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Portugal em risco de recessão ainda este ano
2008-08-21 20:32

Portugal corre o risco de entrar em recessão já no próximo trimestre (entendido aqui como crescimento negativo). A Europa já está toda em recessão e o resto do mundo começa a abrandar. Segundo as nossas expectativas, a recessão global deverá sentir-se no final do ano com repercussões muito negativas para a procura externa. Internamente o corte no crédito ameaça o consumo e o investimento. É isso mesmo que os indicadores de actividade do INE dizem ao mostrarem o agravamento da conjuntura.

Portugal pode já ter um crescimento negativo no próximo trimestre, deitando por terra toda a estratégia de propaganda do Governo, que ainda este mês anunciava o propósito de atingir os 150 mil empregos novos. Portugal, pela primeira vez, tem o desemprego a aumentar no Verão, ao mesmo tempo que a emigração, sobretudo dos jovens, está a aumentar significativamente. Mas no Executivo teme-se que o agravamento da crise espanhola faça regressar a Portugal uma parte dos 200 mil empregados da construção civil portugueses que estão a trabalhar no país vizinho.
Sem nenhuma estratégia, para além da propaganda, e sem qualquer iniciativa para conter a crise, o governo socialista vai contando com a passividade do PSD, embora comece a olhar para Cavaco Silva como a verdadeira ameaça ao seu poder.
Entretanto, os indicadores do clima de actividade vão no mesmo sentido. O indicador de clima económico do mês passado e o indicador da actividade económica de Junho agravaram-se "significativamente", mostram os dados divulgados esta semana pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Segundo o INE, o indicador de clima económico, já disponível para Julho, recuou para 0,4 pontos, contra 0,7 pontos em Junho, enquanto o indicador de actividade económica, relativo a Junho, desceu 0,7 pontos, menos 0,7 face ao mês anterior.
A mesma fonte indica que, devido ao abrandamento das principais economias europeias, e ponderado pela estrutura das exportações portuguesas, o Produto Interno Bruto (PIB) dos principais países clientes de Portugal terá desacelerado em 0,7 pontos percentuais para 1,7%.
Assim, no nosso país plano, a estimativa rápida para o crescimento homólogo do PIB no segundo trimestre foi de 0,9%, o mesmo valor do trimestre anterior.
"Por um lado, a procura externa terá apresentado um contributo menos negativo, dado o abrandamento mais intenso das importações relativamente ao das exportações, mas, por outro lado, a procura interna terá abrandado, em resultado da forte desaceleração do consumo privado", nota o INE.
Relativamente ao comércio internacional, a mesma fonte diz ter sido registado, em termos nominais, "um abrandamento de ambos os fluxos, de 12,3% para 9,0% no caso das importações e de 4,8% para 3,4% no das exportações. O abrandamento das importações em volume terá sido ainda mais expressivo do que o registado em termos nominais, em consequência da aceleração dos preços do petróleo no segundo trimestre".
Em termos da procura interna, o INE nota que o consumo privado terá desacelerado no segundo trimestre, em resultado da deterioração observada, quer no consumo corrente, quer no duradouro, mas principalmente no segundo.
"De acordo com a informação disponível, o investimento ter-se-á apresentado relativamente estável no segundo trimestre, observando-se uma recuperação na componente de construção e um agravamento nas componentes de máquinas e equipamentos e de material de transporte. Do lado da oferta, a informação dos Indicadores de Curto Prazo (ICP) apresentou evoluções contrárias entre os vários sectores, entre o primeiro e o segundo trimestres", nota a mesma fonte.
Já a taxa de desemprego situou-se nos 7,3% no segundo trimestre, o que representa uma quebra de 0,6 pontos percentuais do que no trimestre homólogo de 2007, enquanto o emprego registou um crescimento homólogo de 1,4%, mais 0,3 pontos percentuais do que no primeiro trimestre.
Em termos de inflação, esta atingiu em Julho um aumento homólogo de 3,1%, menos 0,3 pontos percentuais do que no mês anterior. Já o diferencial entre o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) da AE e de Portugal aumentou 0,3 pontos percentuais em Julho para 0,9 pontos percentuais.


