2026/07/11

BE à zaragata por causa de Fernando Rosas e Joana Amaral Dias

A guerra Alegre-Soares não é o único conflito à esquerda com epicentro nas presidenciais. O SEMANÁRIO sabe que no Bloco de Esquerda o ambiente envolvendo Fernando Rosas e Joana Amaral Dias é muito tenso, por causa do apoio que ambos deram à candidatura presidencial de Mário Soares.

A guerra Alegre-Soares não é o único conflito à esquerda com epicentro nas presidenciais. O SEMANÁRIO apurou que no Bloco de Esquerda o ambiente envolvendo Fernando Rosas e Joana Amaral Dias é muito tenso, por causa do apoio que ambos deram à candidatura presidencial de Mário Soares. Fernando Rosas esteve presente, há um mês, no lançamento da candidatura de Soares, presença que surpreendeu muita gente no Bloco de Esquerda e fora dele. Rosas, historiador conceituado, colabora há alguns anos com a Fundação Mário Soares. Joana Amaral Dias, que já foi deputada do Bloco de Esquerda espantou ainda mais os seus camaradas bloquistas ao aceitar ser mandatária para a juventude de Mário Soares, um cargo de grande projecção, que ombreia com o de mandatário nacional. Rosas e Joana Amaral Dias, cada um com a sua vertente, são duas figuras muito mediáticas do BE, com ocupação de cargos de destaque no quadro do BE, o que, no entender dos maiores críticos do seu apoio a Soares, aumenta as suas responsabilidades políticas.
A linha do Bloco saída da UDP, hoje repreentada destacadamente por Luís Fazenda, é uma das mais críticas do comportamento de Rosas e Joana Amaral Dias, não perdoando não só o pecado político como uma alegada sede de protagonismo, sobretudo na jovem bloquista. A linha da UDP no seio do BE é uma linha mais dura, mais ideológica, de características mais populares. Neste quadro, é mesmo de admitir que depois das presidenciais se queira fazer o ajuste de contas no seio do BE, com eventuais depurações.
No entanto, a tensão bloquista não se restringe ao sector da UDP. No sector trotskista, de Francisco Louçã, também provocou celeuma a posição de Rosas e Joana Amaral Dias. Mesmo alguns sectores da ala mais civilista do BE, com raízes na Política XXI, estão descontentes com a atitude do historiador e da jovem. Por exemplo, há quem diga que Ana Drago, uma das mais activas bloquistas, fiel a certos princípíos, não está nada satisfeita com a posição de Joana Amaral Dias.
O facto de Mário Soares se apresentar com resultados baixos nas sondagens não ajuda Rosas e Amaral Dias, ainda que, qualquer que seja o desfecho da corrida a Belém, as críticas não devam ser abafadas. Se Soares perder, pode estar em cima da mesa a gestão desastrosa da esquerda no dossier das presidenciais, onde Rosas e Amaral Dias deram o seu contributo com os seus desvios soaristas. Se Soares ganhar, há muitas dúvidas sobre a sua acção política com o Bloco, ostracizando a formação política e tendo a tendência de compensar politicamente, muito ao de jeito Soares, quem esteve pessoalmente consigo, ou seja Rosas e Joana Amaral Dias. Este favoritismo pode dar origem a uma guerra pior no BE do que se Soares perder, promovendo convulsões intestinas no BE durante os próximos quatro anos.
Desde a constituição do Bloco de Esquerda este conflito com epicentro nas presidenciais pode representar a primeira dissenção grave no seio do bloco e a sua estreia nas guerras habituais pelo poder. Entretanto, Francisco Louçã, candidato presidencial apoiado pelo Bloco, continua muito activo na sua campanha, fazendo um inteligente “dois em um”. Louçã tem-se desdobrado em iniciativas bloquistas no quadro das eleições autárquicas e vai fazendo “circular” a sua imagem e discurso com vista às presidenciais. Se Jerónimo de Sousa levar a sua candidatura até ao fim, Louçã também o deverá fazer.
Para além das convulsões no Bloco a questão das presidenciais promete uma guerra longa e intensa no PS, sobretudo se Cavaco Silva ganhar as presidenciais. Se o professor ganhar logo à primeira volta, o conflito será maior. Muitos socialistas deverão pedir responsabilidades a Sócrates e à direcção do partido sobre o apoio a Mário Soares. Não só os socialistas que estão hoje abertamente com Manuel Alegre mas também aqueles estão a apoiar Soares mas que gostavam de estar com Alegre, só não o fazendo porque não querem ir contra a linha oficial do partido. Se Cavaco ganhar à segunda, as convulsões deverão ser menores, pelo menos no curto prazo. Se Cavaco fizer um mandato muito activo em Belém, condicionando a activiade do governo e, no limite, conduzindo à sua demissão e à realização de eleições legislativas antecipadas, o conflito no PS pode recrudescer, apontando-se a derrota de Mário Soares como o pecado original da situação política que conduziu à queda do governo. Recorde-se que Manuel Alegre continua a considerar-se o candidato presidencial melhor colocado para bater Cavaco (no contexto de ter tido o apoio do PS). Curiosamente, as últimas sondagens parecem alicerçar a convicção de Alegre, dando melhores resultados ao poeta numa segunda volta com Cavaco do que a Soares.
Entretanto, no PCP, José Saramago também está a provocar alguns engulhos no PCP. O Prémio Nobel da Literatura declarou há pouco tempo, insolitamente, que apoia tanto Jerónimo de Sousa como Mário Soares, o que desagradou a muitos militantes comunistas. Esta semana, num encontro fortuito de rua foi notória a frieza entre Saramago e o candidato da CDU, Ruben de Carvalho, tendo de ser o independente Corregedor da Fonseca a nota de simpatia perante o escritor. Refira-se que Eduardo Prado Coelho também opinou, esta semana, na SIC-Notícias sobre a “duplicidade” do escritor ao apoiar simultameamente Jerónimo e Soares, considerando que o escritor se tem afastado gradualmente do PCP ortodoxo, aproximando-se do PS.|

