2026/06/30

FMI admite recessão com guerra longa no Iraque

O Fundo Monetário Internacional (FMI) admite a possibilidade de recessão económica global, caso a guerra no Iraque seja prolongada, impulsionando os preços do petróleo e afectando a confiança dos consumidores, reconheceu o director da instituição em entrevista à revista alemã Wirtschaftswoche, citada pela Infobolsa.

Horst Koehler referiu que em caso de um conflito prolongado, não podemos excluir a possibilidade de uma recessão global.

Esperamos um crescimento económico global de cerca de 3 por cento este ano, o que pressupõe uma guerra curta no Iraque e uma recuperação gradual na segunda metade do ano, referiu ainda o responsável, para quem mesmo um conflito curto funcionará como um obstáculo ao crescimento económico. Além disso, o FMI considera que existe espaço para baixar mais as taxas de juro.

No panorama da economia europeia, o responsável afirmou que infelizmente, tivemos de baixar as estimativas para a Europa e adiantou ainda que a Alemanha, a maior economia do Velho Continente, deverá registar um crescimento significativamente inferior ao 1 por cento previsto pelo Governo.

Koehler afirmou ainda não estar preocupado com a valorização do euro nas exportações alemãs, já que isso será a consequência lógica do elevado défice dos Estados Unidos, apesar de ressalvar que um dólar em queda livre seria indesejável e que, a acontecer, os bancos centrais teriam de tomar as medidas necessárias para reparar a situação.

Um Governo de combatepor Pedro Cid

A guerra segue o seu caminho. Mediática na amplitude que os contendores entenderem conveniente.

Seguramente muito restrita na informação substantiva do ponto de vista militar. Apesar da pressão das parabólicas e da vontade dos jornalistas, nunca saberemos com exactidão, ou com absoluto rigor, o que se passa, em cada momento, no teatro da guerra.

Só conheceremos o desfecho final, quando ele ocorrer. Haverá quem possa dar mais ou menos informações de acordo com as conveniências dos beligerantes. Contudo, haverá, sempre, a face oculta da guerra.

Basta dizer que, de certa forma, os jornalistas, correspondentes de guerra ou não, correndo maiores ou menores riscos, estão sempre dependentes dos aparelhos militares. O que, como se compreende, é fortemente limitativo do ponto de vista jornalístico.

Em Portugal, a guerra inquinou o ambiente político. O PS e o PSD divergiram em pontos essenciais da política externa, fazendo tábua rasa de um consenso tão velho quanto os 29 anos que levamos de democracia. Houve uma aproximação tácita de todos os partidos de esquerda, com uma liderança difusa, mas onde o Bloco de Esquerda surge claramente como locomotiva, perante a incomodidade do sector moderado do Partido Socialista.

Este é um facto novo na política portuguesa, que já se vinha desenhando com certa nitidez, mas agora assumido plenamente por Ferro Rodrigues, para surpresa de muita gente. A questão está agora em saber como vai funcionar essa coligação de esquerda em termos de poder. Fica, de momento, por esclarecer, se esta convergência na censura ao Governo é uma mera manobra táctica do PS, ou se se insere numa estratégia de médio prazo, num empenhamento colectivo para derrubar o actual Governo, de preferência antes do termo da legislatura, contando, eventualmente, com a cumplicidade discreta do actual Presidente da República.

Cumpre reconhecer que os tempos não são fáceis para o Governo, nem para Durão Barroso e mais difíceis se tornarão se a guerra se prolongar muito para além do previsto. Há duas frentes políticas muito exigentes diria quase absorventes – a política externa e a situação interna do País. O primeiro-ministro não pode perder de vista o que se passa dentro deste pequeno rectângulo continental e das duas regiões autónomas.

Infelizmente, para Durão Barroso o seu Governo original não é um supermodelo de competências, e há ministérios onde as tensões de topo são já indisfarçáveis. O Governo deve apurar, agora, mais do que nunca, a sua sensibilidade social. O aumento de desemprego origina gastos muito vultuosos no subsídio do desemprego. Então, talvez seja justo e oportuno repensar como é que essas verbas podem ser utilizadas, não para subsidiar desempregados mas para criar mais emprego.

Apesar da rigidez da ministra das Finanças, em épocas de crise, as obras públicas são um pilar essencial, como fonte de emprego. E nessa área ainda temos muito para fazer.

