiros tempos, sabendo diferenciar o essencial do acessório, preferirá não o “apagamento” mas o “assentimento” com a política do Governo.

O País vive em democracia, graças ao 25 de Abril, mas a ditadura do mercado ainda não foi derrubada. As leis da oferta e da procura são soberanas e o lucro continua a ser o objectivo supremo. Por outras palavras, é o “salve-se quem puder” e a função reguladora do Estado não existe. Como é que o PCP vê esta demissão do Estado?
Há um princípio constitucional claramente subvertido: o da submissão do poder económico ao poder político. É um exercício de linguagem rebuscada falar do “mercado”. Quer dizer mercado capitalista, quer dizer capitalismo, as suas leis e objectivos designadamente a sua teoria neoliberal de menos Estado social para os trabalhadores e o povo e mais Estado para os interesses e privilégios do capital. O que acontece não é a demissão do Estado. É antes a subjugação dos governos e das suas políticas a tais ditames.

A demissão do Estado em Portugal é semelhante ao que se passa em grande parte dos outros países europeus, onde a globalização desregulada dita a sua lei e os interesses do grande capital prevalecem sobre os da esmagadora maioria das populações. A Europa da direita tem sido uma enorme desilusão…
Admito que haja desilusão entre os que acreditaram que o capitalismo era democratizável, civilizável ou até o fim da História da humanidade, e que vêem que o mundo está mais injusto, mais inseguro, menos democrático. Esta fúria em expoliar os trabalhadores e outras classes e camadas e povos inteiros, procurando recuperar todas as parcelas de domínio perdido no plano económico e social não é por “maldade”. É por razão da sua própria natureza. Lembra-se da fábula do escorpião e da rã?…

Há quem diga, com propriedade, aliás, que o País, com a nova moeda, o euro, não conseguirá sair da crise. Além de ser, em linguagem metafórica, um fato demasiado luxuoso para um pobre como Portugal, o euro é uma moeda forte e os nossos salários são baixos e, como sabe, uma coisa não joga bem com a outra. Comunga do mesmo ponto de vista?
Aquando da adesão ao euro “caiu o Carmo e a Trindade” porque alertámos para a precipitação que seria a consumação de tal acto. Hoje, passados quatro anos, aí estão os relatórios e estudos da UE a provar que fomos o país que mais perdeu. Aliás, ouvir o actual Presidente da República (então primeiro-ministro) a proclamar a necessidade de aumentar a competitividade das empresas portuguesas e saber que só com a adesão ao euro implicou uma perda de 20% de competitividade das nossas empresas, mostra que a culpa continua a morrer solteira em Portugal. Até um dos “crânios” que trabalha com Durão Barroso na Comissão admitiu a semana passada que “Lisboa pode querer deixar a Zona Euro depois de estar 20 anos sem beneficiar da moeda única”. O que seria se fôssemos nós a dizer isto…!

“Também há gente boa na política,
no dirigismo empresarial e desportivo”

A moralização da vida política em Portugal apresenta-se como tarefa inadiável. Muito recentemente, o PCP elaborou um projecto de incompatibilidades para os deputados, designadamente com a advocacia, que foi rejeitado. Acha que quem não aceitou esse projecto estava a pensar nos seus próprios interesses?
É sempre complicado ser juiz em causa própria, não? Mas para um Governo que permanentemente anda a falar do combate aos interesses corporativos e ver o seu Grupo Parlamentar a votar contra este projecto-lei do PCP retira-lhe credibilidade política.

Não lhe parece que o nosso dirigismo, a todos os níveis (o dirigismo político, o dirigismo desportivo, o dirigismo empresarial, etc.), é um dos grandes cancros do País, para não dizer o maior?
É conhecida a fragilidade endémica das classes dominantes e das suas estruturas ao longo da nossa história. Mas recuso generalizações. Também há gente boa em todas as áreas que referiu.

O PCP ainda acalenta o sonho de um dia ser Governo em Portugal?
Por que não, se o povo português assim o entender? Possivelmente tal já poderia ter acontecido se abdicássemos das nossas convicções, da forma séria de estar na política, designadamente se deixássemos cair a exigência de que uma alternativa política que conte com o PCP pressupõe uma política alternativa e de esquerda.

Uma vez no Governo, qual seria a primeira decisão do PCP? Erradicar a pobreza e o desemprego? Denunciar o compromisso de Portugal com a NATO? Retirar o País da União Europeia? Fazer com que houvesse mais justiça social?
Num quadro geral de defesa e concretização das vertentes política, económica, social e cultural e de um Portugal soberano que conforma o nosso regime democrático, haveria que considerar o problema da economia nacional. Promovendo uma política que defendesse o nosso aparelho produtivo e a produção nacional, com elevação do seu perfil e do emprego, que incentivasse o crescimento, que valorizasse o trabalho com direitos, abandonando o modelo esgotado dos baixos salários.
Simões Ilharco