Cavaco promete informar portugueses

Aos poucos, o prof. Cavaco Silva vai deixando os sinais “necessários e suficientes” para confirmar que vai ser candidato presidencial, sem que, com isso, altere os calendários que ele próprio anunciou há algumas semanas – decisão oficial só depois das eleições autárquicas. Os últimos dados, com origem em Londres, aonde se deslocou esta semana, são de que já falou com a família sobre o assunto e que anunciará primeiro a “boa nova” (a expressão não é dele) aos portugueses “não daqui a muito tempo” (esta sim, frase sua.)

No campo da esquerda e em particular à volta de Mário Soares, registam-se alguns desassossegos, com Manuel Alegre a manter uma pressão quanto a uma hipótese de candidatura para recolher os votos dos que não votam em Soares, nem nos outros candidatos da esquerda.
De certa forma, Portugal volta a ser um laboratório político, nesta balbúrdia eleitoral em que está envolvido e a que pode acrescer uma nova campanha, entre as autárquicas e as presidenciais, por causa do referendo sobre o aborto. Informações reservadas, a que o SEMANÁRIO teve acesso, indicam que o Presidente cessante, Jorge Sampaio, não estará pelos ajustes e não vai convocar o referendo como desejam os socialistas e o bloquistas. Na mesma linha de informação, existem indícios, a que se pode atribuir credibilidade, tendo em conta as fontes consultadas, sabe-se que tem havido distanciamento progressivo entre Belém e S. Bento, sobretudo devido à substituição do ministro das Finanças, a nomeações controversas feitas pelo Governo, que não agradaram a Jorge Sampaio, o que, em privado, terá assumido críticas ao modo como José Sócrates tem conduzido a governação do País.
O Presidente teve esta semana uma actividade quase alucinante em Nova Iorque, com um conjunto muito relevante de contactos com as mais destacadas personalidades mundiais, mas não fica claro, eventualmente por falta de informações oficiais ou oficiosas, que repercussão podem ter esses contactos na política externa portuguesa. Por exemplo, houve uma cimeira de chefes de Estado dos países de Língua Portuguesa, mas não houve nenhum eco do que lá foi abordado. Há questões pendentes entre Portugal e alguns países africanos, Sampaio encontrou-se, em separado, com os Presidentes da África do Sul e de Moçambique. O que trataram, que assuntos analisaram? Mistério total.
É nas relações externas que Sampaio se move como peixe na água, mas são pouco visíveis os resultados práticos das diligências de representação externa do Presidente da República. É assim, desde sempre.
Quando regressar a Lisboa, Sampaio volta à complexidade doméstica, provavelmente com a consciência plena de que já não deve tomar, a quatro meses de fim de mandato, decisões da mais alta relevância política, e deve, por isso, fazer tranquilamente uma “presidência de gestão”, intervindo nos casos mais agudos, como aconteceu com os militares, mas deixando ao seu sucessor a capacidade para decidir, por exemplo, o caso do referendo. Seria uma “enorme surpresa” (no dizer de vários dirigentes de quadrantes diversos, incluindo do PS, que o SEMANÁRIO ouviu) que Sampaio fizesse a vontade a José Sócrates e convocasse os portugueses para o referendo.
Fechado este parêntesis, voltamos ao laboratório político. Estamos a poucas semanas de uma campanha eleitoral para o poder local, que é quase seguro que o PSD vai ganhar (obtendo o maior número de câmaras que governará nos próximos quatro anos), mas há autarquias emblemáticas que podem ampliar a vitória laranja ou atenuar a derrota socialista.
No que diz respeito a Lisboa, Porto e Sintra, os dados disponíveis indicam que a incerteza em relação a Lisboa e Sintra vai durar até ao último momento, mas que no Porto, salvo qualquer incidente não previsível nesta altura, Rui Rio deve ter a eleição garantida, com maioria absoluta. Também por isso, era aguardado com muita expectativa o frente a frente na SIC entre Manuel Maria Carrilho e Carmona Rodrigues, que se iniciou na mesma altura em que esta edição entrava nas rotativas e de que, por isso, não é possível dar a mínima informação.
Em Sintra, depois de um certo período de alguma displicência, o PSD e Fernando Seara começaram a trabalhar duramente no terreno, tal como há muito que estão fazendo João Soares, Jorge Coelho e o Partido Socialista. Os debates públicos entre os candidatos à Câmara de Sintra não foram muito concludentes, já que os protagonistas se envolveram em discussões, empastando as suas declarações umas nas outras, com manifesto prejuízo dos respectivos auditórios.
Para alguns observadores, a iniciativa do PS de lançar, de modo intercalar ( passe a expressão), o referendo sobre o aborto, serviria para distrair algumas atenções em relação aos dois actos eleitorais já programados. Os socialistas entendem que os debates nacionais efectuados sobre a questão do aborto propiciam um referendo positivo no sentido da absoluta despenalização. Por isso, um pouco “atarantado” com a previsível derrota no poder local e com todas as incertezas no que diz respeito à candidatura de Mário Soares, o PS encontraria no referendo um ânimo de vitória. Além disso, a campanha do referendo desviaria também atenções para a política real de austeridade que deve ser vertida no Orçamento para 2006, cuja discussão parlamentar deve ocorrer entre finais de Outubro e todo o mês de Novembro.