Há conceitos inovadores na política do Governo, como a chamada diplomacia económica. Mas como entender que se projecte encerrar o consulado português de Porto Alegre, onde estão sediadas empresas portuguesas, e que se situa estrategicamente, de tal modo que há quem a apelide Porto Alegre a capital do Mercosul?

E o consulado português de Hong-Kong, também não tem justificação o seu encerramento. É uma visão redutora falar-se da sua proximidade com Macau – é diferente a todos os títulos, desde a génese até à sua vocação como ponto nuclear de representação dos interesses portugueses.

E já se analisaram, com rigor, os efeitos desastrosos da política junto das comunidades portuguesas que está a ser seguida pelo secretário de Estado, José Cesário, de quem aliás sou amigo e por quem tenho uma enorme consideração pessoal? Que ideia é essa de criar dois Conselhos das Comunidades – um de eleitos e outro de nomeados? E que dizer das questões relativas aos Transportes Marítimos, que tanto preocupam o Secretário de Estado, Vieira de Castro, e que revelam, porventura, má informação e deficiente coordenação?

Situações excepcionais podem justificar decisões excepcionais. É o primeiro ministro que tem a responsabilidade de fazer a avaliação das situações decorrentes da conjuntura internacional. Em todo o caso, creio poder dizer que o País precisa de um verdadeiro Governo de combate, onde a negligência e sobretudo a incompetência não possam ter lugar.

Se a guerra se prolongar e com isso for retardada a retoma da economia por que todos ansiamos, talvez se justifique a adaptação da estrutura do Governo à própria crise, com uma antecipada remodelação, avalizada por uma moção de confiança.

O primeiro-ministro precisa de ter a capacidade para recrutar três ou quatro grandes figuras da vida portuguesa, mesmo independentes, reduzir as secretarias de Estado, eliminar alguns parasitas que já se sentam à mesa do Orçamento.

A situação excepcional justificará, porventura, a indicação de um vice-primeiro-ministro político, com especial sensibilidade para as questões sociais e económicas.

Durão Barroso já enfileira nos estadistas que a democracia forjou. Muitos se admiram com a sua coragem, sentido de determinação, capacidade de decisão e de liderança. Seria injusto que fosse a guerra a derrotar os seus objectivos de implantar o novo modelo que idealizou para o País.

“Primavera” curda à espera de desabrochar

Há treze anos que os curdos iraquianos vivem uma espécie de “primavera” na sua sociedade. Depois de décadas sob o jugo de Bagdad, o “protectorado” da ONU no norte do Iraque permitiu aos curdos desenvolverem um “oásis” político, económico e social, numa região composta por regimes autoritários.

Treze anos depois da implementação de uma zona de segurança no norte do Iraque, os curdos voltam a enfrentar a potencial ira vinda de Bagdad. Hoje, os 5 milhões de curdos que habitam naquela região encontram-se literalmente entalados entre as forças de Saddam Hussein e as tropas governamentais de Ancara.

Mas, se as primeiras poderão ficar inoperativas assim que o ditador de Bagdad caia aos pés da coligação anglo-americana, já o mesmo não se poderá aplicar aos soldados turcos. Estes poderão estar na iminência de invadir o curdistão iraquiano, naquilo que poderia ser visto pela Turquia como uma forma de resolver um problema de décadas e que tem provocado ondas de terrorismo naquele país.

Aliás, tem sido esta incógnita que estará a complicar a estratégia de Washington e alimentar os piores receios dos dirigentes e populares curdos. Conscientes do perigo que correm perante os intentos de Ancara, os curdos parecem estar dispostos a defender o seu pedaço de território a todo o custo. Como escrevia há uns anos na revista “Grande Reportagem”, Peter Strandberg classificava o curdistão como a “terra da insolência”, que jamais se vergaria às vontades do Governo turco.

Foi neste espírito de resistência que em 1978 Abudllah Ocalan, um antigo estudante da Universidade de Ancara, fundou o PKK (antigo partido de inspiração marxista) para, seis anos mais tarde, iniciar uma campanha terrorista contra a Turquia. Ocalan tornou-se a partir de 1984 o inimigo público número um de Ancara, mas também o símbolo de libertação do povo curdo. Conotado como uma organização terrorista, o PKK foi estabelecendo relações com outras organizações curdas como o ARGK (Exército Popular do Curdistão), o ERNK (Frente Popular do Curdistão), entre outras.

Também no exterior o PKK foi estabelecendo ligações, nomeadamente no Médio Oriente, mais especificamente no Líbano, no vale de Beka, controlado pelo exército sírio. Finalmente, no ano passado, o PKK mudou o nome para KADEK (Congresso para a Libertação e Democracia no Curdistão), numa estratégia de reformulação do partido, depois do histórico líder Ocalan ter sido preso em 1999 no Quénia.

