Tudo em aberto na Energia em Portugal 2005-12-16 11:23
Galp - Iberdrola vai vender
EDP - Pina Moura no Conselho de Administração
BCP pode vender EDP à Iberdrola
TAP - Pinto faz resultados com venda de bilhetes à própria TAP
Varig - Stanley Ho compra sem portugueses
Refinaria de Sines - Banca não acredita em Monteiro de Barros
A situação começa a inverter-se e a oportunidade dos portugueses começarem a comprar em Espanha parece estar a chegar. Do lado da banca, o BCP dá passos de gigante ao comprar o Banco da Roménia, depois de assegurar em Lisboa que se houver alguma tentativa de OPA nos próximos dois anos, o Governo estará presente para não deixar ninguém entrar. Cavaco Silva concorda com a estratégia nacional e esta semana defendeu mesmo a manutenção dos centros de decisão nacional em mãos portuguesas.
Ninguém demite Fernando Pinto?
Na TAP vive-se em súbita bonança. Na banca percebe-se que a TAP nunca teve tanto dinheiro como agora. Nem no tempo da Guerra colonial, comentou ao SEMANÁRIO um banqueiro português. E tudo porque a TAP vendeu o handling e recebeu a pronto, comprou os novos aviões mas não os pagou. Para esta ilusão contribui também a imagem que Fernando Pinto faz de si em paga nos media. Nos últimos quatro anos as contas têm sido manipuladas, acredita-se nos meios financeiros. Os resultados da TAP continuam a ser negativos e só não são mais negativos, porque o senhor Pinto compra bilhetes que a TAP efectivamente não vende e reflecte isso no balanço, sem que nenhum auditor expressamente o diga. Ainda por cima o senhor Pinto conta com um grupo de jovens MBAs, que desconhecem contabilidade e que avalizam a "brincadeira". Depois, no Brasil, passa a imagem que é importante em Portugal e aqui que é um bom gestor de escala internacional. Tem resultado e a TAP, embora com menos património, parece estar rica.
Porém a ilusão começa a desfazer-se. Esta semana a TAP foi ultrapassada numa manobra tipicamente brasileira e perdeu a Varig. Ainda por cima, quem entra na jogada é já um "esperto" brasileiro, que antes "sacou" uns milhões de dólares aos Espíritos para deixar de colocar processos judiciários no Brasil.
No Brasil disseram-nos que "só um insensato poderia imaginar que os brasileiros iriam abrir mão da Varig, do mesmo modo que o Governo britânico também não deixou o Koweit comprar acções da BP".
Prejudicar o País, como fez Pina Moura, totalmente consciente do que estava a fazer - percebe-se agora, o que antes se escreveu, nomeadamente no SEMANÁRIO, que Pina Moura mandou falir - e as palavras de Freitas do Amaral que, em nome da Petrocontrol, em 2000, disse que o Governo, leia-se Pina Moura, os obrigou a vender as acções da Galp à ENI - não acontece na maioria dos países.
Mas o mais surpreendente é que a fundação que controla a Varig não quer nem portugueses nem Ferro Ribeiro pendurado com Almeida Santos, e muito menos o senhor Pinto da TAP, em quem não confia. Mas vai querer Stanley Ho, que deverá finalmente ficar dono da Varig, sem precisar dos portugueses.
E agora, ainda que o dinheiro adiantado seja de Ferro Ribeiro ou de Stanley Ho, o certo é que os milhões de dólares pagos pela TAP para estudar e preparar a operação - uma operação impossível - somam aos vultuosos prejuízos que a TAP vem acumulando, na última década, e que aumentam o buraco da transportadora aérea nacional.
Fernando Pinto e a administração da TAP defendem-se com a tutela. Foi o Governo que deu cobertura. Se o senhor Pinto cai, antes tem de cair o insensato ministro dos Transportes, comenta-se nos corredores do negócio.
Este ano, a gestão de Fernando Pinto deve somar um dos maiores prejuízos de sempre da transportadora nacional, curiosamente quando acaba de comprar Airbus para a frota da empresa, sem que seja explicada a urgência do negócio.
Depois deste desaire, os socialistas avessos a "tríades", dizem que "no mínimo o brasileiro Fernando Pinto deveria interromper a sua campanha publicitária e ser despedido por indecente e má figura". Só que, conforme o SEMANÁRIO pôde apurar no PS, o senhor Pinto, não só não vai ser despedido, como vai ter o ministro do Governo de Portugal, leia-se o ministro dos Transportes, Mário Lino, a ir ao Brasil "branquear-lhe a imagem", para discutir transportes aéreos com o Governo brasileiro.
Ou seja, o Governo, em vez de demitir o brasileiro, que parece ter mexido nas contas da TAP, qual Enron, segundo alguns bancos nacionais, vai humilhar-se e pedir explicações a Brasília.