Inquietação à esquerda,tranquilidade no PSD e CDS

As eleições presidenciais mobilizam, já, todos os estados-maiores partidários. Com visível inquietação à esquerda, com notória tranquilidade nas hostes do PSD e do CDS/PP. Os dois parceiros da anterior coligação governativa aguardam que Cavaco Silva cumpra os seus calendários e anuncie oficialmente a decisão pessoal que já consolidou ao longo dos últimos meses, ou seja, de que será candidato presidencial, procurando convencer os portugueses a votar em si para o Palácio de Belém.
Apesar dos rumores, do clima de intriga, dos cenários eventuais em torno de Pedro Santana Lopes e de Paulo Portas “a especulação pode dar azo ao que se quiser, mas a realidade é apenas uma e é sobre ela que devemos trabalhar”, como disse ao SEMANÁRIO um dos mais importantes dirigentes do CDS/PP. Ou seja, Cavaco é candidato, frisará o que disse esta semana em Londres (“sou hoje um espírito muito, muito independente dos partidos políticos), a partir daíi receberá o apoio do PSD (que vai mobilizar estruturas de apoio logístico à campanha) e do CDS/PP, que disponibilizará para apoiar a campanha do modo que o candidato entender.
Nem Paulo Portas nem Pedro Santana Lopes se vão imiscuir na campanha de Cavaco Silva e se o fizerem será para apoiar, nunca para criticar. O recém–ex-primeiro-ministro, que volta ao Parlamento como deputado, já tem estabelecida a sua própria logística profissional, com escritório próprio de advocacia, parecendo com isso legítimo dizer-se que está disponível para fazer uma travessia no deserto, na perspectiva da eleição presidencial de Cavaco Silva.
Conhecem-se menos os planos de Paulo Portas em relação aos rumos que vai dar à sua vida política e profissional, mas também existem sinais de que, enquanto os quadros políticos não estiverem estabilizados em função dos actos eleitorais que se avizinham, o antigo ministro da Defesa e líder do CDS/PP não deve expor-se politicamente nos tempos mais próximos.
As sondagens publicadas há poucos dias, outros estudos levados a cabo, nomeadamente pelo PS, e cujo conteúdo tem sido guardado na reserva do conhecimento restrito de meia dúzia de dirigentes, criaram desassossego na terceira candidatura presidencial de Mário Soares. Fala-se mesmo em rever estratégias, em erros de análise cometidos no arranque da candidatura. Manuel Alegre diz que não está excluído que ainda possa avançar, alguns afirmam que está a fazer “bluff”, mas Helena Roseta avisa, em artigo publicado na revista “Visão”, que o “voto anda solto” e que “há muita gente que não se revê em nenhum dos candidatos anunciados”, concluindo com um enigmático apelo, escrito nos seguintes termos: “Até 30 dias antes do acto eleitoral podem apresentar-se outras candidaturas. Creio que é um dever cívico contribuir para que tal aconteça.”
Teremos de aguardar a candidatura do prof. Cavaco Silva e analisar as guerrilhas da esquerda. Uma e outras são decisivas para o debate presidencial que, apesar de tudo, só vai ter contornos reais quando todos os candidatos estiverem no terreno. Parece possível arriscar dizer que na escolha do próximo Chefe do Estado não haverá “primárias à esquerda”, como houve em 1986. A contenda resolver-se-á, com grande probabilidade, à primeira volta…

Soares quer Alegre para impedir vitória de Cavaco à primeira volta

O desafio que Mário Soares fez esta semana a Manuel Alegre, para que se candidate a Belém, integra-se na estratégia soarista de impedir a eleição de Cavaco Silva logo à primeira volta das presidenciais. Soares está convencido que vence mas só à segunda volta, quando todos os candidatos de esquerda apelarem ao voto em si, inclusive Alegre, mais maleável depois ir também a jogo. Nas últimas sondagens, Cavaco aparecia à beira de ganhar logo no primeiro “tour”. Ora, a captação de votos do professor à esquerda, ainda que mínima, ou mesmo a simples abstenção de esquerda, pode ser suficiente para Cavaco fazer a festa antecipada.

