2022/08/12

Confronto Júdice/Barroso e redução do défice dividem PSD

O confronto entre José Miguel Júdice e Durão Barroso no início do ano judicial indicia que pode haver algo mais que o estado da justiça em Portugal, entre os dois. Se Barroso não mudar rapidamente, Júdice poderia ser a solução interna alternativa dentro do próprio PSD, admite-se já nas elites dos partidos da maioria.

Mas ao SEMANÁRIO o bastonário desmente totalmente o cenário: “Se quisesse ser primeiro-ministro, dizia-o claramente. Mas não quero.

Está completamente fora de questão.” O certo, porém, é que Pinto da Costa diz o que quer sobre o futebol e Durão Barroso não se insurge, enquanto, quando José Miguel Júdice fala da justiça, o primeiro-ministro indigna-se e responde à letra.

Mas o novo desta semana é que no PSD continua a existir uma elite que diz o que pensa, mesmo não querendo colocar em causa o governo de centro-direita.

Esta semana a tensão começou a subir dentro da maioria e no seio do PSD, com a elite pensante do partido a distanciar-se da acção governativa e o PSD a dizer que Manuela Ferreira Leite exagerou na terapia de choque, agravando a crise económica. Ao mesmo tempo o primeiro-ministro e a ministra das Finanças contradizem-se nos números, enquanto Carlos Tavares partia para Davos, à procura de investimento estrangeiro.

Contradição entre Barroso e Ferreira Leite

Portugal teve um dos crescimentos mais baixos da União Europeia, devendo ficar mesmo abaixo dos 0,4%. E a culpa, a ser verdade que o défice ficou apenas em 2,1%, já nem é de Guterres, mas da incompetência da equipa das finanças que tirou mais de 400 milhões de contos à economia do que aquilo que era necessário, provocando falências, salários em atraso, numa irresponsável espiral de insensibilidade social, que está a criar a maior crispação dentro do PSD, dado o conflito social emergente, sem o acordo com os sindicatos da Função Pública.

Acresce a isso a contradição dos números dentro do governo, com Manuela Ferreira Leite a falar em 2,1% do PIB de défice em 2002 e Durão Barroso a falar em 2,6%, numa entrevista ao “Financial Times” ontem publicada em Londres.

Mas, os primeiros sinais de crise dentro da maioria governamental não se ficam por aí. O confronto mais significativo deu-se esta semana, na sequência do pedido de mais recursos para combate à corrupção na classe política, com o bastonário da Ordem dos Advogados a acusar o governo de Barroso de não estar a fazer a reforma do Estado e de continuar a patrocinar desperdícios, com, por exemplo, contratações milionárias.

José Miguel Júdice pronunciava-se na abertura do ano judicial, na cara do primeiro-ministro, assumindo pela primeira vez o confronto directo e pedindo mais dinheiro para a Justiça. Indignado com a atitude do militante do PSD, cujo prestígio só tem aumentado com a sua prestação à frente da Ordem dos Advogados, Barroso perdeu a sua normal compostura consensual e num acto, classificado por alguns advogados e magistrados presentes na cerimónia como de confronto e arrogância, disse preto no branco que não são os “lobbies” nem os grupos de interesses que decidem as políticas orçamentais do governo.

Cada um em seu sítio, noutras circunstâncias, só com a “nuance” do Governo ir apenas com dez meses de mandato e de José Miguel Júdice ser um dos militantes de referência do PSD, patrono de Nuno Morais Sarmento, o ministro da Presidência, e de agora institucionalmente juntar a sua voz crítica aos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa, Pacheco Pereira e de Duarte Lima.

Em declarações ao SEMANÁRIO, o bastonário da Ordem dos Advogados, que também já havia sido dado como candidato à liderança do PSD antes de Marcelo Rebelo de Sousa, desvaloriza totalmente o alegado “confronto”, dizendo mesmo que não fazem sentido as declarações de Durão Barroso, até porque ele não havia pedido nada, nem um tostão para os advogados.