Na arena política, o KDP e o PUK são os partidos de maior relevo no curdistão iraquiano, tendo o primeiro vencido as eleições legislativas de 12 de Março de 1992, as primeiras depois daquele território ter adquirido autonomia face a Bagdad, com a aplicação da resolução 688 das Nações Unidas, em 1991.

Actualmente, o KDP e o PUK partilham o mesmo número de lugares no parlamento curdo e são as frentes políticas das reivindicações independentistas do curdistão iraquiano.

Há mais de meio século que os curdos do norte do Iraque se têm tentado libertar do jugo de Bagdad, no entanto, esses esforços revelaram-se sempre infrutíferos e foram muitas vezes castigados com duras represálias pelas forças de Saddam, como foi exemplo o massacre de Halajba, em 1988, no qual morreram 5 mil curdos.

Com a invasão iraquiana do Kuwait, em 1990, e a consequente guerra do Golfo, os curdos beneficiaram de uma espécie de “protectorado” das Nações Unidas, que lhes permitiu na última década desenvolver um país dentro de outro país, onde, na verdade, se distinguiu dos outros “curdistões”, por seguir uma linha democrática, com liberdade de expressão e tolerância religiosa e às minorias étnicas.

Este pequeno “oásis” começou a ser criado numa primeira fase em 1991, com a Frente Unida do Curdistão (coligação de seis partidos), e depois das eleições de 1992, nas quais o KDP de Barzani obteve 51 assentos do parlamento, contra os 49 do PUK de Talabani. Em Julho de 1992 é então formado um Governo de unidade nacional, que provocou imediatamente reuniões trimestrais dos ministros dos Negócios Estrangeiro de Damasco, de Teerão e de Ancara para “vigiar a situação no norte do Iraque”.

Pela primeira vez depois de mais de um século, os curdos administram, por um tão longo período de tempo, uma parte do seu território histórico. Na verdade, os últimos anos foram benéficos para a sociedade curda iraquiana, nos campos político, económico e cultural. “E, no conjunto, eles saem-se bem.

Esta primavera curda suscita bastantes esperanças junto dos 25 a 30 milhões de curdos que vivem dispersos na Turquia, Irão e Síria”, escrevia Kendal Nezan, Presidente do Instituto Curdo de Paris, no “Le Monde Diplomatique”, em Agosto de 2001.

Curdistão, um barril de pólvora (ainda) sem o rastilho aceso

No curdistão iraquiano o ambiente é “tenso e incerto”, e todos aguardam de forma expectante que alguém acenda o rastilho que fará explodir aquele autêntico barril de pólvora. Os americanos já desistiram do plano inicial que tinham para a frente norte, ao mesmo tempo que os curdos iraquianos já se mobilizaram defensivamente para uma eventual ofensiva turca. Por outro lado, Moscovo olha com desconfiança para as potenciais movimentações estratégicas que se adivinham naquela região. Quem também não deve estar a encarar com bons olhos a efervescência no curdistão iraquiano, são os regimes de Teerão e Damasco, também eles governantes de retalhos territoriais da nação curda.

A nublada situação que se vive na fronteira da Turquia com o norte do Iraque poderá transformar-se num autêntico pesadelo para os estrategos de Washington. Em prontidão absoluta para avançar sobre o curdistão iraquiano (os turcos criaram, entretanto, uma zona tampão a 20 quilómetros da fronteira em território iraquiano), por modo a garantir a segurança e a estabilidade da Turquia, as forças turcas estão a deixar nervosos todos os intervenientes no conflito.

Os americanos já desistiram do plano inicial que tinham para a frente norte, ao mesmo tempo que os curdos iraquianos já se mobilizaram defensivamente para uma eventual ofensiva turca.

Os peshmergas (milícias curdas) tomaram posições ao longo do norte do Iraque para impedir qualquer progressão das forças turcas. Aliás, perante esta ameaça os chefes nacionalistas históricos curdos, Masud Barzani do Partido Democrático do Curdistão (KDP) e Yalal Talabani, da União Patriótica do Curdistão (PUK), colocaram as suas divergências momentaneamente de lado para formarem um pacto conjunto das suas forças.

Assim, cerca de 70 mil peshmergas, equipados com as velhinhas Kaláshnikov, com granadas de mão e alguns morteiros, estão a postos para enfrentar o segundo exército mais numeroso da NATO.

