Cavaco Silva 2007-08-23 23:28
O prof. Cavaco Silva deve sentir todos os dias algum desconforto no País que é o seu, o nosso e que ele governou, durante uma década, já lá vão doze anos.
O prof. Cavaco Silva deve sentir todos os dias algum desconforto no País que é o seu, o nosso e que ele governou, durante uma década, já lá vão doze anos.
Investido nas altas funções presidenciais, com ampla capacidade oratória, mas parcos poderes reais, acredito que em Belém passe horas muito amargas. O País não é o que ele sonhou e empobreceu notoriamente depois de um período de expansão económica, durante o tempo em que foi primeiro-ministro. A qualidade da maior parte da classe política diminuiu de forma quase assustadora.
Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. O aumento do número de ricos não se traduz numa evolução promissora da riqueza nacional em termos globais. As desigualdades acentuam-se de um modo gritante, perante um silêncio estranho de Cavaco Silva. É certo que ele disse que a economia não arranca e que vai ser exigente nos resultados. Mas vendo bem as coisas, que instrumentos políticos tem ao seu dispor para sancionar o Governo - é disso que se trata - se os índices de pobreza e de bem-estar continuem altamente deficitários?
Em boa verdade não tem qualquer espaço de manobra, nem sequer para construir a ideia de uma dissolução do Parlamento a médio prazo. Além disso, não é seu feitio perturbar a estabilidade política, mas Cavaco Silva sabe que a estabilidade tem de ter efeitos dinâmicos e positivos, sob pena de asfixiar ainda mais os portugueses. Por isso, em Belém, Cavaco Silva deve ser um verdadeiro sofredor manietado e sem recursos. Só isso explica actuações suas em terrenos perigosos e menores no contexto daquilo que se pensa ser a intervenção presidencial. Os pressupostos da sua magistratura presidencial
de cooperação institucional e estratégica estão a sofrer os primeiros graves rombos, porque a governação de José Sócrates tem aspectos objectivos que não favorecem as relações fáceis entre os dois órgãos de soberania. É certo que o actual primeiro-ministro não alimenta os ruídos de uma tensão latente que só não vislumbra quem não quer. Mas Sócrates sabe muito bem, como aliás Cavaco Silva, que o Presidente não tem alternativas de poder - como teve Jorge Sampaio, quando, com o acordo de Cavaco, fez cair o governo de Santana Lopes.
É por isso que a situação no PSD tem uma importância excepcional no momento que passa. Ou os social-democratas resolvem a contento as suas lutas internas e o PSD assume outra vez a sua feição de partido de poder, com ideias alternativas, projectos de governação, oposição responsável e actuante, e nesse sentido proporcionar algum conforto político a Cavaco Silva, alargando ao Presidente o seu espaço de manobra, ou não consegue e nesse sentido Belém não pode acelerar uma intervenção política que se arrisque a ser improdutiva.
Hoje, os silêncios de Cavaco Silva são perturbadores, perante o descalabro em que vive a sociedade portuguesa. Há muito que não lhe ouvimos uma palavra de conforto aos portugueses que vivem no limiar, um pouco acima ou abaixo dos limites da dignidade. Daí que, em casos como o do professor Charrua, do despedimento da directora do Museu Nacional de Arte Antiga ou do ataque de pretensos ecologistas a uma herdade de milho transgénico tenham sido os pretextos medíocres da mais recente intervenção presidencial. Não têm consequências práticas, nem consegue colocar o Governo em respeito. O Governo também sabe que o Presidente está manietado e com falta de instrumentos activos de intervenção.
Um histórico dirigente do PSD é da opinião que Cavaco Silva "nem a tiro" gostava de ver Luís Filipe Menezes na liderança do PSD. Ele deve ter lido o artigo recente de Silva Peneda, que o SEMANÁRIO referirá noutro local. Por isso, a "bola" está em Marques Mendes. O mesmo dirigente dizia-me que "a obrigação de Mendes é ganhar". Pois que ganhe, mas que transforme o PSD num partido actuante e sem sombras escuras ou cinzentas. Só um PSD genuinamente reciclado pode fazer com que Cavaco Silva deixe de sentir refém e amargurado no Palácio de Belém.
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