“Deixem-me em paz”, remata Júdice, para quem a política actualmente em Portugal tem pouco interesse, nos termos em que se faz.

Mas, no seio da maioria comenta-se que, ao perder o apoio de José Miguel Júdice, com um confronto tão deselegante, o primeiro-ministro abre publicamente um conflito com as franjas mais dinâmicas do PSD, exactamente aquelas que pensam e que não precisam nem querem os “jobs for the boys” ou os lugares nos gabinetes ministeriais, ou as negociatas mais ou menos corruptas que o regime vai permitindo.

Esta nova situação à direita, diz-se nos bastidores, em tudo equivalente àquela que Guterres enfrentou no quinto ano do seu mandato, tem contudo a diferença de José Miguel Júdice ter uma influência e um peso social no País e no eleitorado do PSD, que nunca Manuel Maria Carrilho ou Sá Fernandes tiveram na família socialista.

Nada que Barroso já não previsse, adivinhando mesmo a estratégia da esquerda, com quem vai fazendo acordos de regime (como ainda ontem sobre a posição nacional sobre a reforma institucional da União Europeia, acordada no encontro em S. Bento com o líder do PS Ferro Rodrigues), admitindo há muito que a verdadeira oposição ao barrosismo estava dentro do PSD.

O erro de Ferreira Leite

Por seu lado, Ferreira Leite tinha-se comprometido com Bruxelas a baixar o défice para 2,8% em 2002, embora a Comissão aceitasse que o défice ficasse em 3,4%, aliás como a OCDE, que entretanto já tinham louvado as medidas de contenção e reestruturação no Estado. Ferreira Leite enganou-se nas contas e puxou o défice para 2,1%, o que nos obriga em 2003 a ficar em 1,6%.

Este irreflectido acto da ministra das Finanças custou à economia portuguesa mais 400 milhões de contos, o que significa que, para cerca de 4 milhões de população activa, os trabalhadores portugueses deram ao Estado mais cem contos no último trimestre de 2002, do que aquilo que era necessário.

A desorientação do Ministério das Finanças traduz menos a razoabilidade dos propósitos enunciados pela ministra das Finanças e mais a impossibilidade de se confiar nos números do Estado. O Partido Socialista destruiu o Ministério das Finanças, com a passagem de Pina Moura por lá, e Ferreira Leite só poderia confiar na sua intuição, porquanto, para dar o exemplo, não foi capaz de se rodear de técnicos competentes no seu gabinete para substituir as insuficiências ou as suspeitas de manipulação por parte dos funcionários do ministério.

Objectivos correctos

E como o objectivo era voltar a fazer a comunidade internacional acreditar nos números do Governo e no controlo orçamental, Ferreira Leite preferiu não correr riscos do ponto de vista da contabilidade pública e a meias com Nuno Morais Sarmento, já que a sua equipa é, “não só incompetente, mas manifestamente incapaz do ponto de vista político”, avançou com cautelas adicionais.

Desde o aumento dos impostos indirectos, como o IVA e o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos, até à venda de património, como a Falagueira, as empresas da liquidação do IPE, imóveis públicos e a rede fixa de telefones, passando pelo recebimento antecipado das receitas das portagens da CREL, intempestivamente introduzidas desde o dia 1 de Janeiro deste ano, Ferreira Leite acabou por ir buscar ao bolso dos portugueses mais de 1,5 mil milhões de euros (se o défice fosse de 3,4%, como previa a EU ainda em Dezembro), ou 700 milhões, se o défice fosse de 2,8% (como Portugal se havia comprometido), o que representa a medida de uma crise social, evitável, e da contaminação da economia, com a crise orçamental do Estado.