A estratégia de Mário Soares para as presidenciais parece cada vez mais querer repetir o quadro das eleições para a Presidência da República de 1986, quando vários candidatos à esquerda se apresentaram na primeira volta da corrida e poucos votos à esquerda, se perderam para a abstenção ou para o candidato da direita, que era na altura Freitas do Amaral. O desafio que Soares fez esta semana a Manuel Alegre para que se candidate a Belém integra-se nesta estratégia e visa impedir o perigo de eleição de Cavaco Silva logo à primeira volta das presidenciais. Segundo as sondagens publicadas no passado fim-de–semana, o ex-primeiro-ministro laranja estava à beira de ganhar a eleição no primeiro “tour”. Ora, qualquer transferência, ainda que miníma, de votos à esquerda para Cavaco pode dar-lhe a vitória na primeira volta. Caso Alegre não concorra, votos que deveriam ser fieís ao poeta poderiam ir parar à abstenção ou mesmo directamente a Cavaco. Nas contas da aritmética eleitoral, a abstenção à esquerda poderá revelar-se, de facto, decisiva para Cavaco. Recorde-se que o professor alcança excelentes “performances” nas sondagens sem ainda se ter candidatado oficialmente, o que só deverá acontecer depois das eleições autárquicas de 9 de Outubro.
A maneira como Soares se atravessou no caminho de Alegre não é, de facto, muito propícia a que apoiantes do poeta votem directamente em Soares. A guerra de palavras entre os dois homens também não ajuda este propósito. Ainda esta semana, Alegre deu a entender que, face ao facto de o PS não o apoiar, considerava de mau gosto o desafio de Soares para que se candidatasse a Belém. No entanto, mesmo mantendo o machado de guerra em riste, Alegre acabou por dar sinais de que poderá estar a cair na estratégia de Soares. O poeta aclarou a sua própria declaração sobre as presidenciais de há três semanas, dizendo que nunca disse que era candidato mas também nunca disse que não era. Por sua vez, em relação a Cavaco Silva, o poeta referiu que o seu objectivo é derrotar o professor. Nas declarações feitas esta semana, Alegre pareceu continuar convencido de que é o candidato da esquerda melhor colocado para derrotar Cavaco, passando à segunda volta, avaiação, no minímo, contraditória com as invectivas do poeta de que o desafio de Soares para que avance foi de mau gosto. Quando Soares ainda não era candidato presidencial, apoiado pelo PS, Alegre também fazia esta mesma avaliação de ser o candidato melhor posicionado para “bater” Cavaco. No entanto, a realidade é que hoje, face à ausência de qualquer apoio partidário, o poeta parece a anos-luz de poder alcançar o seu objectivo de passagem à segunda volta. Este discurso vitorioso de Alegre também pode já não ser inocente. O poeta pode já estar a trabalhar psicologicamente para acalmar a sua revolta contra Soares, indo à luta… e que ganhe o melhor. Para um homem de combates como Alegre esta equação pode ser essencial. Daí que, tal como Soares já está a dizer que tem a certeza que ganha, Alegre diga que tem condições para bater Cavaco só com apoios inorgânicos. Se perder, o que fica para o poeta é uma boa disputa, havendo condições políticas e psicológicas para apelar ao voto em Mário Soares.
Face às características do conflito que opõe Alegre a Soares, podia dizer-se que o poeta faz o papel que Salgado Zenha fez há vinte anos. Zenha, amigo pessoal e político de Soares rompeu com o líder do PS no início dos anos 80 e acabou por concorrer contra si nas presidenciais. No entanto, perante a ausência de apoios partidários, Alegre talvez se assemelhe mais à posição de Maria de Lourdes Pintasilgo. Recorde-se que nas eleições presidenciais de 1986, Mário Soares, apoiado pelo PS, teve 25,4 por cento dos votos na primeira volta, Salgado Zenha alcançou 20,9 por cento e Maria de Lourdes Pintasilgo, só com apoios inorgânicos, obteve 7,4 por cento. Estas percentagens somadas dão 53.7 por cento. Freitas do Amaral, apoiado por toda a direita, não conseguiu melhor do que 46,3 por cento. A esquerda, ainda que dispersa (e talvez por causa desta mesma dipersão) conseguiu mobilizar todo o seu eleitorado, não permitindo qualquer “fuga” para Freitas do Amaral e, na segunda volta, com Zenha e Pintasilgo a apelarem ao voto em Soares, Mário Soares acabou por ganhar a eleição presidencial com 51,2 por cento dos votos, tendo Freitas 48,8 por cento.

Santana Lopes pondera presidenciais ou novo partido

Santana Lopes renunciou ao mandato de presidente da Câmara Municipal, depois de ter sido avisado por Miguel Relvas e Matos Correia da contagem dos prazos para a retoma do mandato de deputado no Parlamento.

