2020/10/24

Curdistão, um barril de pólvora (ainda) sem o rastilho aceso

No curdistão iraquiano o ambiente é “tenso e incerto”, e todos aguardam de forma expectante que alguém acenda o rastilho que fará explodir aquele autêntico barril de pólvora. Os americanos já desistiram do plano inicial que tinham para a frente norte, ao mesmo tempo que os curdos iraquianos já se mobilizaram defensivamente para uma eventual ofensiva turca. Por outro lado, Moscovo olha com desconfiança para as potenciais movimentações estratégicas que se adivinham naquela região. Quem também não deve estar a encarar com bons olhos a efervescência no curdistão iraquiano, são os regimes de Teerão e Damasco, também eles governantes de retalhos territoriais da nação curda.

A nublada situação que se vive na fronteira da Turquia com o norte do Iraque poderá transformar-se num autêntico pesadelo para os estrategos de Washington. Em prontidão absoluta para avançar sobre o curdistão iraquiano (os turcos criaram, entretanto, uma zona tampão a 20 quilómetros da fronteira em território iraquiano), por modo a garantir a segurança e a estabilidade da Turquia, as forças turcas estão a deixar nervosos todos os intervenientes no conflito.

Os americanos já desistiram do plano inicial que tinham para a frente norte, ao mesmo tempo que os curdos iraquianos já se mobilizaram defensivamente para uma eventual ofensiva turca.

Os peshmergas (milícias curdas) tomaram posições ao longo do norte do Iraque para impedir qualquer progressão das forças turcas. Aliás, perante esta ameaça os chefes nacionalistas históricos curdos, Masud Barzani do Partido Democrático do Curdistão (KDP) e Yalal Talabani, da União Patriótica do Curdistão (PUK), colocaram as suas divergências momentaneamente de lado para formarem um pacto conjunto das suas forças.

Assim, cerca de 70 mil peshmergas, equipados com as velhinhas Kaláshnikov, com granadas de mão e alguns morteiros, estão a postos para enfrentar o segundo exército mais numeroso da NATO.

Além do mais, Talabani e Barzani não escondem os seus desejos de reocupar as províncias de Mosul e Kirkut, que têm os campos petrolíferos mais produtivos do Iraque, com 800 mil barris de crude diários. Neste capítulo os americanos parecem estar com claras dificuldades em refrear os ímpetos curdos.

Por outro lado, Moscovo olha com desconfiança para as movimentações, ou melhor dizendo potenciais movimentações estratégicas que se adivinham naquela região. Quem também não deve estar a encarar com bons olhos a efervescência no curdistão iraquiano, são os regimes de Teerão e Damasco, também eles governantes de retalhos territoriais da nação curda.

Relembre-se que existe cerca de um milhão de curdos no norte da Síria, cinco milhões no noroeste iraniano e outros cinco no norte do Iraque, sem contar com os 12 milhões de curdos que residem dentro das fronteiras turcas.

À semelhança do que se passa com a Turquia, a Síria e o Irão receiam os efeitos do irredentismo curdo e, de acordo com a última edição da revista “The Economist”, surgiram alguns rumores de que o regime de Teerão estaria disposto a permitir uma pequena incursão turca no norte do Iraque (ficando de fora Kirkut e Mosul), por modo a garantir a manutenção das “fronteiras de segurança naquela região.

Apesar da situação ser preocupante, não é ainda explosiva. “A guerra está a chegar devagarinho ao norte do Iraque, se calhar apressada pelos contratempos no sul do país”, escrevia esta semana o enviado do “Independent” (transcrito pelo DN) àquela região. No entanto, a questão do curdistão poder-se-á tornar no principal desafio pós-guerra para os Estados Unidos.

Décadas sob o jugo de Ancara, os curdos poderão agora aproveitar a “caixa de pandora” aberta em Bagdad para materializarem as suas reivindicações nacionalistas, expressas há vários anos, por vezes de forma violenta através de actos terroristas, de como aliás o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, guerrilha independentista), liderado nos tempos de Ocalan, é exemplo.

