“CDS pode fazer a diferença e garantir a vitória de Cavaco Silva “

O histórico dirigente do CDS, Narana Coissoró, apoia a candidatura presidencial de Cavaco Silva
e expõe os seus porquês do apoio ao antigo primeiro-ministro. Segundo o ex-parlamentar centrista,
já é tarde para surgir outra candidatura e, neste momento, o melhor para o CDS é assumir a posição
no que considera “a maioria presidencial”, da qual o CDS faz parte. O Conselho Nacional
deste fim-de-semana deverá ser o momento oportuno para os militantes, e não o partido, demonstrarem
o apoio à candidatura de Cavaco Silva. Narana Coissoró destaca a importância do CDS nas coligações
que fez com o PSD, que sem aliança nunca obteriam um resultado tão expressivo.

Que balanço faz das eleições autárquicas para o CDS?
Importa dividir a análise em dois campos: o CDS como parceiro de coligação do PSD e o CDS.

E no caso do CDS?
Correu mal. Feitas as contas tivemos menos votos, menos câmaras. Perdemos percentagem, autarcas. Mas houve uma eleição que correu bem, Maria José Nogueira Pinto, em Lisboa. Que se tornou indispensável para uma maioria.

O resultado obtido por Maria José Nogueira Pinto foi bom?
Foi bom, não pelo número dos votos, mas pela posição de ser indispensável para uma maioria de direita se Carmona Rodrigues a quiser fazer.

E da coligação com o PSD?
Correu muitíssimo bem. O CDS conseguiu entrar nas principais câmaras do País. Temos o vice-presidente da câmara do Porto, vereadores em Aveiro, Cascais, Sintra, Coimbra. Estamos nas principais cidades e além disso conseguimos aumentar o número de autarcas nessas câmaras. Há um ganho.

Fica a sensação que a vitória, nesses municípios, é do PSD e não de uma coligação PSD/CDS.
Sim, é uma ilusão óptica que os grandes partidos sempre tiram. O PSD e o dr. Marques Mendes sabem que sem a contribuição do CDS não teriam essas câmaras e pesaria o facto do PSD não ter os resultados que teve. Tem de se ver outra questão. Ao contrário da ilusão de que o PSD teve muitas câmaras, o PSD teve resultados sensivelmente iguais aos de há quatro anos. Mas, se compararmos os votos, câmara a câmara, o PSD perdeu votos. Tem menos votos, menos autarcas. O PSD teve, isso sim, melhor resultados do que o PS, em 2001 e 2005.

Na sua perspectiva, o PSD teve melhores resultados do que o PS por que fez coligações com o CDS?
Obviamente. Sem as coligações o PSD nunca teria os resultados que teve.

Quanto às presidenciais, já tem candidato?
Bem… os candidatos estão na passerelle. Só falta a 3ª divisão.

O que é a 3ª divisão?
Agora aparece mais um do Bloco a dizer que o Louçã é do aparelho, ele quer ser o revolucionário. Há-de aparecer, normalmente, um do MRPP. O Garcia Pereira. Pode aparecer um de… Há sempre pessoas que jogam, que vão… Esta é uma divisão de aprendizes.

Mas não tem candidato?
Obviamente que tenho candidato. O meu candidato é o melhor candidato que a direita tem, que é o professor Cavaco Silva.

E se surgir outra candidatura, a sua intenção de voto pode mudar?
Não, não muda. Sou contra uma candidatura partidária. O CDS todas as vezes que apresentou uma candidatura partidária perdeu. Foi com Basílio Horta contra Mário Soares, no segundo mandato de Mário Soares, quando este recebeu apoio de Cavaco Siva, que hoje deve estar bem arrependido (do apoio a Soares). Depois, com Ferreira do Amaral, (Basílio Horta) desistiu por um fax. As candidaturas que surgem do partido nunca deram bons resultados. Em segundo lugar, deve ser estratégia do CDS estar na maioria presidencial desde o primeiro momento. Não é na segunda volta que se cola à maioria presidencial.

Não partilha da visão de alguns dos seus companheiros de partido que entendem que Paulo Portas deve avançar?
Tenho alguma dificuldade em compreender esses meus companheiros de partido, porque o Paulo Portas não disse uma palavra. Se quer, se não quer, se pensa, se não pensa. É tempo de mais para as outras pessoas falarem por ele. Tanto quanto conheço o Paulo Portas, nunca deixou os seus trunfos ou méritos em mãos alheias. Se ele quisesse ser, já tinha tempo suficiente para dizer que queria.

Pensa que Paulo Portas não tem espaço político para concorrer?
Espaço político todos têm. Há tantos candidatos. Basta ter mais de 35 anos, ser saudável e ser conhecido.

Faz sentido Paulo Portas avançar?
Por que é que vamos por essas condicionantes? Dou-lhe uma entrevista no dia em que o Paulo Portas disser: “eu avanço”. Nesse dia eu poderei raciocinar sobre um candidato no terreno. Por enquanto, sobre hipóteses, não vale a pena. Já trabalhámos demasiado sobre as hipóteses.