Ainda por cima, estas restrições não foram acompanhadas por medidas económicas de relançamento da economia, de acordo com a estratégia de Durão Barroso, contrária ao “choque fiscal” de Tavares, Frasquilho e Cadilhe, muito embora o Ministério da Economia se tenha esforçado por anunciar para 2006, com a redução do IRC para 20%, um dos quadros fiscais mais competitivos da Europa e esteja, com a reestruturação da API e do IAPMEI, a tentar criar um novo quadro institucional estável para as empresas e amigo do investimento.

Para o núcleo duro do primeiro-ministro, o horizonte de governação é o de duas legislaturas. O próprio Barroso não esconde que gosta de governar a prazo. Na primeira legislatura aperta-se para que depois na segunda se possa abrir. Ferreira Leite já foi dizendo que os esforços vão ser mantidos até 2006, ano em que o País deverá começar de novo a convergir com o nível médio da actual União Europeia. Essa opção traduz aliás as perspectivas do plano de estabilidade e crescimento, aprovado com a abstenção do PS na semana passada, no Parlamento, e que Ferreira Leite deverá apresentar na próxima reunião do Ecofin.

É aliás essa a razão por que Ferreira Leite adiou a apresentação do PEC, que chegou a estar prevista para esta semana.

No PSD como com o guterrismo

A estratégia seguida pela ministra era a única possível, depois do descalabro irresponsável dos socialistas. E conscientes disso mesmo, o PS tem-se abstido de fazer oposição, acreditando que serão as “contradições internas da própria maioria que acabarão por deitar abaixo o executivo, tal como aconteceu ao guterrismo”.

E nesse momento, quem lá estiver, será o primeiro-ministro, como aconteceu com Durão Barroso. Mas ao contrário de Barroso, o PS de Ferro Rodrigues nisso aproxima-se mais do PSD de Marcelo Rebelo de Sousa, os socialistas estão dispostos a viabilizar as grandes reformas necessárias e impostas pela União Europeia, mesmo a deixar o exagero da contenção de Ferreira Leite, para que o ónus fique todo para o PSD, que, naturalmente, se chegar ao fim desta legislatura, não conseguirá certamente ganhar a próxima.

Esta percepção do PS começa a ganhar adeptos dentro do próprio PSD, e percebendo a tempestade que aí vem, o próprio Paulo Portas já anunciou que aproveitará para afirmar a autonomia do CDS/PP no próximo congresso de Março, face ao parceiro da coligação. Por seu turno, Durão Barroso, já na última reunião da Comissão Política Nacional, tinha pedido aos eleitos e sobretudo às distritais que se abstivessem de críticas e que o que tivessem a dizer o dissessem pessoalmente ao primeiro-ministro. Mas o tiro em Júdice acabou por denunciar o mal-estar, muito para além das antigas hostes marcelistas.

As escolhas de Barroso

Barroso tem agora poucas escolhas, que se tornarão cada vez mais limitadas com o decurso do tempo. O código laboral proposto por Bagão Félix, mesmo com o acordo da CIP e da UGT, vem alargar o âmbito de responsabilização dos gestores, que passam a ser solidários no pagamento de salários, tal como já antes o eram nos impostos, Segurança Social e naturalmente no crédito bancário, normalmente avalizado pessoal, o que destrói o princípio da autonomia patrimonial e o princípio da personalidade jurídica das sociedades comerciais, princípio basilar do capitalismo, assim como a solução neocorporativa da sociedade civil para a RTP2 foram duas reformas onde emerge, por parte do Governo de Durão Barroso, uma desconfiança quase sistemática da classe empresarial e das profissões liberais em fase de empresariarização, atingindo directamente a base social de apoio do PSD, sem que daí decorra benefício algum para a economia, já que torna menos atractivo o investimento em Portugal.

O próprio processo das privatizações, tão aberto ao mercado espanhol, e o adiamento das medidas de relançamento da economia, bem como a confusão institucional à volta da gestão da imagem de Portugal no estrangeiro, deixam alguma perplexidade no centro-direita, obrigando o primeiro-ministro a uma rápida revisão.