Para já, a coligação anglo-americana não revela os planos que tem para aquela área. Com as armas apontadas a Bagdad, apenas se sabe que têm sido bombardeadas algumas posições iraquianas no norte do Iraque em Mossul e Kirkuk, e sido mobilizadas de algumas forças aerotransportadas para a região.

Seja qual for o plano adoptado pelo Pentágono na abordagem ao norte do Iraque, será sempre um plano de recurso, depois do Parlamento de Ancara ter recusado ao tradicional aliado norte-americano, por duas vezes (1 e 20 de Março), o direito de passagem e estacionamento de 62 mil soldados norte-americanos.

Os deputados turcos, pressionados pela sua forte opinião pública contra a guerra, permitiram apenas a utilização por parte dos americanos do espaço aéreo da Turquia. Desta forma, de pouco valeram os apelos do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, aos deputados da assembleia, que se viu numa situação periclitante, entre as exigências de Washington e os anseios da sua população.

Tendo como Bagdad em pano de fundo, tudo indica que os americanos vão tentar manter “adormecida” a região do norte do Iraque o mais tempo possível. Aqui as estratégias dividem-se entre Ancara, Damasco e Teerão. Relativamente à primeira, o Governo norte-americano tem tentado ao longo desta semana alcançar um compromisso com o Governo de Erdogan.

Na terça-feira, o enviado norte-americano a Ancara, Zalmay Khalilzad, anunciou que as negociações iriam prolongar-se até ao final desta semana, após um dia de conversações que não chegaram a conclusão alguma. “Este é um tema difícil e complexo”, disse Khalilzad.

Apesar dos Estados Unidos e da União Europeia terem apelado à Turquia para não enviar soldados para o norte do Iraque, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Abdullah Gull, afirmou que o seu país pode mandar as suas tropas quando quiser para o norte iraquiano “por razões humanitárias ou para prevenir uma hipótese de terrorismo”, numa clara alusão ao movimento curdo.

Quanto à estratégia assumida com a Síria é ainda pouco clara quais os seus contornos, no entanto, no caso do Irão, sabe-se que os Estados Unidos, prometeram a Teerão combater os Mujahideen do Povo, grupo opositor ao regime iraniano e sediado no Iraque. Esta é claramente uma tentativa, por parte de Washington, de desencorajar qualquer iniciativa militar iraniana no norte do Iraque.

No entanto, as precauções estratégicas norte-americanas revelam-se infrutíferas quando aplicadas às próprias forças iraquianas que, com o falhanço de uma ofensiva terrestre anglo-americana no norte do Iraque, receberam uma “prenda preciosa de tempo”. De acordo com guerrilheiros e comandantes curdos ao “Los Angeles Times”, as tropas iraquianas estão a movimentar-se livremente no norte do Iraque, a cavar trincheiras, a expandir campos de minas e a minar pontes perto de Mosul, a terceira maior cidade do país.

Ainda as mesmas fontes curdas referem que o contingente militar iraquiano naquela região está a reforçar-se, tendo chegado novos comandantes, incluindo elementos da Guarda Republicana.
Estas movimentações estão a deixar nervosos os militares curdos, que estão igualmente preocupados com a possibilidade de virem a ser o último reduto de vingança das tropas leais a Saddam Hussein, depois deste ser removido poder em Bagdad.

“Estes são grupos (tropas fiéis a Saddam) que cometeram vários crimes, por isso, o destino deles está ligado ao destino de Saddam”, disse um oficial dos serviços de informação do KDP ao enviado especial do “Los Angeles Times” a Kalaq, norte do Iraque. “É por isso que eles poderão tentar fazer qualquer coisa”, depois do seu líder perder os desígnios do Iraque, acrescentou a mesma fonte.

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