Neste momento, é demasiado tarde para uma candidatura avançar?
Eu entendo que sim. É demasiado tarde. Se por qualquer razão, por uma margem mínima que fosse, Cavaco Silva perdesse a eleição na primeira volta, o CDS seria apontado como principal causador dessa não vitória na primeira volta. O partido ainda não tem uma estrutura no País, para suportar uma candidatura presidencial. É preciso ter um aparelho para apoiar. E, foi sempre a tese do CDS apoiar candidatos que individualmente apareçam. Ao contrário do PS, que fabrica o seu próprio candidato.

O que espera do Conselho Nacional do CDS que começa amanhã? Há uma sensação de que há uma divisão entre CDS e PP.
Há. Efectivamente, há. Basta ver, uma proposta da JP, para fazer um referendo. Mas fazer um referendo sobre quê? Candidatos desistentes? Ou se o Paulo Portas deve avançar?

Como sabe, alguns dos deputados do CDS disseram que para apoiar Cavaco Silva, este deveria ceder a certas posições do CDS. Que comentário faz?
Isto é uma conversa que o Ribeiro e Castro deve ter com o professor Cavaco Silva. Publicamente, o professor Cavaco Silva não pode negociar com ninguém. É um candidato independente, como ele faz questão de ser. É um homem sozinho, que quer disputar as eleições com as suas ideias, o seu manifesto eleitoral. A haver qualquer coisa, naturalmente que o Ribeiro e Castro já lhe falou. O Ribeiro e Castro já disse que já tinha tido duas conversas com ele.

Assim sendo, faz sentido que o CDS, enquanto partido, declare o seu apoio a Cavaco Silva?
Haverá naturalmente um debate (no Conselho Nacional do CDS) sobre se o manifesto eleitoral do professor Cavaco Silva é susceptível, como espero que venha a ser, do apoio dos militantes do CDS, não do partido. Não gostaria que o partido estivesse envolvido na eleição, mas sim os militantes. Não é o partido que vota, mas são os militantes que votam. Como já referi, o nosso partido pode fazer a diferença – como fez a Maria José Nogueira Pinto em Lisboa – de garantir a vitória na primeira volta ao professor Cavaco Silva. O que era um capital grande que o CDS daria para esta eleição.

Não pode haver pessoas no CDS com receio de votar em Cavaco Silva, porque foi com as maiorias de Cavaco Silva que o CDS diminuiu o seu peso político em 1987 e 1991?
Eu sofri isso na pele, porque fui o líder parlamentar do grupo do “táxi” durante 10 anos. Não devo dizer que a maioria absoluta do professor Cavaco Silva não tenha sido feita à custa do CDS. Não foi o partido que mandou votar no Cavaco Silva. Houve muita gente do CDS que na primeira maioria absoluta votou no PSD contra o partido. Incluindo o dr. Ribeiro e Castro. Na altura o nosso slogan com Adriano Moreira era “Pela maioria vota CDS”. O Ribeiro e Castro disse: “se é assim, voto directamente no Cavaco, não preciso do CDS para a maioria”. Depois (Ribeiro e Castro) esteve no Governo, no gabinete de Roberto Carneiro (ministro da Educação de Cavaco Silva). Cavaco Silva não deixou muito boas recordações a muitos militantes, dirigentes locais e nacionais do CDS. Agora as circunstâncias são outras, totalmente diferentes. E, por exemplo, na primeira candidatura presidencial, o CDS não lhe deu o apoio. Muitos fundadores do CDS estiveram com Jorge Sampaio. Eu apoiei Jorge Sampaio. Eram alturas diferentes. Temos de saber em que tempo estamos para decidir. Neste momento não seria aconselhável que a direita se dividisse, que o CDS saísse da maioria presidencial, que o CDS não saísse da maioria da direita.|

PS dividido no ataque à Igreja Católica

António Guterres não deixou. E, depois de José Sócrates,fragilizado com as sondagens e o fracasso da sua política económica em ciclo eleitoral, ter permitido o regresso da questão do aborto,
o Aparelho socialista decide voltar ao ataque à Igreja Católica, como pretexto para desviar as atenções da derrota eleitoral. Curiosamente, a linha maçónica
do PS tem Vera Jardim a dar a cara na Igreja Católica, no mesmo dia em que Jorge Sampaio ataca o ministro da Justiça e diz que o descrédito dos políticos decorre da corrupção. Em 2005, houve duas comemorações da República.

