Lisboapor Pedro Cid

O PSD de Lisboa ficou esfrangalhado com as eleições de Lisboa, com o eleitorado, seu apoiante, que se quis exprimir (uso esta expressão para vincar o excessivo peso da abstenção) dividido ao meio, mas não
irremediavelmente perdido para o futuro.
Carmona Rodrigues e Helena Roseta podem, ou não, ser epifenómenos no concelho de Lisboa.

Em Julho, o País não se incendiou, como aconteceu em anos anteriores. Os louros são provavelmente repartidos entre as medidas preventivas assumidas pelos poderes públicos – e desta vez eficazes – e pela população em geral, que toma mais cuidado na sua relação com a natureza e, sobretudo, com a floresta. É uma boa notícia. Espera-se que Agosto e Setembro sigam com o mesmo exemplo. Já nos chega assistir à angústia dos fogos nas ilhas Canárias ou em certas regiões da Grécia…
Em Lisboa, anda-se mais devagar, mas mesmo assim os “flashs” dos radares estão em movimento constante, tirando fotografias aos veículos com excesso de velocidade. O medo à multa faz milagres. Somos uns condutores muito abusadores em relação aos limites de velocidade, mas a verdade é que há situações anacrónicas. Não faz sentido em certas vias colocar 50 km como velocidade mínima, sobretudo em locais onde não há trânsito de peões. Aliás, uma certa tolerância já era apanágio das autoridades. Um dia, há já alguns anos, fui apanhado em excesso de velocidade. Ia, em plena cidade, a 90 km, numa zona onde o limite era 50 km. Expliquei ao guarda as minhas razões e ele contristado disse-me: mas os nossos radares já estão “tabelados” nos 80 km… A tolerância era evidente, foi a multa mais justa que paguei até hoje… Mas é uma verdade que a sinistralidade diminui na capital portuguesa. Vamos inundar o País com radares? Como factor de prevenção e não com o intuito da caça à multa…
António Costa foi empossado como presidente da Câmara de Lisboa, com uma quase pré-coligação com o Bloco de Esquerda e a perspectiva de entendimento pontual com os dois vereadores eleitos pelo movimento de independentes liderados por Helena Roseta.
O PS volta ao poder na maior autarquia do País. Apesar da fragilidade com que foi eleito, António Costa merece o benefício da dúvida, ampliado para além dos cem dias da praxe política, porque a tarefa de reorganização e de reabilitação do prestígio da Câmara é uma tarefa muito complicada.
É nos momentos difíceis que se avalia a fibra de um político e, em Lisboa, António Costa atinge o Rubicão… Tem de trabalhar duramente e mostrar capacidade de liderar uma equipa plural, que não está imune aos jogos de poder.
Um acordo com o Bloco de Esquerda, que praticamente configura uma coligação de governo autárquico, é algo absolutamente inédito no xadrez político português. Se funcionar, projecta António Costa para a reeleição e o Bloco de Esquerda como parceiro político fiável. O executivo de Lisboa vai ser até às próximas autárquicas um novo laboratório de análise política…
O PSD de Lisboa ficou esfrangalhado com as eleições de Lisboa, com o eleitorado, seu apoiante, que se quis exprimir (uso esta expressão para vincar o excessivo peso da abstenção) dividido ao meio, mas não irremediavelmente perdido para o futuro. Carmona Rodrigues e Helena Roseta podem, ou não, ser epifenómenos no concelho de Lisboa. Uma é dissidente partidária, que utilizou o legal mecanismo dos movimentos independentes. Carmona Rodrigues, agora vereador, sem pelouro, não terá, em 2009, o sucesso eleitoral que agora teve. É fatal. O poder quando se perde, nestas circunstâncias, permite a criação, momentânea, de heróis numa conjuntura irrepetível em outro acto eleitoral. Veja-se o exemplo da terceira candidatura presidencial de Mário Soares… E tinha o apoio do PS, de José Sócrates e do aparelho socialista….
O PSD deve reorganizar-se em Lisboa, procurando uma liderança credível e não aparelhística ou de facção. Alguém que tenha carreira política credível, capacidade de liderança e de aglutinação. Helena Lopes da Costa, no meu modesto entender, não encaixa nesse perfil, por mais intenso que seja (e acredito que é) o seu fervor partidário. Fazer oposição responsável em Lisboa significa analisar e ponderar a acção que vier a ser desenvolvida por António Costa. E isso, passa por apoiar acções e decisões que sejam boas para a cidade, procurar cimentar políticas de cidade alternativas para convencer os lisboetas de que, após esta crise, o PSD pode fazer mais e melhor do que o PS e António Costa. Fernando Negrão, agora militante do PSD, pode ter um papel crucial nesse desempenho credível que se exige aos social-democratas.
O CDS desapareceu do mapa lisboeta. É pena, mas só pode culpar-se a si próprio!
Os comunistas mantêm a sua influência eleitoral. Não podem ser exorcizados e as suas opiniões devem ser ouvidas por quem agora governa Lisboa.
E assim partimos para férias…. O País fica parado até ao fim do mês… É o ciclo que se repete em cada ano, ainda que com as bolsas domésticas cada vez mais vazias….