2022/11/27

O ultimato à Alemanhapor Rui Teixeira Santos

A carta de sete líderes europeus, chamando à responsabilidade o Conselho de Segurança das Nações Unidas, é muito mais que uma declaração de apoio às posições americanas sobre o Iraque.

É verdadeiramente um ultimato à Alemanha e sobretudo marca o fim desta Europa construída a partir dos equilíbrios da guerra fria. Portugal volta ao seu destino atlantista, depois da oportunista opção continental, que nos valeu milhões de contos em fundos e transferências ao abrigo da adesão e em nome da coesão.

Depois da China e da Rússia terem dado o seu apoio aos EUA, se porventura a França e a Alemanha votassem no Conselho de Segurança contra o mandato aos EUA para invadir o Iraque, estariam não só a excluir-se do saque que se seguirá, mas sobretudo acabariam de vez com as Nações Unidas e com a ideia da existência de um direito internacional, acima dos Estados e que limitaria o poder do império.

É claro, desde o início deste processo, que a América está disponível para assumir o papel de “imperador no mundo”, levando isso às últimas consequências. E o que mais surpreende é que a Europa continental não perceba que, com a sua oposição, só prejudica a sua relevância no mundo e nas relações internacionais.

A América, ao imergir como uma única potência mundial, após a guerra fria, é da sua própria natureza, teria sempre que tentar os limites, na defesa dos seus interesses estratégicos e de segurança. Dizer não à América pode, num primeiro momento, servir para negociar contrapartidas.

Dizer não definitivamente significava enterrar o “nado morto” que são as Nações Unidas que, mal ou bem, vão sendo um fórum para resolver e gerir os conflitos menores na comunidade internacional.

Seja qual for a posição da Alemanha, ela já perdeu, sem ter saboreado o gosto da desforra de três guerras em que foi humilhada. Se votar a favor da América no Conselho de Segurança dá o dito por não dito e aparece desacreditada politicamente, mas se votar contra, passa a ser irrelevante, porque a América vai mesmo para a guerra e modificará para sempre o mapa do mundo. Deve ser desesperante ser alemão e nunca ter tido razão, desde o fim do Sacro-Império.

O nacionalismo prussiano e a sua pax continental nunca resultaram na Europa. Foram sempre as potências marítimas que lograram levar vantagem. E, agora, que a Alemanha estava quase a conseguir, com a “Europa do Directório”, e o euro forte, que só valoriza a sua ourivesaria industrial e obriga a sua indústria intermédia a colonizar a sua quinta no leste europeu, a América vem colocar tudo em causa.

Consciente que o ultimato, mais do que sobre o Iraque é mesmo sobre a Europa, e consciente que a Europa está nesta situação de dependência porque, em vez de se armar e de ter uma política de defesa e segurança, preferiu andar a sustentar o inviável Estado social, com pensões e sistemas de Segurança Social, saúde e educação que a América jamais terá, a França, qual aldeia gaulesa, já se prepara para contemporizar, pedindo apenas que existam provas, que a América as mostre.

O pragmatismo latino dos franceses é uma herança gaulesa, que Júlio César já havia observado.

O alinhamento português com a potência marítima dominante é talvez a maior constante da nossa história diplomática. E esgotado o saque à Europa da União Europeia era normal que a nossa diplomacia voltasse à lógica tradicional, independentemente de Barroso vir de Georgetown, de Martins da Cruz ser um iberista e de Paulo Portas ser um produto da herança pró-americana da “escola SEMANÁRIO”.

Proposta cultural

Mas, porque o papel da Europa é sobretudo necessário após a intervenção, a nossa resposta deveria ser uma resposta cultural. Pode não se gostar de Manuel Maria Carrilho, mas, esta semana, na RTP2, o ex-ministro da Cultura de António Guterres, mesmo sem preocupação de enquadramento, deu a resposta adequada, quando disse que Portugal deveria aproveitar a popularidade de Lula da Silva, e reunir nesta altura o consenso dos países da CPLP.

Mas a resposta cultural pode bem ser a ideologia do pós-Iraque, para a reconstrução do “mare nostrum”, como área de paz e cooperação, que mil anos de Império Romano asseguraram.

Há um património cultural de afirmação do direito e da personalidade humana, que se traduz na herança greco-latina e que está incorporado também no ecumenismo e na tolerância judaico-cristã, que pode servir de base a um novo entendimento euro-mediterrânico, eventualmente com o alargamento da União Europeia aos países árabes, ou, pelo menos, com um acordo inicial de livre comércio e circulação, que deve a ser a base para controlar a inevitável explosão de ódio antiocidental no mundo islâmico, a sucessão de quedas de regimes moderados, a fazer lembrar o colapso da ex-União Soviética.

Vai ser necessária a Coca-Cola e o Mac, como o foi na Rússia, e também a ajuda económica e os medicamentos, para além da liberdade, que George Bush, místico, proclama ser uma dádiva de Deus.