Júdice como alternativa no espaço do centro-direita

Porque se Durão Barroso não mudar nos próximos meses o rumo do executivo, dentro do PSD as críticas das franjas poderão emergir nas distritais e na própria Comissão Política escolhida pelo primeiro-ministro. E neste caso, José Miguel Júdice pode aparecer como uma alternativa válida, dentro do PSD, ao próprio primeiro-ministro Durão Barroso.

Com a credibilidade e capacidade política que o País lhe reconhece, José Miguel Júdice, depois da Ordem dos Advogados, poderá ser a solução de liderança do PSD, caso Barroso não vá a tempo de mudar a sua estratégia e, agora, já, a sua equipa, a tempo de dar um novo impulso ao Governo, começa a circular dentro do PSD, sobretudo esta semana, depois do confronto público entre os dois, onde ficou claro que não era apenas a Justiça que estava em causa, pelo menos para o primeiro-ministro.

Como José Miguel Júdice gosta de dizer, “o primeiro milho é para os pardais”. E depois de algum distanciamento público, José Miguel Júdice pode bem ser o primeiro-ministro de um Durão Barroso decidido a ser candidato a Presidente da República, chega-se mesmo a admitir em alguns bares políticos da moda.

Júdice demarca-se

Mas “José Miguel Júdice é como aquelas mulheres sérias que gostam de ser seduzidas mas não passam os limites”, ou seja, embora tenha deixado esta semana progredir as conversas nos bastidores, disse ontem, preto no branco ao SEMANÁRIO, que esse cenário estava totalmente fora dos seus horizontes e que o actual primeiro-ministro era mesmo o menor destinatário das críticas da Ordem dos Advogados ao poder político, relativamente à falta de prioridade à Justiça, até porque está lá há pouco mais de seis meses.

E quanto à reacção de Barroso, o bastonário foi cáustico: “Ele está habituado a falar com sindicalistas. Eu não pedi nada, nem um tostão para os advogados, pelo que não faz sentido o que ele disse.” Mas José Miguel Júdice avança também para o elogio do executivo: “Barroso até tem feito alguns cortes importantes na despesa pública.”

Em jeito de graça, o bastonário lembrou que outros já disseram que ele estava a ganhar espaço para ser candidato presidencial, ao que teria respondido que, com “barba não se chega a Presidente da República”. Só que a evidência de Júdice também já não é verdadeira: Lula da Silva tem barba e é presidente…

Barroso não teme contestação inorgânica e recusa remodelação

O núcleo duro de Durão Barroso, que entretanto foi de férias para o Brasil, não teme agitação social inorgânica por causa das medidas e reformas de impacto social que, apesar da crise económica, teve de tomar e prosseguirá em 2003.

É a primeira resposta às preocupações de Pacheco Pereira que recentemente chamava a atenção para tal possibilidade e que seriam retomadas nos discursos pantanosos do Presidente da Republica e do Cardeal Patriarca de Lisboa, nas suas mensagens de Ano Novo.

Meios do PSD consideram que não há condições sociais, nem capacidade critica na sociedade portuguesa para que, no desespero do aperto e da crise económica, com o ciclo de crescimento do desemprego, possam vir a ocorrer manifestações e protestos inorgânicos que coloquem em causa o executivo e obriguem á antecipação das eleições.

Bem pelo contrario, o núcleu duro da governação pretende que o actual executivo se mantenha sem nenhuma remodelação em funções até pelo menos o meio do mandato legislativo, ou seja até março de 2004, altura em que a coligação no poder tem que se começar a preocupar com as legislativas de 2006.

Protestos na CREL

Em marcha lenta e com apelos ao businão que hoje se deverão fazer sentir na CREL e com caravanas organizadas pelo PS e pelo PCP de Loures e oeiras programadas para atrasar o transito na CREL na próxima segunda feira, a Brisa iniciou a cobrança das portagens na principal via de acesso á capital, tendo antecipadamente pagop ao executivo de Durão Barroso mais de 250 milhões de euros pela concessão.