Depois do aborto, o discurso jacobino contra a Igreja Católica vai subir de tom. Na quarta-feira, o dia da República, no “Diário de Notícias”, o Aparelho socialista e Vera Jardim deram o tom do novo discurso do Aparelho socialista contra a Igreja Católica. Mais que o Estado laico, pretende-se o Estado “ateu”. Contra os crucifixos nas escolas e o lugar honorífico que particularmente se dá à Igreja Católica nas cerimónias oficiais. Depois do Governo da coligação PSD/PP, aliás, com o empenho de Jaime Gama e de Almeida Santos, ter finalmente assinado com o Vaticano a nova Concordata, a questão religiosa ficou pacificada em Portugal. No PS, a ala católica controlada por Guterres não permitia veleidades à Maçonaria, numa altura em que os velhos maçons republicanos e laicos sentiam estar a viver os últimos dias, com a entrada para a sociedade secreta de “gente sem qualidade intelectual, social e moral”, nas palavras de um antigo maçon apoiante do actual grão-mestre.

Transformar a Igreja no inimigo
para atenuar as críticas ao PS

Vive-se o sentimento que estes são os últimos momentos da velha maçonaria que sempre esteve presente na República, diz fonte maçónica. Agora, a agenda parece começar a ser feita apenas dentro do PS, pelo Aparelho socialista. E, nesta altura, com a derrota previsível nas autárquicas e a difícil conjuntura económica, a estratégia do PS, segundo meios do Aparelho, deveria definir um novo inimigo público. Para o Aparelho a exploração dos sentimentos anticlericais ainda pode ter um papel decisivo, embora se reconheça que a estratégia socialista seguida por Zapatero, em Espanha, de ataque directo à Igreja Católica, para desviar as atenções da crise institucional e constitucional espanhola, possa não resultar em Portugal e virar-se mesmo contra o Governo socialista.
A situação é tão mais caricata quanto actualmente a maioria dos bispos católicos é de esquerda e próximo das posições do PS, tendo ajudado a derrubar Santana Lopes.
Mas, a necessidade de lançar outro tema para fixação do eleitorado e venda nos telejornais, como aconteceu com o aborto, está presente nos socialistas, sobretudo depois do discurso do Presidente da República, Jorge Sampaio, no 5 de Outubro, na sala de jantar do Palácio da Ajuda.

Ataque aos católicos para desviar
atenções da corrupção

Para o Aparelho socialista, o ataque à Igreja Católica pode funcionar como alternativa ao tema da corrupção proposto no dia da República pelo Presidente da República. O PS evitaria discutir a questão do financiamento dos partidos políticos e sobretudo numa altura em que está instaurada a guerra entre as magistraturas e as polícias na instrução do processo, a situação poderia tornar-se perigosa para alguns dirigentes nacionais e autárquicos.
Com efeito, depois do novo estatuto do Ministério Público e das Polícias Judiciárias refeito por António Costa, o ministro da Justiça e Guterres, a Polícia Judiciária, com base nas razões de ordem técnica, passou a ter um instrumento para conduzir o inquérito judicial à margem do Ministério Público, podendo, querendo, fazer assim uma verdadeira agenda política. Foi, aliás, esta a sensação que alguns tiveram no caso da Casa Pia, bem como no caso do Apito Dourado.
Esta situação, aliás, deverá ser alterada pelo actual Governo socialista, Foi, aliás, a consciência que, nos casos limites, pode haver desentendimentos entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária, o primeiro uma magistratura independente e a segunda dependente do ministro da Justiça, que leva exactamente o Governo a ponderar a revisão da lei por um lado e por outro cria algum preocupação no PS, sobretudo depois de Jorge Sampaio ter vindo esclarecer, no discurso da Ajuda, que o descrédito da classe política tem a ver com a corrupção.

Sócrates poderá opor-se à agenda do Aparelho

Mas, nos meios parlamentares próximos do primeiro-ministro, admite-se que, embora o primeiro-ministro tenha aceite recolocar a questão do aborto, provavelmente não alinha numa campanha contra a mudança do estatuto privilegiado da Igreja Católica em Portugal. Portugal, apesar de ser um Estado laico, não é um Estado ateu, e historicamente, a sua independência só teve estatuto internacional depois do reconhecimento feito pela Igreja.
A questão do aborto ajudará o Governo socialista a aguentar o efeito do desastre eleitoral previsível para o próximo domingo e as más notícias do Orçamento do Estado para 2006, que, já na próxima sexta-feira será entregue no Parlamento. Sócrates tentará a todo o custo evitar a remodelação, deixando-a para depois das presidenciais. E a questão do aborto poderia ser uma oportunidade para desviar as atenções e o aumento da contestação social, sobretudo tendo em atenção que uma derrota humilhante de Soares nas presidenciais vai obrigar a uma nova postura dos socialistas na governação.
Porém, herdeiro de uma tradição guterrista de cordiais relações com a Igreja Católica, dizem fontes parlamentares, o primeiro-ministro dificilmente alinhará com a agenda de Jorge Coelho e de Vera Jardim de ataque à Igreja Católica.
José Sócrates poderá impedir mesmo o ataque, ainda que numa próxima remodelação não consiga sequer segurar as investigações sobre corrupção na classe política e o próprio ministro Alberto de Costa, sob o fogo cruzado das magistraturas e dos oficiais de justiça, e acabe por ter que gerir a sua agenda política ao sabor dos acontecimentos e da contestação social.