Só quando a Europa foi germânica e eslava, só quando o Sacro-Império controlava a cristandade é que o integrismo católico levou à intolerância e às cruzadas, de que o último exemplo foi o louco rei D. Sebastião, morto em Alcácer Quibir, como mártir da cristandade, em luta contra o grande turco e louvado, na literatura alemã do século XVI, como o exemplo máximo da devoção cristã.

Pela terceira vez, agora, a América vem ajudar a Europa a colocar a Alemanha no seu sítio. Mais uma dívida, depois de duas guerras mundiais. Ainda, há duas semanas, a Alemanha alimentava o senho imperial de Bismark. A obstinação prussiana desfez o sonho e reconduz a Alemanha ao seu isolamento tradicional.

Agradecemos todos não ser necessário dividir o saque com eles…

O regresso da política

A segunda reflexão, que é urgente, tem a ver com a natureza deste conflito. É evidente que, sejam qual forem as provas que Collin Powell apresente, elas serão sempre “evidentes e suficientes” para justificar o que à partida está justificado. Não faz sentido, portanto, a argumentação de Freitas do Amaral, como se verá na próxima semana.

É uma questão de marketing político e necessidade dos Aliados, condição de sobrevivência dos equilíbrios mundiais, apesar de tudo, a primeira razão do Direito Internacional.

O problema da esquerda pacifista é que não percebe que o que está em causa não é a paz ou a guerra, mas sim a inacção ou a acção contra o Iraque. O Iraque não é uma guerra privada da família Bush. É, sobretudo, um Estado hostil ao império, que preventivamente se defende e que aproveita para redesenhar o Mapa do Petróleo, arma decisiva para controlar os mercados gigantescos da Ásia e do Pacífico, vitais para a América, mas também para o Ocidente.

Independentemente das razões de Durão Barroso, que em três dias conseguiu ter três posições diferentes sobre o mesmo assunto, variando aparentemente consoante a latitude, a posição final do governo português é aquela que é mais adequada para Portugal.

O país começava a ficar asfixiado com esta Europa de contabilistas medíocres e de recrutas prussianos. O fim dela é uma boa notícia. Ferreira Leite e o Pacto de Estabilidade e Crescimento acabam com ela. Regressa a política e com ela a tolerância latina.

Graças a Deus e à América de Bush…

A esperança venceu o medopor Ilda Figueiredo

Foi neste novo Brasil, onde a esperança venceu o medo e o Governo de Lula dá os seus primeiros passos, que se realizou, pelo terceiro ano consecutivo, o Fórum Social Mundial.

Foi neste novo Brasil, onde a esperança venceu o medo e o Governo de Lula dá os seus primeiros passos, que se realizou, pelo terceiro ano consecutivo, o Fórum Social Mundial, a que estão agregados outros eventos, designadamente o Fórum Parlamentar Mundial, em que tenho participado desde o início.

Como se sentiu bem durante todas as actividades em Porto Alegre, o triunfo de Lula representa para milhões de homens e mulheres do Brasil, da América Latina e do mundo, a esperança de se concretizar um novo modelo de governo e de desenvolvimento económico e social que prioriza a inclusão social, como ficou bem claro na forma como dezenas de milhares de pessoas reagiram ao discurso que proferiu no gigantesco auditório ao ar livre, perante muitas dezenas de milhares de pessoas, onde também explicou as razões da sua ida a Davos, dando igualmente destaque à mobilização na luta pela defesa da paz, contra a guerra.

Registe-se que este terceiro Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul, que agrega muitos outros fóruns, foi o mais participado, reunindo na manifestação de abertura mais de 140 mil pessoas, de 121 países, com grande destaque para a juventude, em cujo acampamento estavam cerca de 30 mil jovens.

Neste espaço aberto e de encontro para o aprofundamento da reflexão e debate democrático de ideias, realizaram-se trocas de experiências e formularam-se propostas de articulação de acções eficazes de entidades e movimentos que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital financeiro e por qualquer forma de imperialismo.

Partindo do princípio de que um outro mundo é possível, o objectivo é trabalhar para a construção de uma sociedade humanizada, que dê prioridade às pessoas, ao respeito dos direitos humanos universais, ao desenvolvimento sustentado, apoiado em sistemas e instituições democráticas, ao serviço da justiça social, da igualdade, da soberania dos povos e da paz.

A luta contra a guerra teve destaque privilegiado neste terceiro fórum, incluindo no que reuniu deputados de dezenas de países. Como se diz na resolução sobre a rede parlamentar internacional e suas actividades, que tive a honra de apresentar, a primeira urgência é agir sem demora para evitar a guerra no Iraque e pôr fim à ocupação israelita nos territórios palestinianos.

Foi neste contexto que se propôs apelar à mobilização das manifestações de 15 de Fevereiro e formar diferentes delegações parlamentares que viajem ao Iraque, dentro das próximas semanas, com base numa oposição radical à guerra e solidariedade ao povo iraquiano, vítima do bloqueio económico e da ameaça militar da Administração americana, sem que isso signifique qualquer apoio ao regime do Iraque.

Uma delegação de deputados do Parlamento Europeu, nos quais se incluem os dois deputados comunistas portugueses, partirá para o Iraque no próximo dia 2 de Fevereiro. É preciso parar a guerra antes que comece.