Enquanto Cavaco Silva se prepara para anunciar no próximo dia 15 de Outubro a sua candidatura presidencial, o antigo primeiro-ministro Santana Lopes pondera a hipótese de lançar a sua candidatura presidencial.
Tendo ontem renunciado ao mandato de presidente da Câmara Municipal, depois de ter sido avisado por Miguel Relvas e Matos Correia da contagem dos prazos para a retoma do mandato de deputado no Parlamento, Santana Lopes, que deverá voltar à advogacia, está em período de reflexão sobre o seu futuro político. A maioria dos seus conselheiros é, contudo, contra a possibilidade de Santana Lopes avançar para uma candidatura, caso Cavaco Silva acabe por efectivar a sua candidatura. Mas do lado de Santana Lopes o facto de Cavaco Silva estar a demorar o arranque da sua candidatura pode ser fatal para o centro e para a direita, como aconteceu, há dez anos, quando Cavaco Silva perdeu contra Jorge Sampaio.
Por outro lado, a possibilidade de directas, já depois do congresso de Março próximo no PSD, pode também estar presente no futuro de Santana Lopes. O antigo primeiro-ministro pode ultrapassar Luís Filipe Menezes, que tem poucas condições para a liderança do PSD e tentar defrontar os cavaquistas ou Marques Mendes em eleições directas. Finalmente, sectores próximos de Santana Lopes admitem que verdadeiramente Santana Lopes deveria agora resguardar-se durante dois nos para depois, eventualmente com Paulo Portas, refundar a direita, criando um novo partido político.

Helena Lopes da Costa
quer Distrital de Lisboa

Depois da ruptura de Helena Lopes da Costa, aliás, já anunciada há meses, por causa da candidatura de Carmona Rodrigues e da expulsão de Isaltino Morais, a crise está instalada na Distrital de Lisboa, cujo presidente pode não chegar ao fim do mandato. Na última assembleia da Distrital de Lisboa, Helena Lopes da Costa, que tem o apoio do núcleo de Algés, já tinha preparado o confronto com António Preto, que acusa de não ouvir a direcção e conduzir individualmente a Distrital de Lisboa.
António Preto, próximo de Ferreira Leite, apesar do processo em curso sobre alegadas irregularidades financeiras, pode avançar com a sua recandidatura em caso de eleições antecipadas, ao mesmo tempo que os barrosistas querem ganhar protagonismo para poderem negociar com os cavaquistas, se a oportunidade se colocar. Morais Sarmento poderia ser um nome com peso a avançar para a Distrital de Lisboa, embora Miguel Relvas tenha tentado uma reaproximação a Santana Lopes, para assegurar o nome de Matos Correia para candidato à liderança da Distrital de Lisboa.
Matos Correia, um dos próximos de Durão Barroso, é deputado e depois das eleições foi trabalhar para o SAG, que conta através dele assegurar que o presidente da Comissão Europeia influencie a Volkswagen no sentido de não vir para Portugal directamente, mantendo a SIVA como importador, renovando a concessão que está a terminar. Matos Correia era, já antes, junto de Durão Barroso, o homem de ligação aos negócios.

Barrosistas tentam aproximar-se de Mendes para chegar a Cavaco

A tentativa de aproximação de José Luís Arnaut a Marques Mendes está a levantar alguma polémica no seio da direcção laranja. Para uns, é sinal que começa a cheirar a poder no PSD e que Marques Mendes pode chegar a primeiro-ministro. Para outros, é mero tacticismo: usam Mendes para se aproximarem do cavaquismo, porque o próximo ciclo, no PSD e na direita, será cavaquista, e quem não estiver com Cavaco fica, pelo menos, dez anos afastado do poder.

