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Por que é que a direita portuguesa deixou de ser eurocéptica?
2008-01-17 22:19

Adesão do PSD e PP ao Tratado de Lisboa é o espelho das novas posições

Joaquim Aguiar

"A direita nacionalista já não tem nenhuma relevância, porque o espaço nacional não tem dimensão para sustentar o crescimento económico"

As correntes localizadas no quadrante da direita, tal como acontece no quadrante da esquerda, têm diferenciações. Há uma direita nacionalista e proteccionista (como também há a posição comunista estatizante e intervencionista) para quem as instituições e o espaço europeus constituem uma inaceitável limitação para os seus modos de acção política e para a concretização dos seus projectos. Mas também há uma direita liberal e modernizadora, para quem o horizonte europeu, como oportunidade de alargamento do espaço e como sistema de fiscalização da propaganda e dos erros nacionais, é a última esperança que lhes resta de que venha a ser possível uma estratégia de desenvolvimento em Portugal. A primeira corrente, na direita ou na esquerda, já não tem nenhuma relevância, porque o espaço nacional não tem dimensão para sustentar o crescimento económico. A segunda corrente não chega a constituir um posição programática, não é eurocéptica ou eurofílica, é apenas uma necessidade para quem não tem instrumentos próprios de influência política no espaço nacional.|


Ivan Nunes

"Ao abandonar o eurocepticismo, Paulo Portas fez uma escolha pragmática, para poder estar dentro do 'arco governativo'"

O "eurocepticismo" não parece ter sido, em momento nenhum, uma aposta forte na direita portuguesa. Apesar de todas as dificuldades, especialmente as que temos vivido depois da integração no Sistema Monetário Europeu e no Euro, há uma convicção generalizada de que Portugal estaria muito pior sem a União Europeia. No quadro europeu, somos um país pobre e bastante consciente dos efeitos positivos dos "fundos de coesão" sobre a economia portuguesa no período 1985-2000; altamente consciente, também, das próprias limitações. Mesmo as forças de esquerda que se opõem a muitos aspectos da União Europeia (e, antes, da CEE), como o PCP e em parte o Bloco de Esquerda, têm assumido sobre estes assuntos um perfil relativamente discreto.
É claro que não é impossível que as coisas venham a mudar, sobretudo se a economia portuguesa continuar a não conseguir gerar crescimento, emprego e aumento de salários, e na medida em que isso seja encarado como consequência das políticas europeias. Para já, ao abandonar o "eurocepticismo", Paulo Portas fez uma escolha pragmática, para poder estar dentro do "arco governativo" (designadamente, para se poder aliar ao PSD em 2002, quando teve ocasião de ir para o governo). Renunciou ao "eurocepticismo", que de qualquer maneira nunca lhe rendeu assim muitos votos. Entretanto, Manuel Monteiro, em parte por inépcia própria, também não teve sucesso nenhum em captar o "eurocepticismo" que Paulo Portas abandonou.|


Adelino Maltez

"A voz do comando dessa multinacional partidária chamada PPE mandou encerrar o ciclo eurocéptico"

"A direita a que chegámos chama-se Menezes e Portas e ambos estão sujeitos ao programa dessa multinacional partidária chamada PPE, a que livremente se submeteram. Logo, se a voz de comando dessa multinacional mandou encerrar o ciclo eurocéptico, eles têm que submeter-se para poderem sobreviver e andar ao lado dos irmãos-inimigos do PSE..."


António Costa Pinto

"O abandono táctico não deve ser entendido como o fim do eurocepticismo"

"A direita portuguesa teve um berço europeísta no quadro de uma transição democrática complexa. O CDS foi na sua criação um partido com um programa quase federalista na tradição da família democrata cristã europeia. O acentuar da sua dimensão soberanista veio mais tarde, com Manuel Monteiro e Paulo Portas, muito embora nas batalhas ideológicas do pequeno microcosmos da direita portuguesa o soberanismo pós imperial e atlantista sempre estivesse presente. Valha a verdade que o antieuropeísmo também não rendeu muito em termos eleitorais.
Mas o seu abandono táctico, com a entrada do CDS-PP no governo de coligação de Durão Barroso, não deve ser entendido com o fim do eurocepticismo. Numa conjuntura em que os portugueses se apresentam menos confiantes na União Europeia, esse espaço politico minoritário será seguramente utilizado."|


Jaime Nogueira Pinto

"Deixou? Não sabia. Se me disser que as lideranças dos partidos oficialmente à direita do PS deixaram, talvez. Mas já deixaram e já voltaram a tanta coisa... Em contrapartida, quem está um eurocéptico é o Sarkozy, com a preferência nacional!"


Rui Ramos

"O eurocepticismo representou apenas uma lucidez sem futuro e um oportunismo de ocasião"

"A decana dos eurocépticos na Europa, a sra. Thatcher diz nas suas memórias ter apreciado o jovem primeiro-ministro português Cavaco Silva. Mas notou logo que Portugal era demasiado pobre e a Alemanha demasiado rica para deixar o primeiro-ministro português desenvolver o seu cepticismo.
Depois, houve sintomas de eurocepticismo no PP. Foi por volta da crise de 1993, quando os drs. Monteiro e Portas se entusiasmaram muito com a agricultura e pescas. Passou com a crise e com essas actividades.
Em suma, à direita, o eurocepticismo nunca correspondeu, como em Inglaterra, a um projecto plausível de defesa de uma economia competitiva contra as restrições da UE, ou a uma visão nacional do mundo, oposta à direcção partilhada da UE. Representou apenas uma lucidez sem futuro e um oportunismo de ocasião. E por isso não durou."

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