É o fim do sonho das auto-estradas sem portagens, incomportaveis para o Orçamento de Estado, intrioduzsido intempestivament com culpas para o pacto de Estabilidade e Crescimento e numa altura em que o contribuinte interioriza, quase com complexo de culpa, que a situação das finanças publicas tem que ser corriguida e que terão que ser os portuigueses a pagar, depois da irresponsavel euforia socialista.

Como guardião dessa necessidade imposta por Bruxelas, o proprio presidente da Republica elegeu comno prioridade para o corrente ano o concenso entre os parceiros sociais e o discurso á volta do combate à fraude e evasão fiscaais e o regramento na despesa publica.

Apelos feitos na mensagem de Ano Novo e repetidos pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, que surpreendentemente tambem optou pela defesa dos cobradores de impostos, apesar de consciente da injustiça da lei fiscal e do facto desse nem ser o principal problema das finanças publicas portuguesas ou da economia nacional.

Verdadeira comissário de bruxelas em Lisboa, o presidente da republica está preocupado com o facto da falta de autoridade dominante no país e pela desag5regação dos velhos poderes e instituições formatadores de valores e que enquadravam os protestos sociais.

Nem os partidos políticos nem mesmo os sindicatos, como ficou demonstrado na Greve geral dea CGTP-IN têm hoje capacidade para liderar mobvimentos sociais, pelo que existe o perigo do descontentamento virar revcolta inorgânica o que pode colocar em causa a esytabilidade social e politica, a ultima coisa que o presidente gostaria de ter que enfrentar em Portugal, sobretudo nesta fase de crise economica.

Cardeal paga nova concordata

Já do lado da Igreja a posição do Cardeal Patriarca tem razões diversas. A Igreja tem consciencia que as receitas fiscais aumentaram a uma média de 10% ao ano, na ultima década e que apesar do abrandamento económico do ano de 2002, Manuel Ferreira Leite sacou mais de sete por cento em receitas fiscais aos portugueses em nome do cumprimento de objectivos de estabilidade orçamental e redução do défice do Estado, que nem sequer Bruxelas exigia, o que prova que actualmente a evasão fiscal não é um problema em Portugal.

A Igreja Católica tem consciencia que a ultrapassagem do objectivo do défice dos 2,8% com as negocios da CREL, da rede fixa de telefones PT e do desmantelamento do IPE, embora sirvam politicamente a ministra das Finanças, reduzem a margem de manobra do país em 2003 e prejudicam gravemente a economia nacional e o bem estar dos portugueses.

O Cardeal Patriarca de Lisboa sabe bem que o discurso do combate à fraude e evasão fiscal, nos termos em que os colocou, na sua homilia da Ano Novo, exactamente, nos termos como a esquerda o equaciona em Portugal, é uma questão ideológica e traduz actualmente o mesmo tipo de raciocínio marxista da luta de classes, que os cristãos não podem tolerar e que nada tem que ver com a justiça social.

Ainda por cima a Igreja é a maior beneficiária da isencão fiscal em Portugal, materia objecto de alargamento na nova Concordata que aguarda homologação no Vaticano.

As razões do apoio expresso ao governo e do discurso da igreja, neste concenso nacional `*a volta do governo de Durão barroso, na redição do bloco Central, prendem-se aliás com as mesmas razões que levam um governo de direita a não criticar a fobia introduzida no discurso politico dos socialistas com Pina Moura, durante o guterrismmo, e que se transformou na grande bandeira da luta de classes protagonizadas por Carbvalho da Silva.

Considerando que a esquerda está politicamente morta e sem capavcidade para fazer mobilizações significatriovas, até porque é a culpada do estado de coisas, como barroso e Ferreira leite fazem questão de lembrar, as clivagens a fazer devem ser no sentido das reformas preconizadas no programa eleitoral do PSD e do governo da Convergencuia democrática, não só sofragados em eleições mas sobretudo refletindo as directrizes de Bruxelas a que Portugal está humilhantemente subordinado.