A aparente ruptura entre o barrosismo e o cavaquismo deu-se no fim do Governo de Durão Barroso, quando Morais Sarmento, José Arnaut, Matos Correia e Miguel Relvas decidiram apoiar o santanismo e promover a indigitação de Santana Lopes para primeiro-ministro, seguindo a decisão de Durão Barroso. Mas tudo se agravou com o desempenho dos mesmos e sobretudo sobre as suas condutas, tornando o grupo dos barrosistas indesejável aos olhos dos cavaquistas, com especial marcação de Manuel Ferreira Leite, que, aliás, já antes punha algumas reservas à sua actuação.
Depois da derrota eleitoral de Santana Lopes, no Congresso que escolheu Mendes para a liderança, o grupo aparentemente desfez-se, com Morais Sarmento primeiro a tentar correr sozinho, mas apercebendo-se que não tinha tropas e, depois, com José Luís Arnaut e Miguel Relvas, traindo Santana Lopes, a passarem do campo de Menezes para o lado de Marques Mendes, assegurando assim a vitória deste no Congresso de Pombal.
Apesar da traição barrosista, Marques Mendes não daria lugares na direcção aos homens de mão do já presidente da Comissão Europeia, que chegavam mesmo a ser tratados, com arrogância, dada a proximidade com os interesses e os negócios, e havendo, na linha dos cavaquistas, mesmo quem, na actual direcção do PSD, defendesse distância clara e assumida.
Pedro Passos Coelho e Azevedo Soares nunca terão visto com bons olhos a colagem dos antigos barrosistas. Mas no seio da direcção de Mendes, esta posição não é unânime, até porque alguns dirigentes actuais consideram que o grupo barrosista já não existe e que o próprio Durão Barroso já se demarcou deles.
Por outro lado, Mendes, tendo no horizonte chegar a primeiro-ministro, tem que começar a federar interesses e sem nada dar aos barrosistas, também não tem que fazer o débito de os afastar. Para isso basta-lhe os casos exemplares de Isaltino Morais e de Valentim Loureiro, com os quais iniciou o seu mandato e que terá que levar até ao fim. E se, no caso de Isaltino Morais, o juiz pode levar por diante a sua, já com o major, as prestações públicas, como ainda aconteceram esta semana, acabam por dar mais espaço de manobra a Marques Mendes e funcionarem politicamente a seu favor.