No PS, a urgência de uma remodelação faz-se sentir em face desta situação lamentável: "De facto, não era só o senhor Pinto que deveria ir para a rua. E o ministro dos Transportes também precisa de ser rapidamente remodelado."
Banca não acreditana nova refinaria de Sines
Mas a perplexidade, no meio dos negócios, esta semana, não fica por aqui. Um "esperto" - é assim que os bancos nacionais falam dele - sem grande história, mas com boa comunicação social, aparece como um dos grandes interlocutores do Governo português e "saca" um entendimento para poluir e ainda mais 20% do investimento - um cheque que pode chegar a 800 milhões de euros.
Tudo isto tem a ver com uma nova refinaria para Sines, anunciada por Patrick Monteiro de Barros.
A história conta-se rapidamente. Os grandes derrotados do negócio de Américo Amorim na Galp foram sobretudo o BES e o BPI. O primeiro, porque andava com Ângelo Correia e a Carlyle e não conseguiu montar a operação, e o segundo, porque o grupo do Norte, de Ferreira de Oliveira e da Petrocer, não tinha dinheiro para pagar pela Galp. Américo Amorim falou com Horta Osório, que viu uma boa oportunidade para Emilio Botin fazer um negócio de comissões importantes e sem risco. Se Amorim não pagar a Galp passa imediatamente para as mãos dos espanhóis. E em segundo lugar, Amorim poderá sempre vender à Sonangol, ou ao seu banco angolano, cujo capital divide com a família do Presidente José Eduardo dos Santos, o banco da moda em Angola e cujo pessoal Amorim foi buscar ao BPI. Ora neste contexto Ricardo Salgado tinha que mostrar alguma iniciativa para que a humilhação do BES não fosse pública. E Patrick Monteiro de Barros estava mais uma vez a jeito - já antes tinha servido para afastar José Roquette do GES. Em menos de uma semana e meia o Governo, a quem dava jeito anunciar mais projectos nesta fase, para contrariar a onda de pessimismo nacional, mandou a API fazer os contratos de investimentos e os protocolos de entendimento. Todos fizeram de conta que era coisa importante e todos se prestaram ao "jogo", ao que o SEMANÁRIO pôde apurar.
É claro que, no melhor dos casos, não vai haver nenhuma Refinaria em Sines e, no pior, até se vai construir uma refinaria, para alguns intermediários receberem uns milhões, muitos milhões de euros (mas que, "no final, será outra Petroquímica - a tal que Ricardo Cabrita, com dossiers inacreditáveis e ilegíveis, conseguiu, durante anos, fazer crescer e que nunca deu um escudo de retorno, passando depois o passivo a dívida pública. A mesma que, vinte ou trinta anos depois, os portugueses ainda estão a pagar, com os seus impostos.)
Como no fim do marcelismo
Estamos num período muito parecido com o fim do marcelismo, considera-se nos meios dos negócios. Os regimes, quando estão em causa, podem ser levados a fazer planos suicidas, dando sempre espaço para alguns beneficiarem e enriquecerem com a situação, apesar da boa intenção do Governo e sobretudo do primeiro-ministro. Patrick Monteiro de Barros é, no entendimento de alguns banqueiros que o SEMANÁRIO ouviu, um desses "espertos" - bom na vela -, que soube aproveitar a situação política de um ministro da Economia em fim de ciclo, incapaz de contrariar a crise económica e que, em nome da propaganda, parece decidido em não olhar para o futuro.
Nos meios do petróleo europeus, por outro lado, foi uma enorme gargalhada, esta semana, o que ainda ridicularizou mais Portugal no mundo dos negócios: "- Já a Total tinha saído de Portugal e foi dizer por toda a Europa que ‘Portugal era um país de corruptos', no início do século, e, agora, parece haver uma nova onda de ‘má imagem' sobre os negócios em Portugal".
Não vai haver refinaria nenhuma, parece haver consenso no sector. A banca em Portugal também considera que felizmente para Portugal tudo isto não passa de propaganda, a fazer lembrar a cimenteira de Dias Loureiro, lançada exactamente quando havia problemas de imagem no grupo. "Até agora, cimenteira nem vê--la..." - comenta-se nos meios económicos.
Do lado do Estado, o sistemático destruir de iniciativas, os velhos do Restelo, a maledicência nacional, é a razão de tanta desconfiança. O poder político não pode admitir que foi enganado, nem sequer que se trata de "uma manobra política inteligente para a qual usa Patrick Monteiro de Barros, que se pôs a jeito".
Com efeito, não existe nenhum compromisso sério de compra/venda do gasóleo para os EUA, até porque só não é viável gasóleo aos EUA a partir da Europa, ou à Europa a partir de Sines. De igual modo, o acordo de entendimento firmado com o Governo de Lisboa também não compromete em definitivo nada: nem Lisboa dá direitos de poluição ao senhor Patrick Monteiro de Barros, nem compromete fundos comunitários. Tudo fica no condicional, a API de Basílio Horta teve o cuidado de defender a honra da casa: admite-se a abertura para estudar a nova refinaria de Sines, o que é um ponto de partida para Patrick Monteiro de Barros, depois do fracasso da America Cup, poder ir vender uma ideia a empresários americanos. "Até parece que já há alguns dispostos a meter dinheiro" - disse ao SEMANÁRIO fonte próxima do negócio. Há sempre gente para tudo!