Ou seja, quer a Igreja quer o governo consideram que não há razões para não ultrapassar a esquerda atraves do seu próprio discurso, usando de um maquiavelico procedimento que visa secar ideologicamente a esquerda, ao mesmo tempo que o “pântano” do Bloco Central retira espaço de contestação e compromete toda a classe politica, com o designio nacional de cumprir á risca as ordens de Bruxelas, que os grandes países da Europa não vão cumprir.

Acresce que o facto da UGT estar em perigo em face de uma eventual nova cisão no movimento sindical, caso avance para uma greve geral, torna mais fácil o acordo em materia de leis laborais. Percebendo exactamente isso, e para que aos olhos da opinião pública o acordo no pacote laboral não surja como uma cedencia dos sindicatos ao governo concervador de Barroso, mas como uma resposta da sociedade aos apelos de concenso e boa governação feitos pelo presidente da Republica, este acentuou na sua mensagem da ano novo a componente do concenso nacional à volta das grandes reformas de impacto social.

Contestação será sempre urbana

Quem percebeu tambem o caminho que as coisas podem levar foi o presidente da Camara de Lisboa, Santana Lopes, que vem secundando o governo, nas medidas mais draconianas que Barroso tem defendido para a redução do défice. Santana sabe que a haver contestação ela terá que acontecer apenas nas zonas urbanas e que o facto de terem desaparecido os formatadores nacionais tradicionais vai criar novas pressões sobre os municipios de Lisboa e Porto.

Consciente que os problemas da produtividade nacional não são passíveis de resolução enquanto se mantiverem os actuais níveis de imigração, mas que esta é necessária para adiar a falencia da Segurança Social e imprescindível para manter o actual nível programado de obras públicas e construção civil, as opções dos municípios não são grandes.

Acresce que apesar da quebra do investimento, a poupança dos portugueses está a aumentar e o investimento de refugio que continuam a seguir continua a ser o imobiliário pelo que é de admitir não só a persistência da bolha especulativa imobiliária em Lisboa, como ainda a pressão do aumento da construção, onde exactamente são necessários os trabalhadores de leste.

Igualmente, resistindo à crise, o sector do turismo e restauração, com um aumento de receitas de mais de 2 por cento em 2002, justifica o emprego de mão de obra estrangeira. Razões de sobra para novas preocupações sociais dos autarcas das regiões metropolitanas, que vêm com apreensão a possibilidade de aumento da criminalidade.

O contributo do governo nesta àrea foi mesmo dado por Morais Sarmento, com a sua ideológica definição do serviço publico de Televisão. Depois das manobras para a distração dos portugueses á volta do aumento dos Impostos, Morais sarmento acabou por perceber o obvio: que, neste estado de coisas, o Estado não pode abdicar do serviço Publico de Televisão e portanto da RTP para fazer propagnada do politicamente correcto e dos seus valores e prioridades.

Morais Sarmento foi longe demais ficando com todo o mercado na mão, ao dar a RTP 2 à Igreja e á Portugal Telecom/Joaquim Oliveira e ao aceitar a dação em pagamento em serviço publico das dívidas dos TVs privadas ao Estado.

Entre a acção social das autarquias no terreno, a propaganda nas televisões, o subsidio de desemprego e as pensões para os desempregados e reformados antecipados, e, finalmente, o silencio conivente e auto sensório da oposição e dos jornalistas, Durão Barroso pode mesmo avançar neste periodo de grave crise economica e ajustamento estrutural da economia portuguesa, com reformas de impacto social ao arrepio da doutrrina economica. Mais uma originalidade portuguesa, a marcar este primeiro mandato de Durão Barroso.