Além do mais, Talabani e Barzani não escondem os seus desejos de reocupar as províncias de Mosul e Kirkut, que têm os campos petrolíferos mais produtivos do Iraque, com 800 mil barris de crude diários. Neste capítulo os americanos parecem estar com claras dificuldades em refrear os ímpetos curdos.

Por outro lado, Moscovo olha com desconfiança para as movimentações, ou melhor dizendo potenciais movimentações estratégicas que se adivinham naquela região. Quem também não deve estar a encarar com bons olhos a efervescência no curdistão iraquiano, são os regimes de Teerão e Damasco, também eles governantes de retalhos territoriais da nação curda.

Relembre-se que existe cerca de um milhão de curdos no norte da Síria, cinco milhões no noroeste iraniano e outros cinco no norte do Iraque, sem contar com os 12 milhões de curdos que residem dentro das fronteiras turcas.

À semelhança do que se passa com a Turquia, a Síria e o Irão receiam os efeitos do irredentismo curdo e, de acordo com a última edição da revista “The Economist”, surgiram alguns rumores de que o regime de Teerão estaria disposto a permitir uma pequena incursão turca no norte do Iraque (ficando de fora Kirkut e Mosul), por modo a garantir a manutenção das “fronteiras de segurança naquela região.

Apesar da situação ser preocupante, não é ainda explosiva. “A guerra está a chegar devagarinho ao norte do Iraque, se calhar apressada pelos contratempos no sul do país”, escrevia esta semana o enviado do “Independent” (transcrito pelo DN) àquela região. No entanto, a questão do curdistão poder-se-á tornar no principal desafio pós-guerra para os Estados Unidos.

Décadas sob o jugo de Ancara, os curdos poderão agora aproveitar a “caixa de pandora” aberta em Bagdad para materializarem as suas reivindicações nacionalistas, expressas há vários anos, por vezes de forma violenta através de actos terroristas, de como aliás o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, guerrilha independentista), liderado nos tempos de Ocalan, é exemplo.

Para já, a coligação anglo-americana não revela os planos que tem para aquela área. Com as armas apontadas a Bagdad, apenas se sabe que têm sido bombardeadas algumas posições iraquianas no norte do Iraque em Mossul e Kirkuk, e sido mobilizadas de algumas forças aerotransportadas para a região.

Seja qual for o plano adoptado pelo Pentágono na abordagem ao norte do Iraque, será sempre um plano de recurso, depois do Parlamento de Ancara ter recusado ao tradicional aliado norte-americano, por duas vezes (1 e 20 de Março), o direito de passagem e estacionamento de 62 mil soldados norte-americanos.

Os deputados turcos, pressionados pela sua forte opinião pública contra a guerra, permitiram apenas a utilização por parte dos americanos do espaço aéreo da Turquia. Desta forma, de pouco valeram os apelos do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, aos deputados da assembleia, que se viu numa situação periclitante, entre as exigências de Washington e os anseios da sua população.

Tendo como Bagdad em pano de fundo, tudo indica que os americanos vão tentar manter “adormecida” a região do norte do Iraque o mais tempo possível. Aqui as estratégias dividem-se entre Ancara, Damasco e Teerão. Relativamente à primeira, o Governo norte-americano tem tentado ao longo desta semana alcançar um compromisso com o Governo de Erdogan.

Na terça-feira, o enviado norte-americano a Ancara, Zalmay Khalilzad, anunciou que as negociações iriam prolongar-se até ao final desta semana, após um dia de conversações que não chegaram a conclusão alguma. “Este é um tema difícil e complexo”, disse Khalilzad.

Apesar dos Estados Unidos e da União Europeia terem apelado à Turquia para não enviar soldados para o norte do Iraque, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Abdullah Gull, afirmou que o seu país pode mandar as suas tropas quando quiser para o norte iraquiano “por razões humanitárias ou para prevenir uma hipótese de terrorismo”, numa clara alusão ao movimento curdo.

Quanto à estratégia assumida com a Síria é ainda pouco clara quais os seus contornos, no entanto, no caso do Irão, sabe-se que os Estados Unidos, prometeram a Teerão combater os Mujahideen do Povo, grupo opositor ao regime iraniano e sediado no Iraque. Esta é claramente uma tentativa, por parte de Washington, de desencorajar qualquer iniciativa militar iraniana no norte do Iraque.

