2026/07/01

Sampaio pondera aceitar recandidatura às presidenciais de 2011

Jorge Sampaio está a ser desafiado para recandidatar-se a Belém nas próximas eleições presidenciais.

Tal como o SEMANÁRIO referiu pela primeira vez há um mês, há sectores socialistas moderados, próximos de José Sócrates, que estão a desafiar Jorge Sampaio para se recandidatar às presidenciais de 2011. O aumento da conflitualidade entre Cavaco e Sócrates, em virtude do caso das escutas em Belém, ainda aumentou mais as pressões para que Sampaio aceite o desafio. O facto de Manuel Alegre não congregar a unanimidade no seio do PS, face à clivagem que abriu com o partido nas presidenciais de 2006, ainda abre mais as portas à necessidade da candidatura reunificadora de Sampaio. Entretanto, apesar de ser ainda cedo, o SEMANÁRIO sabe que Jorge Sampaio aceita ponderar a recandidatura se estiverem reunidas as condições políticas.
Na verdade, se já antes havia movimentações para convencer Sampaio a recandidatar-se a Belém, a intervenção desta terça-feira de Cavaco Silva, acusando o PS de manipulação e manobras para iludir as atenções, estas aumentaram de intensidade nos últimos dias. Cavaco Silva subiu a escala da conflitualidade com o PS a níveis que se pensavam impensáveis e a forma de lhe responder pode passar, de facto, pela apresentação de um candidato oficial do PS muito forte às presidenciais de 2011, capaz de vencer Cavaco Silva se este se recandidatar. José Sócrates e o PS não têm espaço de manobra para manter a crispação com Cavaco, face à contigência do PS não ter maioria absoluta e de a convivência institucional ser obrigatória, quanto mais não seja pela preocupante situação económica e social em que o país continua a viver. Assim, a luta com Cavaco a partir da plataforma das eleições presidenciais de 2011 seria a melhor forma de fazer a luta contra Cavaco, derrotando-o por fim.
Recorde-se que as palavras de Cavaco na intervenção de terça-feira atacaram directamente o PS. Cavaco disse que no Verão foi ” surpreendido com declarações de destacadas personalidades do partido do Governo exigindo ao Presidente da República que interrompesse as férias e viesse falar sobre a participação de membros da sua casa civil na elaboração do programa do PSD”. Os socialistas referidos tratam-se de Vitalino Canas e José Junqueiro, que reagiram a uma notícia publica a 8 de Agosto no Semanário. Na intervenção ao país, Cavaco Silva chega a dar a sua interpretação sobre as declarações de ambos os socialistas. “Pretendia-se, quanto a mim, alcançar dois objectivos com aquelas declarações: Primeiro: Puxar o Presidente para a luta político-partidária, encostando-o ao PSD, apesar de todos saberem que eu, pela minha maneira de ser, sou particularmente rigoroso na isenção em relação a todas as forças partidárias.
Segundo: Desviar as atenções do debate eleitoral das questões que realmente preocupavam os cidadãos.” Recorde-se, também, que foram estas declarações de Vitalino Canas e José Junqueiro que levaram a que uma fonte anónima da Presidência da República, em declarações ao Público, dissesse que o Palácio de Belém poderia estar a ser vigiado, despoletando uma série de acontecimentos, que culminaram na divulgação do email entre jornalistas referindo o nome de Fernando Lima e na demissão do assessor de imprensa do Presidente da República. No entanto, na sua intervenção de terça-feira, Cavaco Silva desvalorizou estas suspeitas de escutas em Belém, verbalizadas pela fonte anónima: “Muito do que depois foi dito ou escrito envolvendo o meu nome interpretei-o como visando consolidar aqueles dois objectivos.
Incluindo as interrogações que qualquer cidadão pode fazer sobre como é que aqueles políticos sabiam dos passos dados por membros da Casa Civil da Presidência da República. Incluindo mesmo as interrogações atribuídas a um membro da minha Casa Civil, de que não tive conhecimento prévio e que tenho algumas dúvidas quanto aos termos exactos em que possam ter sido produzidas. Mas onde está o crime de alguém, a título pessoal, se interrogar sobre a razão das declarações políticas de outrem?
Ontem, o jornal “i” fazendo eco da notícia do Semanário de há um mês também referiu que Jorge Sampaio está a ser desafiado para recandidatar-se a Belém nas próximas eleições presidenciais. Para o jornal, alguns socialistas admitem que, se for “muito forçado”, em nome dos “interesses nacionais”, e em “determinadas circunstâncias”, o ex-presidente poderá eventualmente acabar por ceder a uma recandidatura a Belém. Os apoiantes de Mário Soares, segudo o “i” estão a apostar nesta hipótese ou, em alternativa, na de convencer Jaime Gama, o presidente da Assembleia, a candidatar-se à Presidência.

Também segundo o jornal, a única pessoa que avançou claramente com o nome de Jorge Sampaio foi Alfredo Barroso, militante socialista que foi chefe da Casa Civil de Mário Soares e que agora vê em Sampaio um grande candidato à Presidência da República:
“admito que a recandidatura do dr. Jorge Sampaio seja uma possibilidade. No cotejo com o actual Presidente da República foi seguramente melhor Presidente e seguramente com mais sentido de Estado. Não há nada, constitucionalmente, que impeça a recandidatura”.
Jorge Sampaio, que foi Presidente da República entre 1996 e 2006, venceu Cavaco Silva na sua primeira eleição, há dez anos, tendo frustrado as expectativas do então ex-líder do PSD e ex-primeiro-ministro. Desde que saiu da Presidência da República, com um capital político intacto, muito ligado ao magistério de influência que exerceu em momentos-chave dos mandatos e que contribuiu para unir os portugueses, Jorge Sampaio tem mantido uma acção pública muito intensa, quer a nível internacional, na luta contra a tuberculose, quer a nível nacional, ainda recentemente tendo desenvolvido os seus bons ofícios para que existisse uma coligação de esquerda em Lisboa. Refira-se que Jorge Sampaio, apesar de uma vida política muito intensa, é um homem relativamente novo, fazendo 70 anos em Setembro, sendo mais jovem que Cavaco Silva.
A grande dúvida passa, naturalmente, por saber se Jorge Sampaio aceita mesmo este desafio. Num cenário em que Cavaco se recandidata, as condições políticas de uma candidatura socialista são bastante mais desfavoráveis. Mal grado a fragilidade de Cavaco. Tanto Ramalho Eanes, como Mário Soares e Jorge Sampaio fizeram dois mandatos no Palácio de Belém. Nas reeleições dos Presidentes, os portugueses corresponderam com votações muito elevadas, das quais a mais expressiva foi a de Mário Soares, com 70 por cento de votos. Certamente que Sampaio não é alheio a este aspecto desfavorável, ainda para mais com o risco de a sua candidatura ser interpretada no sentido de não querer permitir a Cavaco os dois mandatos que ele próprio cumpriu.

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