Esta é a 1000ª edição do SEMANÁRIO

Raras vezes o jornal é a própria noticia do jornal. Mas fazemos hoje o nosso milénio. Mil semanas depois sem interrupção, com altos e baixos, sabemos fazer parte do património de um país, umas vezes soubemos ser decisivos, outras fomos simplesmente irrelevantes.

Mas existimos, ao lado da história do país, emitindo opiniões, informando e criticando, com a generosidade de quem acredita que os portugueses podem viver num mundo melhor. Avançamos com esta 1000ª edição do SEMANÁRIO, com os problemas que nos afectaram nos ultimos quatro anos ultrapassados e com a certeza de que com a experiencia adquirida saberemos enfrentar as proximas 1000 edições.

Não se comemoram mil edições sem uma homenagem aos principais fundadores, com Marcelo Rebelo de Sousa, Victor da Cunha Rego, José Miguel Judice, Daniel Proença de Carvalho, Carlos Barbosa e Francisco Sarsfield Cabral à cabeça. Não se comemoram mil edições sem lembrar os nomes dos directores que se responsabilizaram pelos jornais: Victor da Cunha Rego, João Amaral, José Mendonça da Cruz, Alvaro Mendonça e Raul Vaz. Não se comemoram mil edições sem nos lembrarmos dos que já não estão connosco: Cunha Rego e Carlos Plantier.

Financiado por um grupo de empresarios, no inicio dos anos oitenta, o Semanário rapidamente se tornou numa referência politica e tambem na informação económica, prestigiando a afirmação da iniciativa dos empresários e da sociedade civil, que então renascia depois do gonçalvismo a ter quase extinto. Socialmente em 1986 lançamos a OLÁ, com o objectivo politico de dizer ao país que existia uma elite, que devia ser conhecida e que isso era bom para portugal.

Esgotado o projecto politico do Semanário, com o cavaquismo, haveriam de passar mais de dez anos para que o jornal voltasse a fazer sentido na critica á irresponsabilidade e à corrupção no governo socialista.

A perseguição politica do governo de Guterres e a tentativa da universidade moderna, por um lado e dos socialista, por outro, para tomarem por dentro o controlo do Jornal acabariam por conduzir á falência da sociedade editora. Esta semana foi o leilão dos activos e do titulo do jornal, tendo este sido arrematado pelo banco Efisa e pela Semanário Revistas, conformo acordo estipulado entre ambos. Com,o espaço de liberdade o SEMANARIO saberá manter a sua independência diante do poder politico e económico.

Será sempre livre o seu espaço de opinião embora mantenha uma linha editorial fortemente orientada para a intrervenção politica, expressando prioritariamente a ideologia e os valores do centro-direita, como espaço intelectual e de cultura que nunca deixou de ser. É que com a esperança que agora pode renascer no país, tambem há espaço para uma direita inteligente.

Mil semanas de História

Foram as mil semanas em que se cumpriu o projecto europeu dos portugueses. Em 1983, o bloco Central estava a fazer os ajustamentos necessários na economia Portuguesa para a adesão de Portugal á União Europeia.

O SEMANARIO surgia como uma voz critica do bloco central, em nome da alternancia democrática e reunia com isso a opinião plural de todos aqueles que acreditavam na democracia.

Mário Soares dirijia uma coligação, cujo ultimo acto serioa o da propria adesão á CEE. Feito o ajustamento, com o acordo copm o FMI, portugal iria nos anos seguintes ver imergir as maioprias da Cavaco Silva e depois o govern o de Guterres.

O SEMANÁRIO fez todo o trabalho de oposição, mas seria cavaco a sentar-se no Poder. O Cavaquismo não representa nenhuma inovação ideológica, mas é a continuidade natural do bloco Central, naquilo que de estruturante ele definiu para portugal, ou seja o caminho da afirmação neo-liberal da economia e da sociedade, da estabilização democrática e do respeito pela livre iniciativa, nos termos em que a Europa os defendia.