No entanto, as precauções estratégicas norte-americanas revelam-se infrutíferas quando aplicadas às próprias forças iraquianas que, com o falhanço de uma ofensiva terrestre anglo-americana no norte do Iraque, receberam uma “prenda preciosa de tempo”. De acordo com guerrilheiros e comandantes curdos ao “Los Angeles Times”, as tropas iraquianas estão a movimentar-se livremente no norte do Iraque, a cavar trincheiras, a expandir campos de minas e a minar pontes perto de Mosul, a terceira maior cidade do país.

Ainda as mesmas fontes curdas referem que o contingente militar iraquiano naquela região está a reforçar-se, tendo chegado novos comandantes, incluindo elementos da Guarda Republicana.
Estas movimentações estão a deixar nervosos os militares curdos, que estão igualmente preocupados com a possibilidade de virem a ser o último reduto de vingança das tropas leais a Saddam Hussein, depois deste ser removido poder em Bagdad.

“Estes são grupos (tropas fiéis a Saddam) que cometeram vários crimes, por isso, o destino deles está ligado ao destino de Saddam”, disse um oficial dos serviços de informação do KDP ao enviado especial do “Los Angeles Times” a Kalaq, norte do Iraque. “É por isso que eles poderão tentar fazer qualquer coisa”, depois do seu líder perder os desígnios do Iraque, acrescentou a mesma fonte.

Curdistão, um barril de pólvora (ainda) sem o rastilho aceso

No curdistão iraquiano o ambiente é “tenso e incerto”, e todos aguardam de forma expectante que alguém acenda o rastilho que fará explodir aquele autêntico barril de pólvora. Os americanos já desistiram do plano inicial que tinham para a frente norte, ao mesmo tempo que os curdos iraquianos já se mobilizaram defensivamente para uma eventual ofensiva turca. Por outro lado, Moscovo olha com desconfiança para as potenciais movimentações estratégicas que se adivinham naquela região. Quem também não deve estar a encarar com bons olhos a efervescência no curdistão iraquiano, são os regimes de Teerão e Damasco, também eles governantes de retalhos territoriais da nação curda.

A nublada situação que se vive na fronteira da Turquia com o norte do Iraque poderá transformar-se num autêntico pesadelo para os estrategos de Washington. Em prontidão absoluta para avançar sobre o curdistão iraquiano (os turcos criaram, entretanto, uma zona tampão a 20 quilómetros da fronteira em território iraquiano), por modo a garantir a segurança e a estabilidade da Turquia, as forças turcas estão a deixar nervosos todos os intervenientes no conflito.

Os americanos já desistiram do plano inicial que tinham para a frente norte, ao mesmo tempo que os curdos iraquianos já se mobilizaram defensivamente para uma eventual ofensiva turca.

Os peshmergas (milícias curdas) tomaram posições ao longo do norte do Iraque para impedir qualquer progressão das forças turcas. Aliás, perante esta ameaça os chefes nacionalistas históricos curdos, Masud Barzani do Partido Democrático do Curdistão (KDP) e Yalal Talabani, da União Patriótica do Curdistão (PUK), colocaram as suas divergências momentaneamente de lado para formarem um pacto conjunto das suas forças. Assim, cerca de 70 mil peshmergas, equipados com as velhinhas Kaláshnikov, com granadas de mão e alguns morteiros, estão a postos para enfrentar o segundo exército mais numeroso da NATO.

Além do mais, Talabani e Barzani não escondem os seus desejos de reocupar as províncias de Mosul e Kirkut, que têm os campos petrolíferos mais produtivos do Iraque, com 800 mil barris de crude diários. Neste capítulo os americanos parecem estar com claras dificuldades em refrear os ímpetos curdos.

Por outro lado, Moscovo olha com desconfiança para as movimentações, ou melhor dizendo potenciais movimentações estratégicas que se adivinham naquela região. Quem também não deve estar a encarar com bons olhos a efervescência no curdistão iraquiano, são os regimes de Teerão e Damasco, também eles governantes de retalhos territoriais da nação curda.

Relembre-se que existe cerca de um milhão de curdos no norte da Síria, cinco milhões no noroeste iraniano e outros cinco no norte do Iraque, sem contar com os 12 milhões de curdos que residem dentro das fronteiras turcas.

À semelhança do que se passa com a Turquia, a Síria e o Irão receiam os efeitos do irredentismo curdo e, de acordo com a última edição da revista “The Economist”, surgiram alguns rumores de que o regime de Teerão estaria disposto a permitir uma pequena incursão turca no norte do Iraque (ficando de fora Kirkut e Mosul), por modo a garantir a manutenção das “fronteiras de segurança naquela região.