Começa a cheirar a poder no PSD
A estratégia de Marques Mendes assenta basicamente no facto de não ser a oposição que ganha as eleições, mas o Governo que as perde. E nesse contexto, como aconteceu com Durão Barroso e Santana Lopes, Mendes só tem que assegurar que se mantém à frente do PSD até às próximas legislativas.
Os analistas próximos do líder social-democrata começam já admitir que as coisas podem acelerar. Paula Teixeira de Cruz chegou mesmo em entrevista a dizer que “os ciclos políticos estão a encurtar numa advertência clara de que pode haver eleições legislativas antecipadas.
A evolução do confronto dentro do PS parece estar a apostar para aí, pensa-se no PSD. A guerra entre o coordenador autárquico Jorge Coelho e o primeiro-ministro José Sócrates pelo controlo do Governo do País é assumida no seio do PS. E a questão das presidenciais só veio dividir ainda mais o partido. Soares não gosta de Sócrates e se ganhar facilmente o substituiria por um líder a seu gosto, mesmo sem eleições legislativas. Só que a campanha de Soares começou mal. O velho presidente impôs-se ao partido por “gula” do poder, humilhando Manuel Alegre e levando por prisioneiro o próprio primeiro-ministro.
Por outro lado, quem não está a gostar do rumo da governação é o Presidente Jorge Sampaio. Sampaio não quer ser um equívoco histórico entre Soares I e Soares II, e começou já a marcar Sócrates, o elo mais fraco da candidatura presidencial dos socialistas. Atacou o Governo socialista nos incêndios e esta semana humilhou o primeiro-ministro em frente dos militares, sentando-o como o ministro da Defesa com os chefes militares de decidiram protestar contra as decisões administrativas do Governo.
É o lado soixante-huitard de Sampaio a reagir contra o argumento de autoridade, agravando a crise do Estado e a falta de respeito pelas instituições e pela autoridade do primeiro-ministro, em nome de um vago sentimento de unidade nacional, generoso, mas que coloca o Estado em causa. E, Sampaio, bem informado e politicamente avisado, sabe bem o efeito do seu gesto: desgasta o primeiro-ministro e sabe que Sócrates não tem autoridade nem força política para obrigar o presidente a promulgar ou a não promulgar sem diligências públicas humilhantes para o chefe do executivo.
Assumindo-se como comandante em Chefe das Forças Armadas, o Presidente da República está basicamente a diminuir o chefe do Governo, exactamente, para, desse modo, diminuir também Mário Soares e a candidatura socialista, legitimada pelo primeiro-ministro.
Basicamente, Sampaio poderá mesmo, mais tarde ou mais cedo, agravar o cerco aos socialistas e ao Governo, o que, admitem fontes social-democratas, poderá ser entendido como um sinal de compreensão pelas razões da candidatura nacional, e não partidária como a de Soares, de Cavaco Silva à Presidência da República.
Ora, cercado pelo aparelho socialista que quer mandar no Governo e nos negócios do Estado, maltratado por Soares que lhe retirou todo o espaço de liberdade e de escolha nas presidenciais e, finalmente, “malhado” pelo próprio Presidente da República nos seus últimos quatro meses de mandato. O primeiro-ministro pode sentir-se isolado e sem condições de Governo.