O ciclo do Cavaquismo estava contudo esgotado ao fim de seis anos. O pragmatismo inicial dava lugar á arrogância e esta à intolerância, à corrupção e à crispação na sociedade Civil. Mário Soares que entretanto sucedera ao esfingico Eanes, o inspirador do Partido Renovador, que fracturaria a familia socialista e com isso permitira a ascensão ao poder da direita, faria um segundo mandato fortemenete interventor, transformnando Belém na verdeira força de oposição ao Governo de centro-direita.

Foi um periodo em que a economia portuguesa CONVERGIU COM A Europa, de bom governo e fuindos comunitarios que garantiram aos portugueses a esperança de estar no pelotão da frente da Europa.

O excesso e o desgaste, dariam em 1995 lugar ao Guterrismo. A direita desistira, acreditando que vinham aí temmpos difíceis, e que competiria ao PS a gestão do ciclo negativo. Mas, Guterres, à custa do aumento do endividamento externo, manteve o sobreaquecimento na economia, na esperança que a crise internacional passasse. Tornou-se irresponsável o endividamento externo portugues e incontrolável a despesa do Estado. Cercado e percebendo o excesso da sua politica social, com o dialogo esgotado, Guterres acaba por fugir, deixando a esquerda desamparada entregue ao sucessor de Mário Soares, Jorge Sampaio.

Enquanto o PS virava à esquerda, para cobrir o PCP, e o sentido da bipolarização se acentuava na política portuguesa, a convocação de eleições gerais antecipadas traria de novo o centro-direita ao Poder.

O ciclo das últimas mil semanas foi portanto o ciclo da nossa adesão. Agora o desafiu da globalização é decisivo, com a economia internacional a abrandar e o país a necessitar de nova correcção nas contas publicas. Ao governo de Durão Barroso compete esse justamento, contando com a conivencia do Presidente da República e a abstenção de oposição por parte dos socialistas.

Feita a correcção do descontrolo das contas publicas, nos termos exigido pelo Pacto de Estabilidade e crescimento, o país começa de novo a vislumbrar uma esperança, sobretudo porque com a forte redução dos funcionários públicos devido as reformas antecipadas começam a haver condições politicas de relançamento económico.

Da euforia dos anos oitenta, feito á custa da reestruturação da banca e com a revolução nas telecomunicações dos anos noventa, verdadeiro balão de oxigénio para as economias mundiais, a história das últimas mil semanas é a história fantástica de duas décadas de progresso e de enriquecimento para a humanidade. O abrandamento dos últimos anos devido ao escesso de produção por causa da emergência da Ásia e da China e do efeito deflactor das suas produções, só pode ser ultrapassado com um novo salto tecnológico.

Mas, esse só chegará dentro de cinco ou dez anos, como aconteceu na crise dos anos 30. Até lá um país como Portugal está a apostar sobretudo na Saúde e no Turismo, apesar de tudo, beneficiado pelas condições de paz e de estabilidade interna.

De um País de emigrantes passamos a um pais de imigrantes. Porquue a economia cresceu, mas tambem porque a Europa ocidentar está a ser pressionada pela imigração de Leste e do magreb.

Mas o facto mais relevante da história mundial das últimas mil semanas foi mesmo a queda do muro de Berlim e fim a URSS. O triunfo da liberdade sobre o sonho utópico de justiça social e igualdade transformado em totalitarismo, fez emergir uma nova geopolítica, com o regresso da Rússia ao concerto das nações civilizadas da Europa e a afirmação hegemónica dos EUA como a única potência mundial.

Na última década, desenha-se finalmente o esperado confronto entre o fundamentalismo islãmico e o Ocidente. O “fim da história” dava lugar ao “choque de civilizações”. Primeiro na Guerra do Golfo, depois na guerra mundial contra o terrorismo e a intervenção no Afeganistão o mundo civilizado e defensor da democracia e dos direitos do homem conseguiu impor, pela força das armas, a sua força moral.

Seguramente as proximas mil semanas serão muito interessantes também.