Apesar da situação ser preocupante, não é ainda explosiva. “A guerra está a chegar devagarinho ao norte do Iraque, se calhar apressada pelos contratempos no sul do país”, escrevia esta semana o enviado do “Independent” (transcrito pelo DN) àquela região. No entanto, a questão do curdistão poder-se-á tornar no principal desafio pós-guerra para os Estados Unidos.

Décadas sob o jugo de Ancara, os curdos poderão agora aproveitar a “caixa de pandora” aberta em Bagdad para materializarem as suas reivindicações nacionalistas, expressas há vários anos, por vezes de forma violenta através de actos terroristas, de como aliás o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, guerrilha independentista), liderado nos tempos de Ocalan, é exemplo.

Para já, a coligação anglo-americana não revela os planos que tem para aquela área. Com as armas apontadas a Bagdad, apenas se sabe que têm sido bombardeadas algumas posições iraquianas no norte do Iraque em Mossul e Kirkuk, e sido mobilizadas de algumas forças aerotransportadas para a região. Seja qual for o plano adoptado pelo Pentágono na abordagem ao norte do Iraque, será sempre um plano de recurso, depois do Parlamento de Ancara ter recusado ao tradicional aliado norte-americano, por duas vezes (1 e 20 de Março), o direito de passagem e estacionamento de 62 mil soldados norte-americanos.

Os deputados turcos, pressionados pela sua forte opinião pública contra a guerra, permitiram apenas a utilização por parte dos americanos do espaço aéreo da Turquia. Desta forma, de pouco valeram os apelos do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, aos deputados da assembleia, que se viu numa situação periclitante, entre as exigências de Washington e os anseios da sua população.

Tendo como Bagdad em pano de fundo, tudo indica que os americanos vão tentar manter “adormecida” a região do norte do Iraque o mais tempo possível. Aqui as estratégias dividem-se entre Ancara, Damasco e Teerão. Relativamente à primeira, o Governo norte-americano tem tentado ao longo desta semana alcançar um compromisso com o Governo de Erdogan.

Na terça-feira, o enviado norte-americano a Ancara, Zalmay Khalilzad, anunciou que as negociações iriam prolongar-se até ao final desta semana, após um dia de conversações que não chegaram a conclusão alguma. “Este é um tema difícil e complexo”, disse Khalilzad.

Apesar dos Estados Unidos e da União Europeia terem apelado à Turquia para não enviar soldados para o norte do Iraque, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Abdullah Gull, afirmou que o seu país pode mandar as suas tropas quando quiser para o norte iraquiano “por razões humanitárias ou para prevenir uma hipótese de terrorismo”, numa clara alusão ao movimento curdo.

Quanto à estratégia assumida com a Síria é ainda pouco clara quais os seus contornos, no entanto, no caso do Irão, sabe-se que os Estados Unidos, prometeram a Teerão combater os Mujahideen do Povo, grupo opositor ao regime iraniano e sediado no Iraque. Esta é claramente uma tentativa, por parte de Washington, de desencorajar qualquer iniciativa militar iraniana no norte do Iraque.

No entanto, as precauções estratégicas norte-americanas revelam-se infrutíferas quando aplicadas às próprias forças iraquianas que, com o falhanço de uma ofensiva terrestre anglo-americana no norte do Iraque, receberam uma “prenda preciosa de tempo”. De acordo com guerrilheiros e comandantes curdos ao “Los Angeles Times”, as tropas iraquianas estão a movimentar-se livremente no norte do Iraque, a cavar trincheiras, a expandir campos de minas e a minar pontes perto de Mosul, a terceira maior cidade do país.

Ainda as mesmas fontes curdas referem que o contingente militar iraquiano naquela região está a reforçar-se, tendo chegado novos comandantes, incluindo elementos da Guarda Republicana.

Estas movimentações estão a deixar nervosos os militares curdos, que estão igualmente preocupados com a possibilidade de virem a ser o último reduto de vingança das tropas leais a Saddam Hussein, depois deste ser removido poder em Bagdad. “Estes são grupos (tropas fiéis a Saddam) que cometeram vários crimes, por isso, o destino deles está ligado ao destino de Saddam”, disse um oficial dos serviços de informação do KDP ao enviado especial do “Los Angeles Times” a Kalaq, norte do Iraque. “É por isso que eles poderão tentar fazer qualquer coisa”, depois do seu líder perder os desígnios do Iraque, acrescentou a mesma fonte.