E o pior nem seria isso. Sócrates tem preparação política e capacidade e já não é ingénuo. Sabe quanto custa o poder e como com o PS tudo é mais complicado. Conhece bem as peças e ate poderia destrui-las assim o quisesse. Num congresso, Sócrates poderia sempre tirar todo o poder a Jorge Coelho, que só existe na política enquanto tiver o palco do PS, admite-se no PSD.
O problema também não seria Soares. Que Sócrates, estando em Belém, pode sempre destruir, pois é ele que dá empregos e “assina o cheque”. Nem mesmo Sampaio, desacreditado em fim de mandato e sem futuro algum.
O problema é que a situação económica não melhora, piora todos os dias e que a acção do Governo tem sido errada e agravado a crise económica e de confiança no País. O problema é que não há volta a dar. Ou seja: o problema permanece o mesmo que Barroso e Guterres enfrentaram. Isto parece ingovernável e, portanto, mais vale abandonar a política e o Governo. A capacidade de intervenção do Governo é actualmente quase nula e ninguém valoriza o esforço do governante.
Ou seja, prevê-se já que, à semelhança de Guterres e Barroso, Sócrates seja tentado a abandonar o Governo de Lisboa e partir para uma carreira internacional ou outra, deixando livre o caminho para Cavaco Silva convocar eleições legislativas antecipadas.
Ora, neste contexto, para Marques Mendes é natural que o PSD ganhe essas eleições, eventualmente marcadas para Outubro de 2006. As legislativas normalmente dever-se-iam realizar apenas em 2009, mas num contexto de crise económica agravada e de duas derrotas sucessivas do PS – nas autárquicas e nas presidenciais -, a legitimidade política da maioria parlamentar fica definitivamente prejudicada e, portanto, teria sempre que haver eleições antecipadas.
Neste particular, Cavaco Silva, sendo um institucional, não cometerá o erro de Sampaio com Santana Lopes, dizem fontes mendistas.
E é exactamente aqui, no carácter institucional de Cavaco Silva que o PSD se divide. Para uns, Cavaco Silva nunca fará eleições antecipadas antes de substituir a direcção do PSD. Ou seja, antes de colocar à frente do partido um cavaquista: eventualmente Ferreira Leite, embora António Borges, apesar de desacreditado, continuar a acalentar esperanças de conseguir chegar à liderança do partido.
Nesse sentido, o próximo ciclo seria cavaquista e Arnaut, Sarmento e Relvas poderiam ser úteis nessa estratégia, mudando em tempo oportuno do lado de Marques Mendes para os dos cavaquistas, tornando assim úteis para o ciclo seguinte, acreditam os críticos da aproximação dos barrosistas a Mendes.
Já os mendistas crêem, que sendo Cavaco Silva, um institucionalista jamais se imiscuirá na vida interna do partido, como aliás o tem feito nos últimos dez anos, destinguindo-se tambem por isso, de Mário Soares, no entendimento que faz do papel moderador do presidente da Republica. E nesse sentido, Cavaco Silva fará como qualquer outro Presidente da República, antes de Sampaio: dará posse ao líder do maior partido parlamentar, ou seja, permitirá que Marques Mendes, sendo um nogueirista e não um cavaquista, chegue à chefia do Governo, eventualmente negociando, claro está, as pastas fundamentais para os cavaquistas. Trata-se obviamente de algo que Marques Mendes estará preparado para aceitar, comenta-se no PSD.|