Custo do crédito sobe mais em Portugal do que na Zona Euro

Entretanto, esta semana, confirmou-se que Portugal é o país da Zona Euro com maior aperto das condições de crédito, uma tendência transversal às economias, mas que afecta com especial gravidade os segmentos nacionais de crédito à habitação e às empresas. Uma situação que agrava substancialmente a situação dos agentes económicos em benefício dos bancos.
Dados disponibilizados pelo Banco Central Europeu relativos à taxa de juro média antes de encargos e comissões (a taxa nominal média cobrada pelos bancos que inclui a margem ou lucro dos bancos em sede de taxa de juro) mostram que o custo do crédito à habitação em Portugal foi o que teve o maior aumento desde o início da crise financeira, há mais de um ano.
Nas empresas o aperto é o terceiro maior, o que é particularmente penalizador, pois as taxas de juro nominais praticadas neste segmento já são, há vários meses, as mais elevadas da região da moeda única.
Olhando só para os "spreads" ou lucro dos bancos (diferença entre a taxa nominal praticada em Junho e a Euribor a seis meses média do mês de Maio), Portugal e Chipre são os únicos onde as margens aumentaram no crédito à habitação. Isto apesar de os juros subirem de forma igual em todos os países - a Euribor, a taxa de mercado, é igual para todos.
Já nos empréstimos às empresas, a tendência geral foi para os "spreads" aliviarem, mas Portugal e países como Chipre, Eslovénia e Espanha foram a excepção à regra.
No inquérito aos bancos sobre o mercado de crédito conduzido pelo Banco de Portugal (divulgado este mês), as instituições justificam o endurecimento das condições com a maior dificuldade em se financiarem (terem dinheiro para depois emprestar) na sequência da crise financeira. Mas também com o facto do risco de crédito tender a aumentar à luz das expectativas mais desfavoráveis para a economia e mercado de habitação. Fonte oficial de um grande grupo bancário português explicou que "a tendência é para o valor das casas cair, o que significa que o crédito concedido terá de acompanhar".
Recorde-se que o nível de endividamento em Portugal não pára de subir, pois a esmagadora maioria dos créditos é concedida a taxas variáveis. As contas do BdP dizem que o nível de endividamento das famílias vale 129% do rendimento disponível, um dos mais altos da Zona Euro; o das empresas 114% do PIB. Nesse sentido, os peritos e os próprios bancos avisam que o aperto em curso terá consequências negativas sobre a economia (altamente dependente do crédito) ao longo dos próximos trimestres. Os portugueses vão ver o seu nível de vida descer.


Crise empurra a Eurozona para um défice comercial de 12.600 milhões contra o superávit de 2007

Os dados dos primeiros seis meses do ano contrastam com o saldo positivo de 8,7 mil milhões do ano passado. A Balança Comercial da Zona Euro acumulou um défice de 12.600 milhões de euros nos primeiros seis meses do ano, de acordo com os dados do Eurostat.
Mas, o problema é geral na Europa dos 27 que, nos primeiros seis meses, teve um défice acumulado de 120.200 milhões de euros, o que representa um aumento de 31% relativamente ao período homólogo do ano passado. Uma situação que mostra que já nem as grandes economias, que resistiram até agora, conseguem suportar o brutal embate de uma das maiores crises económicas do capitalismo.


Crise do "subprime" sem fim à vista

Por outro lado, as más notícias continuam a chegar da América, contaminando a economia real. O pior da crise financeira global ainda está para vir e um dos maiores bancos dos Estados Unidos deverá ir à falência nos próximos meses, devido ao agravamento da crise de crédito na maior economia do mundo, alerta Kenneth Rogoff, antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).
"Creio que a crise financeira [nos Estados Unidos] está talvez a meio. Até vou mais longe e dizer que 'o pior ainda está para vir'," disse esta semana Rogoff, durante uma conferência em Singapura, citado pela Reuters. O também professor de Economia na Universidade de Harvard considera que "o sector financeiro precisa de encolher" e não acredita que seja suficiente que somente alguns bancos de pequena e média dimensão declarem falência.
"Não vamos assistir apenas à falência de bancos de média dimensão nos próximos meses, vamos ver uma bancarrota notável, ver um dos grandes, um dos maiores bancos de investimento ou dos grandes bancos [a entrar em processo de falência]", disse Rogoff, que preferiu não nomear o banco em questão.
"Temos de assistir a uma maior consolidação no sector financeiro antes de isto [a crise financeira] acabar", afirmou, quando questionado sobre eventuais sinais de um fim próximo da crise.
Rogoff adiantou também que "provavelmente a Fannie Mae e a Freddie Mac - apesar do que o secretário do Tesouro norte-americano Henry Paulson disse -, estas gigantes do financiamento e garantia de hipotecas, não vão existir na sua forma actual em poucos anos".
No passado dia 13 de Julho, o secretário do Tesouro norte-americano Henry Paulson pediu ao Congresso para injectar dinheiro do Governo, em quantias "não especificadas", na Fannie Mae e na Freddie Mac, se necessário.
Os comentários de Rogoff surgem depois de esta semana as acções das duas maiores empresas de financiamento e garantias de hipotecas dos Estados Unidos terem registado quedas entre os 22 e os 25% na Bolsa de Nova Iorque, após terem sido divulgadas pela imprensa notícias de que o Governo Federal dos EUA pode não ter uma alternativa à nacionalização efectiva das duas empresas.|

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