No caso do mercado de gasóleo dos EUA, é certo que, por causa das externalidades - leia-se poluição - nenhum Estado americano permite a construção de uma refinaria em território americano. Porém, obviamente, as grandes companhias vão construi-las às Caraíbas. E, portanto, a Europa está sempre fora do mercado, dados os custos do transporte.
Portugal pode desenvolver S. Vicente
No máximo, aquilo que poderemos fazer são depósitos em S. Vicente, aliás, algo que está estudado há mais de trinta anos, ou, eventualmente aproveitando as oportunidades do mercado da Galp, aumentar-lhe a capacidade de refinação de 10 milhões para 15 milhões de barris. O que poderia ser rápido e mais barato, dizem os especialistas ouvidos pelo SEMANÁRIO do que uma nova refinaria.
"Ninguém pode dizer que vamos fazer uma refinaria para trazer tecnologia para Portugal, ou para dar emprego no curto prazo. Não é sensato substituir a falta de investimento estrangeiro por 'elefantes brancos', que vão pesar sobre as próximas gerações, como aconteceu com a Siderurgia Nacional, a Lisnave e a Petroquímica depois das nacionalizações" - adiantava ao SEMANÁRIO conhecedores do processo.
O TGV é estratégico
Construir o TGV é um problema estratégico, há actualmente unanimidade nos meios políticos e técnicos, estando isolado Marques Mendes do PSD, que obviamente não tem credibilidade na matéria. O próprio Cavaco Silva esta semana desautorizou Marques Mendes, ao considerar a oportunidade da sua construção.
Quanto à Ota, há que ter a noção que só vale a pena fazer se houver fundos comunitários e alternativas de financiamento ao investimento público. José Sócrates, em abono do plano, disse ser irresponsável não aproveitar os fundos disponíveis. Nem que seja apenas para manter emprego de baixo nível na construção civil, o certo é que a infra-estrutura nunca pesará de mais na dívida pública.
Uma refinaria, pelo contrário, dizem os técnicos do sector, "é um disparate sem nome e, pior que isso, é pura propaganda". Nos meios do petróleo garante-se que, "daqui a quatro anos, o senhor Patrick Monteiro de Barros - "o novo Monteiro dos milhões" - não terá construído nenhuma refinaria, tal como também não construiu nenhuma central nuclear".
"Não existe nenhum empresário ou empresa séria deste mundo que, seis meses antes, esteja apostado numa central nuclear, e que depois aparece com uma refinaria", comentava-se esta semana em Lisboa. Porém, do lado do PS, Monteiro de Barros mostrou papéis assinados e pelo menos foi útil politicamente para mandar um aviso para a Galp, numa altura em que a Sonangol e Américo Amorim tomam posição.
É certo que Patrick Monteiro de Barros pode dizer que tem agora uma licença para poluir - daquelas que só se arranjam em África ou em países de elevada corrupção - e ainda a comparticipação financeira do Estado português e da API.
Vai começar a partir de agora a procurar quem fique com o negócio. Se conseguir colocá-lo, fica a advertência: quem o vai pagar serão os nossos impostos.
Iberdrola vende Galp e compra a EDP ao BCP
Entretanto, o negócio da compra da Galp por Américo Amorim parece marcar a agenda. Apesar da Iberdrola ter feito constar que não vende a Américo Amorim a sua posição, o SEMANÁRIO pode apurar que os espanhóis aguardam apenas a conclusão da fusão entre a Endesa e a Gaz Natural (em Espanha), para realizar a operação e poderem realizar mais-valias. Deste modo a concertação estratégica já está assegurada. Como contrapartida, os socialistas já admitiram dar aos espanhóis mais cerca de três a quatro por cento da EDP, eventualmente a posição do Millennium bcp - que terá que vender a EDP para comprar o Banca Comerciala Romana, cuja vitória deverá ser anunciada no próximo dia 20 de Dezembro, pelo governo de Bucareste. A Iberdrola compra a posição do BCP eventualmente e desde já Pina Moura entra para o Conselho de Administração da EDP como não executivo. O deputado socialista, e pessoalmente responsável pelo drama que se vive no sector energético nacional, deverá contudo ser obrigado a concertar um acordo parassocial, no qual a Iberdrola se vai comprometer a não fazer concorrência à EDP em Portugal. Porém, a Iberdrola já tem uma licença para uma central a gás, que irá produzir energia em Portugal, pelo que aparentemente a vontade do Governo e as necessidades de "cash" do BCP podem não jogar com os interesses da Iberdrola, comenta-se na EDP.
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